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CONTE UMA ESTÓRIA

Morram todos os autores incapazes de contar uma estória, teria dito Shakespeare, das sombras do fantasmagórico e fedorento Umbral. A bravata foi contada por Tômaz Adler, durante um evento social, altas horas da noite, e depois de duas ou três generosas doses de Black Label. Se verdade ou mentira o fato leva à reflexão. No ano em que se comemora o centenário de morte do maior romancista brasileiro, outra efeméride, mas de menor importância completa 50 anos, a publicação de O Ventre, romance de estréia de Carlos Heitor Cony, esnobado pelos acadêmicos que consideraram o livro à época do lançamento (1958) pessimista e rude. Talvez esperassem algo como a fábula de Exupéry.

Escrever ficção é um desafio. Todos podem ser escritores, mas autores bem poucos.

Com todo o respeito que mereçam os ensaístas e os cronistas - a poesia é caso a parte - mas, os contistas, romancistas e novelistas, também os dramaturgos e os roteiristas de cinema (alguns), eles são deuses. Porque o autor é aquele que pinta com as palavras, é aquele que concebe, é um deus que tudo pode. Ele cria personagens, lugares e acontecimentos sobre os quais bafeja o sopro da vida.

Cony, por exemplo, é um daqueles raros casos verificados no Brasil, de alguém que, embora tenha exercido inúmeras atividades, do jornalismo a teledramaturgia, chega aos 82 anos, reconhecido como escritor.

Uma pincelada do seu refinado, porém, agradável texto, ainda pode ser conferida semanalmente num dos jornalões da capital paulista.

No ano em que todos bajulam a memória do autor de Dom Casmurro, Cony é o primeiro e único até o momento, a lembrar que, talvez, melhor do que Machado de Assis, fora Lima Barreto, autor de Policarpo Quaresma e Isaías Caminha.

Falta aos escritores brasileiros que pretendem se tornar autores, o desprendimento para romper com os cânones e estabelecer novos parâmetros para a ficção.

A mesma coragem que se tem para amassar folhas rabiscadas, deve se ter para esquecer a velha escrita e inventar outra.

Um autor realiza sua obra na solidão dos seus dias, ensinara Hemingway, portanto, se descobrirá capaz ou não, se souber conviver com a eternidade ou a ausência desta.

Quem quiser ser autor, prepara-se para seguir um caminho que bem pode levar o nada a lugar nenhum. Pegue sua mochila, uma muda de roupa e um calçado confortável. Leve uma garrafa d'água e, não se sinta humilhado se tiver de comer pão e ovo todos os dias durante muito tempo. E também não esqueça do cigarro e do trago de sua preferência, se deles não puder viver sem. Haverá noites de chuva e manhãs de vento frio. E geralmente ao relento. Leve também um chapéu para se proteger do sol escaldante e quando as idéias fervilharem em sua mente. E viva. E veja. E ouça. E sinta. E se isto fizer, certamente escreverás. Se tiver vontade o bastante para matar um leão por dia. Mesmo sabendo que aquela carne suculenta, muitas vezes conquistada a custo de suor e sangue, não matará sua fome. Quando muito satisfará o seu prazer. Aquele sentimento incompreensível que, normalmente, dura apenas um instante.
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Atualizado em: Dom 16 Nov 2008

Comentários  

#7 EdLaf 04-11-2009 15:06
Parabéns pela crônica.
Admiro sua facilidade e fluidez.
#6 EdLaf 04-11-2009 15:06
Parabéns pela crônica.
Admiro sua facilidade e fluidez.
#5 SANTOSH 29-12-2008 18:22
Conforme Oscar Niemeyer, o máximo em arquitetura é traduzido com o mínimo de linhas. Entendo que isso seja regra para qualquer tipo de arte. É por isso que admiro a sua.
#4 SANTOSH 29-12-2008 18:22
Conforme Oscar Niemeyer, o máximo em arquitetura é traduzido com o mínimo de linhas. Entendo que isso seja regra para qualquer tipo de arte. É por isso que admiro a sua.
#3 J. COSTA JR. 18-11-2008 08:37
Oh meu anjo. Você é um amor. A minha luta não é só minha. Na verdade, eu apenas represento a vontade de muitos. Sou apenas a ponta do iceberg. Muitos estão comigo.
#2 Bruxa dos Contos 17-11-2008 17:20
É moço ...
Escrever é arte .. ser reconhecido ... nossa ! Não da nem pra dizer o q é isso.

As obras de Van Gogh só tiveram valor depois de uma orelha arrancada e o pintor falescido ....

Aliás, mts são os q só são reconhecidos depois q estão no túmulo ... será pra economizarem nos direitos autorais ?

Mas o melhor é q vc mostrou a dificuldade, mas deu o incentivo: levanta do chão e cuida !
E se a fama durar apenas alguns minutos ... q seja ! A maioria nem isso tem.

Muito boa tua cronica, moço.
Acho q vai na alma de qualquer autor/escritor.

Beijo da Bruxa
+5 #1 Bruxa dos Contos 17-11-2008 17:20
É moço ...
Escrever é arte .. ser reconhecido ... nossa ! Não da nem pra dizer o q é isso.

As obras de Van Gogh só tiveram valor depois de uma orelha arrancada e o pintor falescido ....

Aliás, mts são os q só são reconhecidos depois q estão no túmulo ... será pra economizarem nos direitos autorais ?

Mas o melhor é q vc mostrou a dificuldade, mas deu o incentivo: levanta do chão e cuida !
E se a fama durar apenas alguns minutos ... q seja ! A maioria nem isso tem.

Muito boa tua cronica, moço.
Acho q vai na alma de qualquer autor/escritor.

Beijo da Bruxa

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