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A GENTE SE ACOSTUMA...

A juventude é mágica. E faz de nós super-homens imaginários, cavaleiros sem armadura empunhando a espada de um idealismo cada vez mais fora de moda...

A gente não teme a vida, aliás, nem a conhece direito. Mas ela vem, corrompida ou corruptora, tocar nas nossas imperfeições e, através delas, macular a pureza dos corações ainda sonhadores...

E então a gente faz juras de auto-fidelidade, diz que vai ser sempre assim, que não vai mudar nunca, que "o sistema" jamais sairá vencedor...

E luta... luta... luta ... até não poder mais!
Resiste... resiste... resiste... até cansar!

E aí vai se entregando aos poucos, quase sem perceber, e pra sofrer menos, vai se acostumando a lutar tanto pra não conquistar nada, a correr sempre prá não chegar nunca em lugar nenhum.

Então se consola e se contenta com o "herói" que um dia se imaginou ser - mas que nem às paredes do próprio quarto conseguiu convencer que existia.

É, a gente se acostuma e - o que é pior - vai perdendo a capacidade de se indignar com essa busca incessante, irracional e desenfreada por um lucro cada vez mais crescente, cada vez mais mais ganancioso.

E vai descobrindo que quanto mais os lucros sobem, mais a gente desce e se violenta um pouco mais...

A gente se acostuma, esquece a vida na gaveta, e vai escondendo a culpa na desculpa de estar sendo profissional, com se "ser profissional" fosse sugar tudo de todos e de si mesmo até não restar mais nada...

A não ser o lucro, é claro!!! É em nome dele que trocamos os rótulos dos produtos para vendê-los como se fossem sonhos expostos na prateleira, ou pacotes promocionais de esperança.

E assim, pouco a pouco, vamos nos tornando produtos também. Produtos de um mercado cada vez mais injusto, impessoal e desumano. E bancarizado, como não?!? Porque hoje em dia todo mundo "precisa" ser bancarizado, ou seja, tem que pagar tarifas. Tem que tirar um pouco do pouco que tem pra poder se imaginar tendo o que nunca terá!

A TV e a publicidade estão aí pra isso. Pra dourar a pílula. Pra fazer acreditar que veneno é remédio. Para inverter as coisas e, assim, abrir as asas da nossa imaginação!!!

Não! O Banco não é do banqueiro!!! Nunca foi!!! É o banco dos 200 anos! O banco do João, do Paulo, da Maria, e até da pobre aposentada que, aos 90 anos, morando na zona rural e sem saber ler, nunca teve nada além de um mísero salário mínimo. Mas que "precisa" ser bancarizada, pagar tarifa, empréstimo e, pasmem, ter cartão de crédito!!!

Mas nós também estamos aí pra isso, como se fôssemos idiotas de plantão, prontos para sermos personagens desse conto de fadas. Prontos para acreditar que somos proprietários e não propriedade.

Mas a gente se acostuma!!! Ou quase...
Porque até o mais brilhante dos sistemas - criações fantásticas de criaturas mirabolantes - tem suas imperfeições. Ou seriam inconsistências??? Sei lá...

Seja o que for, eu devo ser uma delas. Acreditem ou não, eu devo ser uma imperfeição jurássica! Um produto mal concebido que apesar dos tantos cursos concluídos, certificações em investimentos e tudo o mais, nunca passou no controle de qualidade.

Devo ser uma inconsistência minúscula, por si só insignificante e quase imperceptível, maculando a magnífica perfeição do sistema. Uma quase nulidade escondida num lugar onde progresso se confunde com inércia e governo é sinônimo de inatividade.

Isso porque - embora tenha tentado tanto - nunca me acostumei por completo! Ou porque me acostumei a não me acostumar por inteiro. Porque sempre quis ser José Célio de Siqueira Fonsêca, como reza minha certidão de nascimento, ou tão somente
Célio, gente que se parece com gente, brasileiro convicto, pernambucano da gema, e quipapaense de nascimento e de coração.

Mas não deu!
Então, pra compensar um pouquinho, virei Célio Dubanko - uma frustrada tentativa de me disfarçar num pseudônimo que vale bem menos pelo que se escreve e muito mais pelo que se ouve...

Célio, do Banco!!! Parafraseando Caetano Veloso, sou o que soa! Assim mesmo, com todo o sentido de propriedade que a frase reflete...

Quem sabe, um dia, a gente se acostuma...

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Atualizado em: Ter 18 Nov 2008

Comentários  

#9 tania_martins 23-11-2009 22:38
Ótima crítica.
#8 tania_martins 23-11-2009 22:38
Ótima crítica.
#7 Hellena_Landcaster 31-07-2009 11:16
Espero nao me acustumar :D
#6 Hellena_Landcaster 31-07-2009 11:16
Espero nao me acustumar :D
#5 Isabel Furini 20-12-2008 08:28
Uma crítica na medida certa. Excelente!
+5 #4 Isabel Furini 20-12-2008 08:28
Uma crítica na medida certa. Excelente!
#3 Célio Dubanko 18-11-2008 17:48
Eu que agradeço a gentileza da visita! Fico feliz se, de alguma forma, fui útil.
#2 Helton Fesan 18-11-2008 12:57
Olá caro amigo. Obrigado pelo chacoalho, já estava querendo me acostumar. Belíssimo texto.espero os próximos.
#1 Helton Fesan 18-11-2008 12:57
Olá caro amigo. Obrigado pelo chacoalho, já estava querendo me acostumar. Belíssimo texto.espero os próximos.

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