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Caso Noir

A pálida luz do luar iluminava os sinuosos becos da cidade, as notas do sax ecoavam enquanto o piano encorpava o som boêmio, a bateria marcava o ritmo dos lascivos corações. Os bares estavam cheios dos amantes e na rua reverberava as vozes excitadas e alteradas pelo álcool. O cheiro do uísque era quase palpável naquela taciturna noite.
Wesley se afastava da área boemia e conforme penetrava no obscuro lado da cidade os sons alegres diminuam e davam lugar a sussurros, latidos e uivos. A atmosfera ébria tornou-se carregada com os aromas de suor, lama e mijo. Por onde passou notou que alguns olhos o seguiam, e os mais ousados lançavam insultos, mas ele já aprendeu a ignorar esses tipos de julgamento e no momento tinha algo mais importante a fazer. Procurar e interrogar o suspeito do esquartejamento da rua 2.
Há 15 dias foi encontrado o corpo de uma jovem a beira do rio que passa sob a ponte na saída da cidade. A vítima estava dentro de uma mala de viagem com os membros cortados depositados nos bolsos menores enquanto o tronco se encontrava no compartimento maior. Apesar do estado de decomposição, os legistas estimam em 15 dias, foi possível identificar a garota.
Wesley entrou em mais um beco e finalmente se deparou com a casa de número 52. A frente tinha uma cor esverdeada pelas ervas que cresciam e dominavam quase toda parte frontal. Há pelo menos uma semana que chove, então o musgo estava molhado. Era perceptível para Wesley que a casa deveria ser usada para outros fins que não seja viver nela.
Wesley deu três batidas na porta e depois de um longo tempo uma mulher abre somente o suficiente para colocar a cara para fora.
— Pois não? — A mulher deve estar entre seus 35 a 40 anos, ou então não se cuida muito. Seus cabelos, cor de palha estavam desalinhados, as olheiras marcavam bem seus olhos (ela provavelmente não dormia bem há dias), seus lábios estavam ressecados e Wesley notou pequenas rachaduras neles.
— O senhor Marvin se encontra? — ele sabia que sim, estava na cola de Marvin Reis há um tempo. A pergunta era para saber o nível de envolvimento da mulher.
— Não mora ninguém aqui com esse nome- a voz, os dentes amarelados e o hálito dela entregavam que ela era fumante. — E o que alguém como você quer aqui na minha casa? — ela pronunciou cada palavra lentamente e colocou um peso maior no “você”.
— Quero apenas conversar com ele- Wesley não se deixou abalar com o insulto.
— Eu já disse que ele não está aqui, está surdo?
— Você não acabou de dizer que não morava ninguém aqui com esse nome? E agora ele não está? — Wesley não conseguiu conter o sorriso de canto de boca.
— Eu me confundi, só isso. Vá embora logo. Vá procurar sua gente, ou eu chamo a polícia.
A porta se fecha com um estrondo. “Porque eles nunca colaboram?” pensou enquanto se afastava da fachada para ter uma visão geral da casa. “Agora terei que recorrer a meios não ortodoxos”.
A estrutura era simples e de um andar, toda ela se mesclava em tons de verde e preto. Na parte de cima uma janela com um vidro quebrado e outra com as tabuas podres. Observando, ele não via como subir, não tinha uma escada e nem muro e o musgo molhado dificultaria muito escalar. E agora começava a chover de leve. Na casa ao lado tinha uma escada que ele poderia usar para pular para a casa de Marvin, era arriscado, mas não tinha outra alternativa.
Wesley subiu com facilidade a úmida escada, tomou uma certa distância e se lançou na sacada da casa do Marvin aterrissando quase sem nenhum barulho. O chão molhado quase o derrubou, mas ele conseguiu manter o equilíbrio. Wesley se aproximou da janela com tabuas podres, encostou as costas na parede e com cuidado aguçou os ouvidos. Por um tempo só ouvia as gotas de água caindo na rua e no telhado, molhando seu casaco e seu chapéu. Após minutos no frio ele ouve “vou ao banheiro”, pela voz ele reconhece a mulher que falou mais cedo com ele.
Cuidadosamente ele se movimenta até a janela com vidro quebrado e tenta observar no quarto, a janela tinha uma cortina para proteger a chuva de molhar o recinto, mas o vento a mexia e ele conseguiu ver. No escuro quarto somente uma vela em cima do criado mudo iluminava, na cama Marvin fumava, de costas para a janela, um cigarro e lançava para o alto fumaças em círculos irregulares. Ninguém mais no quarto. Era sua chance. Wesley pega sua pistola e de um ímpeto se joga no quarto, rápido como um gato ele já estava em cima de sua presa. Marvin nem teve oportunidade, quando deu por si, tinha um homem negro alto de cerca de 1,80 com as roupas encharcadas e com uma arma apontada na sua cara.
Marvin tenta falar, mas uma mão calejada tapa sua boca e o pressiona contra a cama. Ele tenta se debater, mas o homem estava sobre suas pernas e ele era muito pesado. Pouco tempo depois Marvin reis estava rendido, ele não conseguiria fugir então desistiu de tentar.
— Tenho algumas perguntas para você-Wesley percebendo a desistência do outro sai lentamente apontando a arma.
— Que barulho foi esse? — a voz da mulher vinha abafada do banheiro.
— N... nada não, eu só deixei cair o cinzeiro- Marvin respondeu com o frio cano em sua têmpora.
— Pois trate de limpar, não vou dormir com o quarto fedendo a cinzas.
— Vamos para aquela mesa, ficaremos mais confortáveis- Wesley apontou com a cabeça para uma mesa que ficava no canto.
— Então senhor Marvin, o que estava fazendo no dia 8 de janeiro? — perguntou Wesley após sentarem a mesa.
— Como assim? E eu lá vou saber. Primeiro, quem é você? E porque invadiu a minha casa? — A voz de Marvin era grave e entregava seus 50 anos de idade.
— Sou eu que faço as perguntas aqui e você me responde. Mas já que isso aqui na minha mão (ele balança a arma) não é prova o suficiente disso- Wesley tira do bolso um distintivo dourado preso a uma corrente prateada, cravado nele com letras negras dizia “detetive criminal”.
— Agora que estamos devidamente apresentados me fale. Onde estava no dia 8 de janeiro senhor Marvin?
— Já disse que não faço ideia, não lembro o que comi ontem. Como vou lembrar disso? — O suspeito falava rápido.
— Suponho que seja mais fácil lembrar de um assassinato do que de uma sopa de camarão acompanhada de meia porção de arroz que servem no restaurante Flor do Lar, não acha senhor Marvin? — Wesley se deleitou com o espanto do homem.
— Com... você anda me seguindo? — os olhos dele pareciam dois ovos de tão abertos que estavam.
— Esse não é meu trabalho, senhor Marvin? Mas já que o senhor tem a memória tão curta assim, vou refrescá-la — Wesley tira do casaco um envelope e coloca na mesa.
No dia 8 de janeiro o senhor foi visto no bordel vermelho, testemunhas dizem que saiu de lá com uma jovem. Conhece essa pessoa da foto? — Wesley tira do envelope algumas fotos e mostra para o suspeito a de uma jovem de 20 anos, com cabelos escuros e rosto oval.
Sem resposta. Marvin olha para a foto e depois de um longo tempo de silêncio diz:
— Sai com essa prostituta sim, lembro agora.
— Essa jovem não retornou para o bordel naquela noite e nem nas noites seguintes. Ela foi encontrada dentro de uma mala próxima ao rio, o que me diz sobre isso?
— E eu lá sei. Uma meretriz pode ter mil outros clientes. Eu a deixei, depois que o programa acabou, na fonte da rua principal. Vai saber com quem ela saiu depois
— Reconhece esse símbolo aqui? — o detetive aponta para um pentagrama talhado com uma lâmina nas costas da jovem.
— Um pentagrama, o que deveria ser isso? — Wesley percebe uma mudança na voz e no rosto do suspeito, ele esboçou o que parecia uma expressão de contentamento.
— O senhor poderia facilitar as coisas aqui- Wesley estava ficando impaciente.
— Não falarei mais nada, exijo um advogado- ele falou com pompa na voz.
— Ora, ora, e não é que um ex-vagabundo começou a entender da lei, mas receio que a situação aqui não é formal o suficiente para atendermos os parâmetros legais. Então, vamos facilitar as coisas. O senhor confessa o assassinato e eu consigo uma proteção para você na cadeia. E sim, foi o senhor que a matou. Para mim, é mais que claro.
— EU NÃO PRECISO DE PROTEÇÃO NENHUMA.
Quando Marvin exalta a voz a mulher que estava no banho sai com os cabelos molhados e com a toalha envolta do corpo, ela ia falar algo, mas antes de formar qualquer frase viu Wesley a mesa, e seu rosto se contorceu todo em medo. Wesley levanta e apontando a arma para Marvin tenta acalmar a mulher, ele não queria perder o controle da situação.
— Mantenha a calma senhora, eu e meu amigo aqui estamos tendo uma conversa civilizada. Se a senhora puder nos fazer o favor de voltar ao seu banho ficaremos grato- A mulher não tirava os olhos da arma.
— Marvin o que esse sujeitinho faz aqui? — as palavras saiam tremulas.
— Barbara, volte para o banheiro agora. Isso não lhe interessa!
A mulher relutando volta para o banheiro e se tranca lá. Wesley volta a atenção para o suspeito.
— Então? Ah sim! A proteção. Marvin, Marvin. Você ascendeu ao poder muito rápido não foi? Há poucos meses era apenas um bandidinho comum, vivia do que recebia do Carlos. Lembra-se dele? O antigo chefe do tráfico dessa região, ouvi falar que ele foi traído por um homem que ele confiava, homem esse que estava começando a ficar importante. Carlos, dizem, não está nada feliz e anda reunindo os poucos que ainda estão ao seu lado. Sim, ele está na cadeia, mas infelizmente um homem do cacife do Carlos consegue se comunicar mesmo na cadeia.
— Essas suas ameaças não são nada para mim, tenho dinheiro. Se eu for preso não vou ficar um dia lá, logo serei solto. Esse é o poder que o dinheiro tem detetive- realmente Marvin acreditava nisso.
— Devo admitir que o senhor está certo. Não irá durar um dia lá. Deixa-me lhe contar algo. Eu tenho um amigo no departamento, Golias, ele é o responsável pelos trâmites legais e meu senhor, como ele é lento. Uma papelada simples ele demora dois dias para resolver, isso sem ninguém o atrapalhando, agora imagina um pedido de habeas corpus de um assassino, o quão demorado vai ser?
— Eu... eu irei amanhã com o meu advogado até a delegacia- a voz do homem estava vacilando.
— Senhor Marvin, você irá agora comigo e... — Ele não concluiu a frase porque foi atingido com um pedaço de madeira na cabeça.
Wesley viu o mundo girando por um segundo até recobrar o equilíbrio, mas o tempo foi o suficiente para Marvin se lançar sobre ele na tentativa de pagar a arma. Eles estavam em uma luta de cobras, rolando no chão um por cima do outro. Wesley leva uma joelhada no abdômen e fica sem ar, mas retribui com um soco na boca de Marvin, o suspeito estava quase tomando sua arma quando ele recebe outro golpe do pedaço de madeira e só não perdeu a consciência por sorte, a mulher não tinha tanta força assim. Ele finalmente empurra o homem para longe, mas no processo a arma cai no chão e Marvin vê a oportunidade, corre para a janela e se defenestra.
— NÃO SE MEXA, NEM MAIS UM PASSO! — Wesley ofegante aponta a arma recém-recobrada para a mulher que já estava pronta para outro golpe. Ela abaixa o que parecia ser o pé de algum móvel e recua até o canto.
O detetive corre rápido para a janela e, na escuridão, avista Marvin mancando tentando fugir. Wesley respira fundo e pula, mas com experiência e treinamento ele consegue aterrissar quase ileso, só mais tarde quando estiver em casa ele vai perceber a dor no joelho. Agora a adrenalina movia seu corpo. Ele corre em direção ao assassino e quando o mesmo estava próximo à esquina Wesley lhe passa uma rasteira e com a arma em mãos pega o homem.
— Quietinho aí senhor Marvin, o senhor está preso- E com a arma ele golpeia Marvin e o algema.
***
Ele acordou com uma dor de cabeça enorme e os remédios tomados horas atrás não fizeram efeito. Sentia dores por todo o corpo e ao se levantar seu joelho deu uma fisgada forte. “Porque eu ainda faço isso?” ele sempre se pergunta isso, e até hoje não encontrou uma resposta, mas também não consegue ficar parado. Ele ia voltar a dormir quando o telefone tocou. Do outro lado o chefe da polícia solicitava sua presença com urgência na delegacia.
Depois de um banho rápido ele chega à delegacia, o horário era cedo então poucos policiais estavam lá, somente os mais disciplinados deles, e isso era difícil hoje em dia. “Por mim também não estaria aqui essa hora”.
Entrou na sala do delegado e o velho estava na sua habitual cadeira, na mesa papeis e mais papeis. A sala era simples, somente a mesa e um armário a decorava.
— Marvin confessou, mas ainda estamos com problemas legais, aparentemente ele chegou aqui machucado- o delegado tinha lá seus 70 anos e mantinha os cabelos brancos como um troféu da profissão, poucos policiais envelhecem tanto assim.
— Realmente a cidade está perigosa, nem um assassino está livre da violência urbana.
— Sem gracinhas. Seu trabalho era trazer o suspeito para interrogatório e não o fazer por conta própria, mas sua visita o amoleceu. Ele já confessou e deus os detalhes, quer saber?
— Depois. Me chamou aqui só para me repreender? Está muito cedo e estou todo quebrado, a repreensão sempre é mais tarde.
— Não foi só por isso. Ah! E a mulher que lhe deixou assim também está presa, mas não ficará por muito tempo. Aparentemente ela não tem vínculo com o assassinato. — O delegado mexe em uns papéis na mesa- O curioso é esse símbolo que ele desenhou nas costas da vítima, ele disse que não é nada de mais, fez por fazer.
— Hum!
Wesley vira-se ao ouvir uma balbúrdia vinda de fora da sala. Matheus entra na sala com pressa.
— Senhor, encontraram o corpo de uma mulher próximo à casa de repouso, ela está dentro de uma mala...
— Wesley vai com você investigar- O semblante do delegado estava carregado.
***
Após uma hora de viagem ele chega até a cena do crime. A casa de repouso é o local onde se abriga as pessoas sem casa. Um prédio de cinco andares mais acabado que se estivesse abandonado.
— Já sabem quem é? — Wesley pergunta para o jovem forense que chegou antes dele.
— Jovem, provavelmente 20 a 25 anos. Morta recentemente, não deve fazer nem seis horas ainda- o jovem era promissor, tímido, mas entendia um cadáver como ninguém.
— Senhor Wesley, o mais estranho é isso aqui- o Jovem retira o pano negro por cima do corpo e deixa a mostra a mão pálida da vítima, e nela, estava talhado o desenho de um pentagrama.
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Atualizado em: Sex 5 Nov 2021

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