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Mente Criminosa- Resumo do Livro. 2020

Esta noite mandei trazer todas as Lamparinas que haviam na casa, colocar  a poltrona e a mesa  perto da grande janela e proibi que me  incomodassem de agora em diante.
Talvez eu tenha demorado demais para contar o acontecido.E só vou contar-lhes aqui o que realmente aconteceu.Em nenhum momento irei dissimular nada do que pude escutar ou pensar naqueles momentos .
E também não pintarei os bons melhores do que eram, nem tornarei os maus piores do que foram.
Mas quero, se minha memória permitir, contar a mais exata verdade sobre o caso que mobilizou a  polícia de Londres no inverno de 1862, e sobre o qual apenas alguns poucos homens superaram-se em seus esforços para conter uma das mais terríveis ondas de crimes que aquela cidade já viu.
Quando toda essa onda de crimes começou ?
Novembro de 1862, e só  mais tarde percebi quão longe suas raízes venenosas remontavam na história da cidade. Mas, para mim, que buscava em cada beco imundo de Londres um pretexto para uma boa história, Teria nos dias que viriam a seguir uma excelente oportunidade para deixar fluir minha imaginação.
 Naquela fria manhã, o inspetor Thormann,  da Scotland Yard  bateu a porta de minha casa, na St. Tooley 123.Já a algum tempo não tinha contato com o ele, isto porque discordei da maneira como conduziu as investigações sobre a morte de  uma jovem chamada Nina.E sei que este afastamento foi certamente para preservar nossa já bem antiga amizade.Mas naquela manhã ele estava a bater em minha porta e de maneira que presumi ter ele alguma brevidade.
---Lawford – disse ele, Bom dia, Gostaria que me acompanha-se, por favor !
Mal tive tempo de vestir o casaco e sorver rápidamente o café que ainda restava em minha xícara.
---A quanto tempo inspetor! Disse eu tentando ser amistoso.
---Algo terrível aconteceu na catedral de Westminter, na Victória Street.Disse ele.
---Conheço o jardineiro Hernest e o cardeal Wisemon.Acrescentei enquanto embarcávamos no coche da Scotland Yard que estava parado a minha porta.
---Sei disto, por este motivo pedi que me acompanhasse, quando chegarmos ficarás a par de tudo, pedi que nada fosse mudado até nossa chegada.
Ao chegarmos à catedral  de Westminter, compreendi que se tratava de algo muito mais sério. Cerca de trinta pessoas estavam reunidas ao lado de fora da enorme porta de entrada, na maioria curiosos.Algumas  mulheres colocavam as mãos na cabeça, e os homens se entre-olhavam aturdidos.Guardas armados cercavam o local como se temessem que algo escapasse dali.O mais estranho era aquele silêncio que paralisava a todos.
Descemos do coche e adentramos rápidamente, apenas dois guardas estavam no interior da catedral, próximo ao altar.Em um banco afastado da porta pude ver o cardeal Wisemann sentado com o rosto entre as mãos.
— Lá em cima,atrás do púlpito. murmurou Thormann.
Subi lentamente os três degraus em veludo vermelho e fui diretamente para o local onde Thormann havia indicado e o que ví deixou-me perplexo. 
---Mantenha acalma. Disse Thormann, que estava bem atrás de mim.
Dentro de uma bandeja de prata estava uma cabeça humana dacapitada, e não foi preciso muito para identificar que se tratava de Hernest, o jardineiro.
---Mas  oque é isto? Falei assustado com a horrenda cena.
---Não é só isto. Respondeu o inspetor enquanto segurava meu braço conduzindo-me até o fundo da igreja.Descemos por uma pequena escada que ficava atrás do coro da catedral e daria-nos acesso ao local sagrado onde ficava a cripta de St. Peter.Sómente o cardeal Wiseman e Hernest tinham acesso ao local.E a cena foi ainda mais horripilante, o corpo de Hernest, sem a cabeça, estava colocado cuidadosamente sobre a cripta,  braços abertos, formando uma macabra cruz.O chão coberto por sangue.
---Quem teria capacidade para tamanha crueldade? Falei enquanto olhava atónito aquela pavorosa imagem.
Thormann caminhava lentamente em volta da cripta,olhando atentamente para o chão, agachando-se em alguns momentos para observar melhor.
---O que procura inspetor? Indaguei
---Nada de espicífico Lawford, apenas tentando entender o que aconteceu aqui.
---Mas somente um lunático poderia fazer tal barbárie. Interpelei de imediato.
---Mesmo que o criminoso seja um lunático, ele foi muito meticuloso em arrumar o corpo e depois colocar a cabeça no púlpito.Deve haver uma lógica em toda esta loucura. Completou o inspetor.
---Então o que posso fazer para ajuda-lo? Perguntei
---Foi o cardeal Wisemann que trouxe o Hernest a catedral, como vocês são amigos de longa data, peço que converse com ele e tente descobrir alguma coisa.Estarei esperando no distrito.
Enquanto os guardas colocavam o corpo e a cabeça do decapitado em um caixote de madeira para ser levado ao necrotério, sentei-me ao lado do cardeal, que estava visivelmente abalado com o que aconteceu.Wisemann ainda não era cardeal quando, a alguns anos atrás,  nesta mesma igreja realizou minha união com a linda e  amada Aurora, e por uma trágica coincidência, também realizou seu funeral três anos depois.
Após alguns minutos de conversa, percebi que nada iria ouvir do cardeal além de lamentações.Sendo assim dirigi-me de imediato ao coche que me levaria ao distrito, onde certamente Thormann já teria iniciado a investigação deste crime tão brutal.
Enquanto o coche percorria as ruas de Londres, não conseguia tirar de minha retina a imagem da cabeça decepada colocada cuidadosamente sobre uma bandeja.Thormann tinha razão ao dizer que não foi um crime fortuito, teria que haver um sentido lógico para o criminoso ser tão meticuloso.
Quando cheguei ao distrito Thormann estava em sua sala, sentado em uma poltrona ao lado da mesa e atufando a sala com as baforadas de seu charuto.
---Desculpe, não tive sorte com o cardeal, ele esta muito abalado.Disse eu
Thormann ergueu a mão passando a mim um impresso bastante amassado.
---A fisionomia de Hernest não me era estranha.. Disse ele
O impresso era da policia de Sheffield, um homem de nome Charles Peace era procurado pelo assassinato de Heleonora Hort, uma jovem de vinte anos que depois de sua morte teve sua cabeça arrancada pelo criminoso.
---Então o crime pode ter ligação com o que aconteceu na catedral. Comentei
Thormann pediu para que observasse o verso do impresso.
---Olhe esta foto lawford, Charles Peace esta envolvido neste crime, só que ele não é o criminoso, é a vítima.
No impresso estava a foto de Peace, que na verdade era o mesmo jardineiro Hernest, que enganou a todos passando-se por um simples trabalhador na catedral.Acobertado certamente pelo cardeal Wisemann.
---Ele não poderia ter escolhido melhor lugar para se esconder, doque em uma igreja. Disse Thormann.
---Quem entrou na igreja certamente conhecia a vítima . Argumentei
--- Fiéis entram e saem das igrejas a todo momento.. Disse o inspetor
---O que vamos fazer? Perguntei
---Ainda temos um caso para invertigar, quando não solucionamos um crime, somos tão culpados quanto quem o cometeu. Completou o inspetor.
Naquela mesma manhã fui novamente  falar com o cardeal Wisemann, saber porque ele acobertava tal homicída.
---Em doze anos nesta catedral é a primeira vez que não celebro a missa das oito horas. Disse ele quando me viu entrar.
---Por favor cardeal, me ajude a encontar quem cometeu esta aberração.
Mostrei a ele o cartaz de procurado com a foto de Peace.
Ele não ergeu a cabeça e continuou a arrumar o púlpito, que já havia sido limpo.
---Sr. Lawford, não posso dizer o que não sei.
---Mas porque acolheu na igreja um homem que cometeu um ato de tamanha crueldade. Indaguei
---Perante Deus todos os serem humanos merecem uma chance.
---Mas certamente quem o matou era alguém que o conhecia. Argumentei ao ver que talvez Wisemann estivesse com medo de falar.
---Conte-me o que sabe cardeal,tudo vai ficar bem. Completei
---Sr. Lawford.Nada mais tenho a dizer-lhe.  
Durante todo dia,eu e Thormann procuramos alguém que pudesse dar-nos uma pista sobre o crime da catedral, como já era chamado o assassinato de Peace.
---Estive procurando testemunhas, e acredite, não encontrei nenhuma. Disse eu ao inspetor quando retronei ao distrito.
Thormann apenas sorriu timidamente.
---Quem se arriscaria a identificar um assassino que corta a cabeça de suas vítimas? Comentou ele.
---Mas aquele que observa não derrama menos sangue que aquele que desfere o golpe. Argumentei
---Sei disto Lawford,mas precisamos ter calma.
---Mas aos poucos as pistas esfriam e o caso fica esquecido. Retruquei
Thormann olhou-me com um olhar bastante severo.
---Amigo Lauford, não diga a mim como conduzir a investigação, pois oque ainda deixa-te irritado é a morte daquela protitutazinha polonesa, Nina.
Naquele momento senti o sangue ferver, mas ele estava totalmente certo.
---Desculpe, não foi minha intenção fazer-lhe qualquer crítica.Vou me recolher a minha casa, se precisar estarei a sua disposição.
Dizendo isto, sai imediatamente do distrito a procura de um coche para levar-me para casa.Mas confesso que a cena que presenciei na catedral e o mistério que envolve a morte de Peace me deixaram deveras curioso.Pedi ao cocheiro que aguardasse em frente a minha residência enquanto pegava minha caderneta, pois a partir daquele momento tudo seria anotado.   
---Cocheiro, leve-me até o Hospital Geral.
Já era final de tarde quando cheguei ao Hospital Geral de Londres, sabia que o corpo do jardineiro fora levado para o necrotério que ficava nos fundos do hospital.Lá certamente teria alguma informação que colocasse alguma luz a investigação.Ao abrir a pesada porta de metal, pude ver ao fundo Thormann e o dr. Guliê ao lado de uma maca.
----Parece que tivemos a mesma intuição. Disse Thormann ao me ver entrar.
--- Quero ajudar, isto é o que importa. Respondi.
O Dr. Guliê era legista e tentou explanar como o crime foi cometido.
--- A decapitação em si não apresenta nenhum mistério, se me permite dizê-lo. A vítima foi amarrada pelos punhos e pelos tornozelos, há diversas marcas de apertões na pele.O  assassino apoiou então a cabeça sobre um  banco de madeira ou algo do gênero e a cortou com uma lâminas bastante afiada.O golpe foi dado obliquamente, como o demonstra a secção enviesada do pescoço, provavelmente porque o lugar não era alto o suficiente ou tivesse dificuldade  de  movimentar  as duas mãos naquele momento.
---Talvez ele estivesse segurando alguma coisa naquele momento. Argumentei
---É bem provável que sim. Confirmou o médico.
---Mas a vítima não teria se dabetido ou gritado naquele momento. Perguntou Thormann.
---Com o forte golpe que sofreu na parte traseira do crãnio ele já não sentia mais nada. Completorou Guliê.
O inspetor mostrou-me um pequeno pedaço de papel onde estava escrito “Galem Place 8 fundos”
---Mas é um endereço. Falei de imediato.
---Sim, estava no bolso de Hernest, ou Place.Vamos ver onde nos leva este endereço.
Subimos rápidamente no coche da Scotland Yard.
---Para este endereço. Disse Thormann ao cocheiro.
Era uma das partes insalubres de Londres, na verdade parecia mais um beco sórdido onde medicantes e prostitutas estavam espalhados por todos os lados.Deixamos nosso transporte e tomamos então a direção descrito no papel, o que não representava um grande desvio,  e  eu apertei meu capuz contra as orelhas. A umidade se juntava agora ao nevoeiro que envolvia a cidade. Os muros das ruelas ao redor pareciam fantasmas, e continuamos em silêncio, cuidando para não escorregar nas lajotas e na terra molhada.Quando chegamos não se via mais nada a dez passos. Só a luminosidade da lanterna do coche nos permitiu distinguir a entrada do beco e  fomos a pé até o numero 8, uma porta de madeira quase apodrecida com um pequeno numero de metal afixado no umbral.
Thormann bateu na porta com força duas vezes, e uma senhora que pelos traços faciais deveria ser chinesa  atendeu-nos.
---Sou o inspetor Thormann da Scotland Yard e preciso entrar para conversarmos.
A senhora exitou por alguns segundos, mas quando abriu vagarosamente a carunchada porta encontramos por trás de uma surrada cortina, algo que eu poderia chamar de sala dos prazeres.Varias poltronas dispostas ao redor de uma grande mesa redonda.No local, vários cavalheiros tinham a sua disposição cachimbos com ópio, cocaina em pó, licores aromáticos e outros tipos de alucinógenos trazidos com certeza da china.Belas jovens peranbulvam pela sala vestindo tão somente um véu de fina seda transparente.
---Meu nome é Yong Shem, sou proprietária deste local de descanço.
---Não estamos aqui pelo que a senhora chama de local de descanço.Apenas quero saber se conhece este homem.
Thormann retirou do bolso o cartaz com a foto de Place e mostrou a chinesa.
---Nunca vi este homem, conheço meus clientes e este não é um deles. Respondeu ela.
---Então porque  estava com seu endereço no bolso do paletó quando morreu. Indagou o inspetor.
A senhora apontou para uma porta que ficava nos fundos da sala.
---Eu alugo quartos para homens solteiros, talvez ele estivesse interessado. Disse ela.
Thormann dirigiu-se rapidamente até a porta a ao abrir tivemos acesso a um pequeno corredor, onde uma enfraquecida luz esverdeada mostrava  portas dos dois lados.
---No momento apenas um quarto esta alugado, aquele no final do corredor. Disse ela
Desta vez eu me antevi a Thotmann e fui direto a porta, estava por demais ancioso para esperar.Ao ver a porta fechada bati duas vezes.
---Abra por favor. Falei em voz alta.
Repeti as duas batidas mas novamente não houve resposta.
---A senhora tem outra chave deste quarto? Indagou Thormann
---Sim, esta aqui comigo. Respondeu ela colocando a mão no interior de uma bolsa em tecido colorido que carregava amarrada a cintura.Entre as inúmeras chaves que estavam presas em um pedaço de corda, uma delas abriu a porta para termos acesso ao misterioso aposento.
Logo ao abrirmos a porta sentimos um forte odor de umidade, o local não tinha janelas.Mas o que fez-nos ficar paralisados por alguns instantes foi oque vimos em um dos cantos do fétido quarto.Um homem com cabelos grisalhos, bastante robusto, creio eu pesar ele em torno de cento e vinte kilos.Sentado em uma cadeira, completamente nú, com braços e pernas amarradas e a cabeça pendida sobre o peito.
---Lawford, peça ao cocheiro que avise ao distrito para buscarem outro corpo. Disse Thormann enquanto aproximava-se do estranho hóspede.
Quando retornei o inspetor estava agachado emfrente ao morto.Apontou para a boca do homem mostrando-me que estava cheia de pedaços de algum tipo de tecido.
---Este eu conheço. Disse Thormann quando viu que eu havia também agachado-me, e continuou...
---Este é Samuel Furnace, um construtor falido de Canpeltouw.Ele estava sendo procurado pela morte de Walter Spatchett, um cobrador de impostos que foi encontrado boiando próximo ao cais.Uma testemunha disse ter visto quando Samuel o matou.
---Mas porque o endereço dele estava no bolso de Peace? Questionei
---Ainda não sei Lawford, mas vamos primeiramente falar com o dr. Guliê no necrotério, para depois tentar fazer alguma ligação.
Mesmo já havendo chegado a fria noite londrina, Guliê foi bastante solícito ao atender o pedido do inspetor para encontra-lo no necrotério do hospital.O cheiro de éter era fortíssimo no local, e com os dois corpos colocados em macas e posicionadas uma ao lado da outra, passamos a ouvir com muita atenção oque o médico tinha a dizer.
--- Bem senhores, vamos começar pelo sr, Peace, ele foi morto devido a um ferimento na parte traseira da cabeça,mas isto os senhores já sabem, um forte golpe e somente depois de ja estar sem vida houve a decapitação.Não encontrei sinais de luta, o que presupõe que ele conhecia o agressor.
---O segundo corpo, Sr. Furnace, por coincidência ou não também tem um ferimento na parte traseira da cabeça, que possivelmente o tenha deixado inconsciente por alguns minutos.Tempo este suficiente para que o agressor o amarrasse para encher sua boca e nariz com retalhos de panos retirados das mangas da própria camisa da vítima.Sua morte foi por asfixia.
---Alguma ligação entre as mortes. Perguntei
---Além do bilhete e do ferimento na cabeça, nenhuma outra. Respodeu Guliê.
---Sim, existe uma forte ligação. Interviu Thormann.
Ouve um silencio na sala, aguardávamos que concluisse seu pensamento.
---Os dois eram crimonosos procurados.
---Então temos um assassino vingador. Concluí.
---Seja qual for sua motivação, teremos muito trabalho pela frente. Completou o inspetor.
Na sala do distrito Thormann colocou um painel sobre um cavalete e os nomes das duas vítimas,Com certeza começava ali uma intricada invertigação.
Interrogações foram feitas, indefinições surgiram, informações contraditórias, indicações muitas vezes irrelevantes eram colocados no painel.Já haviam se passado dois dias e ainda estávamos distante de alguma evidência que lavaria-nos ao assassino.Estavamos entrando na manhã do terceiro dia dentro de uma sala com prateleiras que cobriam as paredes, e todas elas repletas de arquivos policiais.Estávamos na sala onde eram arquivados todos os casos que chegavam até os policias da Scotland Yard.Após revirarmos tudo que parecia relevante ao caso, poucos dados colhemos.Já estávamos preparando-nos para sair quando  o capitão da guarda inglesa entrou na sala.
---Inspetor, o sr. é solicitado na parte norte do Park St. James.
Enquanto percorriamos a sala em direção a saída senti avivar-se em mim lembranças que sinceramente preferia  te-las esquecido.Foi justamente no Park St. James que conheci Nina,e foi também no St. James park que conheci Clarett, a violinista amiga de Nina,  que diz acreditar ser  Thormann o responsável pela morte da Jovem.Ao mesmo tempo em que pensamentos passados invadem minha mente, o coche sai em direção ao local onde possivelmente algo de perverso tenha acontecido.
Logo ao chegarmos avistamos muitas pessoas em volta do portão de grades da entrada do parque.Alguns policias tentavam afastar os curiosio de perto doque parecia-me ser um corpo, ao aproximarmos verificamos que alguém estava espetado pelas costas nas grades do portão de entrada do St. James Park.O portão era bastante alto e ficava fechado duranre a noite.          
 Àquela distância, não dava para distinguir se o corpo pertencia a um homem ou a uma mulher.
---O que estão esperando ? indaguei
---É preciso subir e tirar o corpo das grades. Concluí
---Talvez o assassino ainda esteja no parque. Disse Thorman
Não tive tempo de manifestar minhas dúvidas, pois uma pequena tropa de policiais, conduzida pelo chefe da guarda de Londres irrompeu entre nós. Todo mundo recuou para dar passagem, em breve saberíamos de quem era o corpo colocado sobre as grades do St. James Park.
Após a retirada tinhamos o corpo de um homem magro e calvo com trajes que se pareciam com aqueles usados em festas da realeza, estava aos poucos sendo colocado no chão e pudemos ver claramente que seu rosto estava coberto por uma fuligem escura.O inspetor fez um sinal para que dois de seus soldados colocassem o corpo em um carroção da policia para ser levado ao necrotério.
---Havia pegadas próximas as grades quando chagaram ? Interpelei a um dos guardas
---Os curiosos já haviam pisoteado por todo local. Respondeu ele.
Duranre todo aquele dia ficamos no distrito, precisávamos de respostas mas só tinhamos perguntas.
Então fomos novamente ver o dr. Guliê. Depois de termos conversado com o soldado de sentinela diante da porta, entramos na sala de dissecação. Fui logo invadido pelos vapores de cânfora e de incenso que ali reinavam.
---Caros Lawford e Thormann, parace que encontramo-nos com frequência nestes últimos dias.O nosso morto também tem um ferimento atrás da cebeça e este ferimento foi a causa da morte.Vou poupar-lhes o trabalho de investigar quem ele é.Na verdade nosso ilustre defunto é o conde de Wolguert, sua manção fica em uma área mais afastada de Londres e ficou conhecido por torturar e matar escravos negros em suas terras.
---Ele tem família? Perguntou Thormann
---Sim.Sua esposa a condessa Edna, porém ela esta reclusa na mansão aos cuidados do doutor Freud, ela sofre de problemas mentais. Completou Guliê.
---Precisaria alguém muito forte e com uma elevada estatura para colocar  o conde sobre as grades do portão. Argumentei.
---Creio que sim, ou talvez ele tivesse alguma coisa como apoio. Completou o inspetor.
---Mas como alguém carregaria um corpo e mais alguma coisa para apoiar-se sem ser visto? Interviu Guliê ao ver que estávamos a alinhar nossas deduções.
---E as manchas escuras no rosto? Perguntei
---Era carvão, o assassino sujou o rosto da vítima enquanto era morta. Respondeu o médico
---Alguma coisa em suas roupas que pudéssemos averiguar? Indagou Thormann
---Apenas um ticket cortezia  para o espetáculo de hoje a noite no Palace Music Hall, assinado pelo próprio Hector Lenn. Respondeu o médico.
Os cartazes desta apresentação estavam por toda Londres.Tratava-se do cômico e ilusionista Hector Lenn, e não haveria dúvidas que estariamos lá, gostariamos de saber a ligação dele com a nossa mais nova vítima.Mas primeiramente tinhamos uma visita a fazer a condessa de Wolguert.
Durante o  trajeto até a mansão dos Wolguert em Kensal Green, não conseguia presumir como alguém poderia colocar sua vitima a quase três metros de altura, mesmo sendo a noite, sem ser notado.Minhas conjecturas somente foram interrompidas quando passamos pelo cemitério Catholic St. Mary.Neste local despedi-me de minha amada Aurora.Mas isto é uma outra história.
---Não havia marcas no chão quando chegamos ao parque inspetor? Indaguei a Thormann.
---Você mesmo falou com guarda Lawford, o chão estava pisoteado e a única marca era das rodas do carroção do necrotério. Replicou ele.
---Qual a sua opinião sobre oque esta acontecendo? Continuei
---Minha opinião não importa, temos que procurar evidências.Concluiu ele com semblante bastante preocupado.
Logo ao chegarmos a majestosa mansão dos Wolguert fomos recebidos na porta pelo mordomo, que conduziu-nos até uma sala com tapeçaria luxuosíssima e um magnificente lustre em cristal pendurado ao centro.
---O dr. Freud já irá recebe-los. Disse o mordomo.
---A condessa não esta?Perquiriu Thormann
---Sim, mas é necessário a autorização de seu médico para falar-lhe.Completou ele.
Em poucos minutos adentrou a sala um homem de meia idade,magro e com vasta barba, uma vestimenta de primeira linhagem e um charuto a boca.Eu estava naquele momento perante o homem que se dizia capaz de revolucionar o estudo da psiquiatria, dr. Sigmund Freud.
---Bom dia Doutor,desculpe pelo incomodo mas precisamos falar-lhe. Disse Thormann antecipando-se ao médico.
---Senten-se senhores e digam-me o motivo de sua visita. Retornou Freud.
Após estarmos devidamente apresentados, Thormann relatou todos os acontecimentos ocorridos até chegar a morte do conde naquela noite.O médico escutava atentamente a tudo que era dito alojado comodamente em uma poltona e sugando pausadamente seu charuto.
---Querem que eu informe a condessa da morte de seu marido? Perguntou ele
---Bem doutor, na verdade gostariamos de falar com ela. Respondeu o inspetor.
---Senhores, minha paciente passa maior parte do tempo com sedativos, e neste momento dorme aos cuidados de uma enfermeira devido a frequentes crises de histeria e alucinações.O conde era um homem bastante ocupado, não tinha para com ela nenhuma atenção.Não sei em que ela possa auxilia-los. Objetou Freud.
---Encontramos com o conde um convite para um espetáculo de Hector Lenn, assinado pelo próprio artista.O sr. sabe de alguma ligação dele com a familia Wolguert.? Questionou Yhormann
---Creio não haver ligação, mas o sr. certamente vai interroga-lo. Disse o médico
---Certamente farei isto doutor.
---Ele é um dos seus supeitos? Perguntou Freud
---O senhor acha que ele deveria ser, dr. Freud.? Disse Thormann olhando fixamente para o médico.
---Senhores, lembrem-se que o psiquiatra aqui sou eu. Não brinquem comigo.Falou Freud rispidamente.
O inspetor irritou-se visivelmente com a declaração do médico.Ergueu-se da poltrona indo até o canto da sala.
---Dr. Freud, parece que o sr. não entendeu a gravidade da situação.Não estamos brincando, desperdiçar nosso tempo pode custar vidas. Retornou Thormann em voz grave.
---Desculpe senhores, não foi minha intenção causar-lhes qualquer desconforto.Vou falar com a condessa quando ela acordar e procuro os senhores no distrito. Falou Freud em tom mais amistoso.
Ao encaminharmo-nos a porta da saída percebi que um homem bastante forte com cabeça raspada e roupas em couro estava na janela a observar nosso coche.
---Quem é aquele homem? Perguntei ao mordomo dos Wolguerts.
---É Rurik, nosso cocheiro e também ajuda nos afazeres da casa.Respondeu  ele.
Já no coche de retorno a área central de Londres meus pensamentos estavam ainda mais confusos.
---Você já havia visto este Rurik? Perguntei
---Não. Estes donos de terras trazem gente de toda parte do mundo para trabalharem para eles.
---O que vamos fazer agora inspetor?
---Vamos verificar novamente os relatórios do dr. Guliê sobre as mortes.Algo pode ter passado despercebido.
---As ruas estão cobertas de sangue e você preocupado com papelada. Falei irônicamente
---Deixarei você em sua casa, acho que precisa descansar.A tarde encontramo-nos no distrito. Disse o inspetor sem dar maior importância ao meu comentário.
A infrutífera noite revirando os arquivos da polícia londrina deixaram-me completamente fatigado e o cansaço já se tornara quase incontrolável.Melhor mesmo era aproveitar as horas que faltavam para findar a fria manhã e descansar.
Quando retornei ao distrito por volta de quatorze horas já havia reposto minhas energias.Ao entrar na sala de Thormann encontrei o cardeal Wiseman sentado enfrente ao inspetor.
---Que bom que chegou Lawford, parece que o cardeal tem algo que esquece de  contar-nos. Disse Thormann
Em nossa última conversa o cardeal mostrou-se bastante enpafiado, mas agora, sentado cabisbaixo pareceu-me abatido e envergonhado.
---Peço que me desculpem se não dei a devida atenção aos senhores naquela triste manhã.Tenho algo que gostaria de revelar. Disse Wisemann sem erguer a cabeça.
---Por favor cardeal, fique a vontade para falar o que deseja. Falei em tom respeitoso.
Ele então ergueu a cabeça e percebi um semblante demasiadamente cansado.
---Soube hoje sobre a morte do conde de Wolguert, eu  o conhecia, falei com ele apenas uma vez. Disse ele e acrescentou.
---Uma noite ele me procurou juntamente com Peace e pediu para que eu contratasse Peace como jardineiro.Disse que seu nome era Hernest e que a catedral receberia uma generosa doação por isto.
---O sr. Sabia que ele era um homem procurado pela polícia? Indagou o inspetor
---Não.Só muito tempo depois descobri.Mas fiquei com medo de falar. Respondeu ele.
---O senhor tem alguma idéia de quem poderia ter matado Peace? Interpelou o inspetor.
---Não.Ele falava apenas com o empregado do conde Wolguerts, mas era sempre muito rápido. Disse Wisemann
---Este empregado seria Rurik? Muito forte e calvo. indaguei de imediato.
---Creio que sim, mas eram sempre visitas muito rápidas. Concluiu ele.
Thormann recostou-se para trás segurando o charuto entre os dentes.
---Agradecemos sua colaboração cardeal.Se lembrar de mais alguma coisa procure-nos. Disse ele
Após a rápida saída de Wisemann o inspetor olhou-me fixamente por alguns segundo. E advertiu.
---Incrivelmente a verdade tem o hábito de encravar-se na mente e sempre vem a tona, mas temos que ter cautela.
Ele caminhou lentamente até o painel onde mais um nome estava sendo colocado.
---Veja Lawford, Peace e o Conde tinha uma ligação, mas onde entra nisto tudo o homem morto na casa chinesa?
---Falta um detalhe que deixamos passar talvez. Sugestionei.
Thormann virou-se rapidamente e pegando seu sobretudo e seu chapéu dirigiu-se para porta.
---Vem comigo.Temos que fazer outra visita a condessa de Wolguerts.
Enquanto subiamos no coche da Scotland Yard em direção a Kensal Green explanei ao inspetor o que minha mente vociferava naquele momento.
---Se Peace conhecia o empregado do conde poderia ter sido morto por ele, mas oque me deixa confuso é quem teria matado o conde?
Thormann abriu a escura cortina da janela do coche e com um gesto de mão mostrou-me a rua.
---Todos fizemos parte de uma enorme tapeçaria que se chama Londres, em algum momento os fios terão que cruzarem-se e então saberemos qual direção tomar.
---Eu sei inspetor, mas esta situação deixa-me inquieto. Comentei com um tom polido.
---Aquele que fracassa em fazer justiça é tão culpado quanto o criminoso, e não vamos fracassar caro Lawford. Finalizou ele com um semblante menos severo.
Quando chegamos a mansão Wolguerts fomos recebidos diretamente pelo dr. Freud.
---Boa tarde Inspetor Thormann e sr. Lawford, vamos passar a biblioteca.
Mesmo não sendo a primeira visita aos Wolguerts, é impossível deixar de admirar o requinte e o luxo daquele lugar. Depois de devidamente acomodados Thormann foi objetivo.
---Dr. Freud, preciso falar com um empregado, seu nome é Rorik.
O médico abriu uma pequena caixa de madeira que estava sobre o livreiro e retirou uma velha foto passando as mãos do inspetor.
---Peço desculpas por não ter procurado os senhores no distrito, mas existem fatos que devem saber. Minha presença nesta casa nunca foi bem vista pelo conde e certamente por seus empregados.Quando cheguei encontrei a condessa em estado crítico.Muitas lesões nos braços e pernas feitas possivelmente pelo conde.Ela estava extremamente fraca.
---Mas porque a condessa não pode atender-nos? Ela é louca ?Perguntei
---Sr. Lawford, a loucura pobremente definida não recebe a devida importância pois não é uma doença psicológica do cérebro.É na verdade uma manifestação do subconsciente.
---Desculpe dr, mas oque isto quer dizer? Interrompeu Thormann
---Significa inspetor, que oque ela disser poderá ser verdade ou simplesmente algo que esta em seu subconsciente.Não temos como saber ao certo.
----E esta foto? Indaguei
----A enfermeira encontrou no fundo de um velho baú, no quarto da condessa.É uma foto bem antiga mas talvez ajude na investigação.O conde esta na foto com outras pessoas.
Thormann foi até a mesa e aproximou a lamparina para observar com mais clareza.E em seguida olhou-nos com um olhar de perplexidade.
---Estão nesta foto o conde, Rurik, Peace, Furnace, a condessa, e tem um casal e mais um jovem. Disse Thormann
---O sr. Sabe quem são o casal e o jovem? Perguntei a Freud.
---Infelizmente não tenho esta informação. Disse ele.
---Mas Rurik sabe quem são.Vamos falar com ele. Disse o inspetor posicionando-se em pé ao lado da porta da biblioteca.
---Sente-se inspetor, eu irei chama-lo. Interviu Freud.
O médico saiu da sala para buscar o empregado, ao passo que o inspetor olhava atentamente para a velha foto.
---Todos tem alguma coisa em comum, todos se conheciam e o assassino pode estar nesta foto. Disse ele
---Mas três já estão mortos. Ressaltei
---Oque nos deixa a condessa, Rurik, o casal que ainda não sabemos quem são e o jovem. Completou Thormann
Neste momento entram na sala o médico e o cocheiro.Rurik mantinha a cabeça erguida  e um olhar desafiador dirigido ao inspetor.
---Quando foi tirada esta foto? Indagou Thormann em voz alta e firma.
A expressão de surpresa ao ver a foto fez mudar completamente o semblante do até então ronpente serviçal.
---Não lembro exatamente a data, talvez quatro ou cinco anos,no porto de Londres. Disse Rurik
---Quem é este casal e este jovem no fundo da foto? Perguntou Thormann
--- O Jovem é Guilbert, Filho dos Wolguerts, morto a dois anos na Indía, quando fazia parte do exército  inglês.O casal não sei os nomes, eram chamados de Fred e Marg, trabalhavam na cozinha do navio.Respondeu.
---Porque estão todos nesta foto.? Perguntei.
---Chegávamos em um navio vindo da áfrica, Participamos de uma expedição de caça com o conde.Disse ele
---Porque você visitava Peace na catedral? Perguntei
---O conde pediu-me para ir a catedral duas vezes por semana e levar algum dinheiro a Peace. Respondeu
Thormann apriximou-se na cadeira onde Rurik .
---Peço que aguarde nesta sala.Disse em voz calma e baixa .
---Dr. Peço que leve-me até os aposentos da condessa,  por favor. Dirigiu-se a Freud
---Se é oque deseja inspetor, então sigam-me. Disse o médico enquanto abria a porta para  acompanhar-nos a escadaria que dava acesso aos quartos.
Ao abrir a porta dos aposentos da condessa pudemos distinguir a enfermeira em seu tradicional uniforme branco ao lado da cama onde uma senhora de cabelos grísalhos e fisionomia bastante abatida dirigiu-nos um olhar, sem qualquer outra reação.O aposento era grande mas com pouco mobiliário, o chão coberto por tapeçaria de várias cores e grossas cortinas não permitiam a entrada da luz do sol.Na parede quadros pintados a mão mostravam figuras desarmoniosas, figuras com rostos deformados.
---Senhores, esta é a condessa de Wolguerts, ou pelo manos oque restou dela. Disse Freud em voz baixa e tom melancólico.
---É um prazer conhece-la Condessa. Falei esperando alguma resposta.Ela apenas ergueu a mão em nossa direção e sussurou com voz rouca.
---Cavalheiros, encontrem meu filho, ele esta ferido e precisa de ajuda.
Neste momento Freud acenou para que saíssemos do quarto.
---Eu avisei aos senhores que ela esta delirante, diz ver o filho que morreu na guerra e que ele esta ferido.
 O inspetor baixou a cebeça em respeito ao comentário do médico.
---Entendemos certamente e agradecemos sua colaboração.Vamos levar Rurik para o distrito policial, pois ele e´o nosso único suspeito.Aconselho a levar a condessa para clínica pois aqui ela não estará segura.
---Os senhores estão cometendo um erro, não sou assassino. Disse o empregado quando Thormann mandou que entrasse no coche.
---Parece que finalmente os fios da tapeçaria começam a cruzarem-se. Disse Thormann fazendo referência ao que havia comentado quando estávamos a caminho da mansão.
Durante o tempo em que o inspetor determinava aos policiais do distrito que colocassem Rurik em uma sela, fui ao escritório do mensageiro para que enviasse um telegrama para meu padrinho, general Konrad, da Academia Militar de  Westpoint pedindo que verificasse a informação sobre o jovem Guilbert Wolguerts. Movido talvez pela intuição que dizia-me que Rurik não era o verdadeiro assassino, fui a casa de registros para saber em que situação estava a propriedade dos Wolguerts.
---A dois anos houve uma alteração no regedor do patrimônio da familia Wolguerts, com a morte do filho e a condessa com distúrbio mentais todos os bens ficaram exclusivamente para o conde.
A informação do escrevente poderia trazer uma nova direção ao caso, se não fosse o fato do conde já estar morto.
---Mas com a morte do conde quem ficaria com as terras. Indaguei
---Se não houver mais pessoas do mesmo sangue para reclamar a herança , a prefeitura de Londres poderá requerer a posse do patrimônio.
Já era final de tarde quando retornei ao distrito, tudo estava embaralhado em minha mente.Uma foto com oito pessoas, o conde, Peace e furnace estão mortos.a condessa esta na clínica e seu filho morto em combate.Se Rurick não é o assassino restou-nos procurar o casal que sabemos apenas serem Fred e Marg.
Ao chegar encontrei Thormann recostado a porta de entrada bufando seu charuto.
---Tudo que irremediavelmente ocorre em nossas vidas, começa e termina no pequeno círculo de nosso amigos ou inimigos. Disse ele retornando em direção a sua sala.
---Dizes isto por causa da foto? Perguntei ao ver que havia colocado ao lado dos nomes no painel.
---Temos varios nomes, todos em uma foto e nenhuma pista concreta. Concluiu ele.
Após informar ao inspetor sobre oque descobri no escritório de registro ele balançou a cabeça franzindo o queixo.
---Parece que tudo se complica ainda mais, agora temos uma terra sem dono. Disse ele.
--E Rurik, porque o prendeu? Questionei.
---Não acredito que ele seja o assassino, senão teria fugido.Mas aqui ele esta seguro. Respondeu.
Thormann certamente estava tão confuso quanto eu, e talvez por este motivo foi até a sela onde Ruruk encontrava-se sentado ao chão.
---Se diz não ser o assassino deve tomar cuidado, pois talvez ele também tencione mata-lo. Disse Thormann ao prisioneiro.
---Garanto aos senhores que jamais matei alguém. Disse Rurik.
---Então conte-nos algo que possa auxiliar para encontramos quem esta cometendo estes crimes. Falei enquanto o prisioneiro  veio até as grades onde estávamos.
---A algumas noites o conde recebeu a visita de um homem, não sei dizer quem era pois ele veio em um coche e  não desceu, o conde falou com ele rapidamente no pátio.Os dois estavam bastante alterados.
---Você conseguiu ver a fisionomia do homem? Indaguei
--- Não, mas na mesma noite o conde colocou três baús de madeira em um coche e saiu sózinho, retornando tempo depois sem os baús.
---Sabe oque continha nos baús?Perguntou Thormann
---Muitos amigos do conde traziam objetos em ouro e prata, jóias e outras coisas de valor para vende-las ao conde.Talvez este seja o conteúdo. Completou Rurik.
---Certamente fruto de roubos. Afirmou o inspetor
---Mas para onde ele levaria tudo isto? Perguntei
Apenas o balançar de cabeça do Rurik deu-nos a enterder que ele não sabia o paradeiro dos baús.
 A notícia dos assassinatos logo se espalhou pela cidade., começaram a fervilhar boatos insensatos. Falava-se de uma orgia, de uma batalha entre clãs rivais, de uma farsa macabra que teria acabado mal.Não que em Londres corresse pouco sangue , a história da cidade era um longo desfile de combates, de confrontos.
Os Londrinos reagiram como se o assassinato do St. James Park significasse outra coisa. Eles compreenderam que o que mais importava ali era a maneira de exibir a morte e não o fato de causá-la. O assassino, expondo seu malfeito daquela maneira, lançava um desafio as autoridades.
Já era noite quando nossa atenção direcionau-se ao Palace Music Hall, onde buscaríamos alguma informação com Hector Lenn.Thormann mostrou-me a foto que havia colocado no bolso de seu sobretudo.
---Cocheiro.Vamos ao Hospital Psiquiátrico. Disse ele
Quando notou minha expressão de espanto com o novo trajeto argumentou.
---Ainda é cedo e temos tempo para falar com Freud.
Em poucos minutos estávamos na recepção da Clínica em companhia do médico.
---Doutor, o senhor é especialista em analisar a mente humana. Ajude-nos. Disse Thormann colocando a foto sobre o balcão da recepção.
Freud tomou a foto em sua mão e olhou demoradamente para cada um dos rosto que estavam nela.
---venham comigo cavalheiros.
Seguimos por um longo corredor até um consultório, onde após entramos a porta foi fechada pelo médico.
--- Por favor senhores fechem seus olhos e ouçam a minha voz.Imaginem que conseguem ver dentro de seus cérebros.É uma casa e esta escuro, apenas sua consciência é uma pequena luz solitária.Como uma vela ao vento que vacila para todos os lados, e todo resto atrás desta fraca luz esta nas sombras.Todo este resto esta em nosso subconsciente.Mesmo não vendo sabemos que tudo esta lá, nossos segredos, medos, desejos, tudo aquilo que não expressamos externamente.São muitas vezes memórias que não queremos que encontrem a luz, tudo esta no subconsciente e estas memórias ou desejos é que distorcem nosso visão mais clara de tudo.Muitas vezes a resposta não esta a nossa frente, mas sim naquilo que não estamos vendo.
---Tudo isto é muito interessante, mas em que isto pode ajudar-nos neste caso. Perguntei
O médico sorriu timidamente e devolveu a foto ao inspetor.
---Sr. Lawford, como eu disse, muitas vezes a resposta esta no que não estamos vendo.
Thormann olhou-me também confuso com a resposta.
---Por favor Dr, seja mais claro.Disse ele
Freud moveu-se calmamente até onde Thormann estava sentado a parou ao seu lado.
---O que o sr. Não esta vendo inspetor? Quem esta faltando nesta foto ?
O inspetor ergueu as sobrancelhas e ergueu-se de um salto.
---O mordomo, ele não esta na foto . Concluiu.
---Isto mesmo inspetor, Bernard o mordomo, não esta na foto.Completou Freud.
A revelação pareceu-me ter aguçado o raciocínio de Thormann.
---Ele conheceu a todos, e não esta na foto, porque ? Ponderou
Saimos quase a correr em direção ao coche.
--- Para o distrito, rápido. Falou Thormann mostrando-se bastante impaciente.
Descemos emfrenre ao distrito com a urgência que a situação requeria.O inspetor foi diretamente a sela de Rorik.
---Porque o mordomo Bernard não esta nesta foto. Indagou mostrando novamente a foto ao preso.
--- Bernard foi quem tirou esta foto inspetor. Respondeu Rorik.
Neste momento um guarda chega ao corredor das selas.
---Sr. Lawford.Chegou um telegrama em seu nome.
Era a resposta do Coronel Konrad sobre Guilbert Wolguerts, segundo os registros militares o jovem não foi considerado morto, mas sim desaparecido em batalha.Seu corpo nunca foi localizado.
Na sala de Thormann tentávamos colocar as deduções em uma vertente mais coerente.
---Precisamos falar com o mordomo. Disse ele recolocando a foto no painel. 
 Mas o capitão da guarda interronpeu entrando na sala.
---inspetor, sua presença é solicitada na hospedaria Grenn Rose, na Dowling Street 96.
---O que houve lá capitão ? Indaguei
---Parece que houve outro assassinato Sr.  Lawford. Respondeu ele.
Thormann olhou-me balançando a cabeça negativamente enquanto saía em direção ao coche.
O local era não muito longe da área central de Londres.Eram poucas as famílias que residiam ali, quase todo o quarteirão era de armazéns e algumas poucas hospedarias baratas.Ao descermos do coche no numero 96 fomos acompanhados por um policial da guarda de Londres que subiu conosco as escadas que lavaram ao segundo piso, Entrei primeiro, com a lanterna na mão, subindo um degrau  por vez da escadaria para permitir ao inspetor seguir-me. Este avançou cautelosamente, inspecionando o chão como se procurasse alguma coisa. Ao chegamos próximo a porta onde deveríamos entrar ele sentiu o cheirou  pútrido e fez uma careta estranha que eu não soube interpretar.
No quarto 23, Já na entrada observamos uma mesa com uma garrafa de vódka e três copos ainda com restos da bebida.No fundo da peça uma cama e sobre ela dois corpos, um homem e uma mulher.Colocados um ao lado do outro com as mãos sobre o peito, deitados sobre uma enorme mancha de sangue com borrifos por todo chão.O assassino cortou-lhes a garganta e consumou seu crime colocando as vítimas sobre a cama.Thormann agia com cautela para não deixar passar nenhum detalhe. enquanto o guarda nos lançava olhares intrigados.O inspetor pegou então a lanterna e iluminou, um a um, os corpos estirados, onde haviam secado horríveis manchas  avermelhadas.
Thormann observou por alguns segundos a cena.
---O que estas vendo aqui Lawford?
A pergunta do inspetor me deixou confuso.
---Um crime, um casal com a garganta cortada. Respondi
---Sim, o mesmo casal que esta na foto. Olhe com atenção. Disse ele
Só então pude perceber que se tratava de Fred e Marg, o casal que estava na foto com o conde.Rorik estava preso, restava Bernard, o mordomo.
---Vire os corpos. Disse Thormann
Como nos outro crimes havia um ferimento na parte traseira da cabeça do homem, mas na mulher o ferimento era na parte frontal do rosto.Talvez ela tenha tentado resistir ao assassino.
Um dos guardas abre a porta do lavatório do quarto.
---Inspetor, tem algo mais aqui.
Amontoados no minúsculo e fétido banheiro o policial encontrou três baús de madeira.Completamente vazios.
Thormann ordenou que levassem os corpos ao necrotério e sem tardar procurassem por testemunhas.Mas em poucos minutos todos estávamos de volta ao local do crime, como sempre ninguém viu nada.Enquanto o inspetor caminhava pelo quarto.
---Veja Lawford, três copos na mesa.O assassino conhecia as vítimas. Disse ele
---Mas Rorik esta preso, então só nos resta Bernard. Concluí.
Neste momento o capitão da guarda entrou.
---Ninguém viu nada ou não querem falar. Disse ele.
---Nenhuma testemunha se manifestou, o assassino é um fantasma. Disse o inspetor irritado
---Em todo caso, duvido que o assassino tenha mostrado sua verdadeira face.Argumentei 
---Parece que infelizmente foi o que aconteceu. Disse o capitão ao sair.
--- Não se trata mais apenas de explicar um assassinato, meu caro amigo. Trata-se, provavelmente, de impedir que outro aconteça.  Completou ele.
Suponho, hoje, que tal presságio devia ter me apavorado.Mas para minha grande vergonha, devo admitir que me fascinou.
Tinhamos um suspeito, o único, e fomos de imediato a mansão dos Wolguerts.Queriamos saber o que Bernard tinha a dizer.
Ao descermos do coche encontramos a mansão praticamente abandonada, janelas fechadas e luzes apagadas.Thormann dirigiu-se pelo caminho ao lado da casa.
---Vamos dar a volta pelos fundos.
Enquanto esgueirávamos pelas paredes laterais verificamos que realmente não havia ninguém na luxuosa mansão dos Wolguerts.Mas em um pequeno cômodo fora da casa avistamos uma fraca luz de vela, e lá encontramos Bernard. Apenas uma batida na porta foi o suficiente para que a porta fosse aberta e pudéssemos entrar no local onde apenas uma cama e um armário sem portas serviam de moradia ao mordomo.
---Você saiu da propriedade esta noite? Interrogou Thormann em voz alta .
---Não. Fiquei limpando a prataria. Respondeu ele
---Leve-me até onde esta a carruagem. Disse Thormann.
O estábulo ficava bem próximo onde estávamos,e Thormann foi perfeito em suas deduções.
---Existe uma grande quantidade de barro ainda úmido nas rodas do coche, e o rastro das rodas são recentes.
O inspetor agarrando Bernard pelo braço puxou-o bruscamente para fora do estábulo.
---Você pensou que poderia enganar-nos por quanto tempo? Completou Thormann.
Em uma velha mala de couro em cima do armário a policia encontrou uma antiga máquina de fotografia, muitas fotos da área central de Londres, em algumas destas fotos aparereciam uma senhora muito bem vestida segurando nos braços uma menina e com um menino ao seu lado.
Durante boa parte da noite o inspetor tentou extrair alguma informação do mordomo.Queriamos saber o porque das mortes e se alguém o ajudava.Mas Bernard permanecia em silêncio, oque deixava Thormann ainda mais irritado.
---Precisamos saber a motivação dos crimes, como ele agia para encontrar as vítimas. Dizia ele.
Permanecemos até o amanhecer no distrito analizando os acontecimentos, pois agora tínhamos um suspeito.Mas o inspetor sabia que nem tudo era o que parecia.Bernard não era um homem jovem.Seus cabelos grisalhos, seu porte bastanrte magro e sua baixa estatura indicavam claramente que ele não cometeu os crimes sem ajuda de alguém.Supondo que ele era o assassino, fato esta que não estávamos plenamente convencidos.O sol ja estavava por sair quando adentrou ao distrito o Sr. Peter Langoni, Um robusto italiano na casa dos sessenta anos e proprietário do Jornal Londom Gazzet.
---Bom dia Inspetor, o sr, tem alguns minutos? Gostaria de falar-lhe. Disse Langoni
Thormann recostou-se em sua poltrona com uma visível fisionomia de cansaço.
---Se é alguma manchete para o jornal, ainda não temos nenhuma. Respondeu Thormann sem olhar para Langoni
---Na verdade inspetor eu vim aqui oferecer minha ajuda, e quem sabe depois consiga minha manchete. Disse o homem puxando uma cadeira e sentando-se a frente do mesa do inspetor, que sinalizou com a mão para que ele continuasse.
---Em 1769 meu pai, um imigrante italiano e minha mãe,uma costureira  irlandesa chegavam a Londres.Meu pai engenheiro trabalhou na construção da ponte de Winsminster.Minha família acompanhou o crescimento de Londres.
---Seja mais específico Sr. Langoni. Interronpeu Thormann.
---Muito tempo depois a família Wolguerts chegou a esta cidade.O patriarca chamava-se Isac Wolguerts.Vieram com muito dinheiro e compraram muitas terras,era apenas Isac e sua esposa Virgínia.Com o passar dos anos eles tiveram dois filhos, Bernard, o mais velho, e Edna que veio depois.
---Bernard é irmão de Edna.?Indaguei surpreso.
Langoni apenas olhou-me rápidamente e continuou.
--- Isac era um homem acostumado com a nobreza e logo começou a circular nos locais onde somente os mais poderosos de Londres podiam frequentar.Tinha como passatempo a fotografia, conhecimento este que foi passado a Bernard quando adulto.
---O que houve com Isac e Virgínia? Indagou o inspetor.
---Morreram quase ao mesmo tempo, devido a uma forte tuberculose.Mas seus filhos já eram adultos. Respondeu Langoni.
---Mas o conde e seu filho. Perguntei impaciente.
---Depois da morte de Isac e Vírginia, Edna foi para França e retornou três anos depois com Guilbert, seu filho.Sómente quando o menino tinha oito anos foi que Edna conheceu Edy Singers, um aventureiro e comerciante de escravos.Casou-se com ele transformou o contrabandista em conde de Wolguerts. O sucessor da fortuna no caso de morte de Edna seria o filho, mas foi enviado para o campo de batalha ao completar dezoito anos e nunca mais voltou.Ou seu tio Bernard.
Tudo que foi dito por Langony deixou a mim e ao inspetor sem palavras.
---Porque então Bernard era tratado como mordomo? Perguntou o inspetor.
---Esta resposta eu não tenho.Disse Peter
---Mas gostaria de pedir sua permissão para publicar a foto que esta em seu painel. Direi apenas que um suspeito foi preso , nada mais. Completou o rechonchudo homem.
Thormann retirou a foto do painel passando as mãos de Langoni.
---Depois devolva-me, ainda estamos investigando.Disse ele.     
   O caso parecia se tornar menos incerto.
No entanto, após a publicação da foto na edição do Lomdom Gazzet, uma nova escuta das testemunhas confirmou a presença de um Homem com uma longa capa preta e apoiado em uma muleta subindo as escadas da hospedaria acompanhado de outro cavalheiro, mais baixo de cabelos grisalhos. mas ninguém sabia quem eles eram, nem sequer escutaram suas vozes.
Thormann ordenou que libertassem Rorik, não havia provas contra ele.Ao contrário de Bernard, que estava bastante envolvido no mistério das mortes.
---Parece que você tem muito a dizer. Disse o inspetor ao mordomo quando entrou em sua cela.Sentado ao lado de Bernard na casa de detenção da Scotland Yard, Thormann relatou ao preso tudo oque sabiamos. E pediu que falasse tudo oque estava escondendo, pois não havia mais motivo para segredos.
---Em uma noite chuvosa a alguns meses, alguém bateu a porta de meu quarto, era muito tarde e certamente ninguém havia percebido sua chegada.quando abri quase desmaiei, era Guilbert. Disse o mordomo.
---Mas ele não estava morto? Perguntei precipitadamente.
Ele nem sequer ergueu os olhos para mim e seguiu sua narrativa.
---Primeiro fiquei assustado, depois mandei-o entrar, estava ensopado quando tentei ajuda-lo com a capa percebi que faltava-lhe parte  da perna direita, por isto usava uma muleta.Uma muleta de metal.
---Ele disse oque aconteceu com ele? Indagou o inspetor também precipitadamente.
---Contou-me que perdeu parte da perna em batalha e foi enviado ao hospital de campanha, de onde fugiu.Quando chegou a Londres hospedou-se nos fundos da Cantina Urso Branco, onde o proprietário foi combatente juntamente com ele na Índia.Pediu-me para acompanha-lo no escritório da registro, pois desconfiava das intenções de seu padrasto, e quando foi falar com o conde na mansão não desceu do coche. Discutiram e o conde proibiu sua entrada na mansão.
---Mas ele voltou certamente. Conclui.
---Muitas vezes, durante a noite eu o colocava para dentro da mansão pela porta dos fundos, e ele visitava sua mãe, a condessa.
---Então quando ela dizia que ele estava ferido não era delírio, realmente ela via seu filho sem uma parte da perna. Exclamou o inspetor.
---Exatamente. Disse o preso.
---Oque ele tem a ver com estas mortes? Perguntei sem Evasiva.
---O Conde realmente pretendia ficar com as terras, e Guilbert sabia que ele pediria aos seus velhos cúmplices que providenciassem algum acidente para mim e para meu sobrinho.Então Guilbert resolveu agir.
---Como seu sobrinho fazia isto? Perguntou Thormann.
---Não foi difícil descobrir onde eles moravam, depois foi só planejar o dia e esperar o momento certo.Eu buscava Guilbert no Urso Branco com a carruagem da mansão e acompanhava ele até o local.
---Você participou das mortes? Perguntei.
---Não. Guilbert usava sua muleta de metal para derrubar as vítimas, eu apenas auxiliava para colocar os corpos como ele desejava.
---Mas qual de vocês cortou as gargantas das vítimas. Inquiriu Thormann.
---Também foi ele. Respondeu Bernard.
---Porque aceitou ser mordomo da mansão? Perguntei intrigado
---Quando percebi que minha irmã já não tinha mais nenhuma consciência doque estava acontecendo, temi por minha própria vida.E  passei minha parte das terras para o conde.
---Então ele te colocou como um serviçal. Disse Thormann balançando negativamente a cabeça.
---Foi oque aconteceu. Completou Bernard.
Um ato de extrema violência tem sempre como motivação algum trauma, uma negação ou uma não aceitação.No caso do Jovem da família Woolguerts, era a traição do padrasto.
      Não era preciso ser um grande adivinho para perceber que nossa próxima visita seria a cantina..
O inspetor, acompanhado de sua tropa, foi então até a cantina Urso Branco, localizada atrás do Palace Music Hall. A Cantina era um dos locais mais mal frequentados de Londres. Não foi preciso muito tempo  para que seus homens ficassem sabendo que, de fato, um jovem usando muletas vivia em um dos quartos. Infelizmente, não havia ali mais do que um baú vazio, restos de velas e alguns objetos de uso masculino num estado lamentável.
A proprietária, por sua vez, não se fez de rogada para contar o que sabia,seu locatário alugava aquele quartinho havia pouco mais de um ano e lhe pagava uma boa quantia por ele, preço este que presumi ser exorbitante, considerando-se que a única janela dava para um terreno baldio coberto de estrume.
---Faz algum tempo que ele vem aqui, é oque me parece. Afirmou o inspetor
---Ele me paga adiantado, se não usa o quarto é problema do aleijado.Disse a proprietária despreocupadamente.
---A senhora sabe onde mais posso encontra-lo. Perguntei.
---Ele perguntou-me certa vez onde ficava a oficina de Bruckmeier. Respondeu ela
      Thormann notou que fiquei absorto tentando lembrar se já havia escutado aquele nome.
---Bruckmeier é um austríaco que fabrica objetos de vidro e metal.Fica do outro lado da cidade. Disse ele.
E este seria nosso próximo destino.O dia já estava em seus minutos finais e o sol já havia se posto. Estavamos naquele momento em que alguns chamam de “ A Hora Morta”, quando o sol já se pôs mas a lua ainda não surgiu.Já no coche em direção a oficina Thormann parecia ter recuperado sua tranquilidade.
---A linha entre a justiça e a barbárie é muito tênue. Falou calmamente.
---Para o assassino era como uma peça de teatro, cada morte era um ato da peça.Comentei.
---A pantomina na forma mais pura,o espetáculo da morte.Mas agora chegamos ao capítulo final. Concluiu ele.
A oficina ficava no final da King Charles Street, um prédio antigo, muito alto e construído na maior parte com pedras retangulares.Tendo ao fundo uma enorme chaminé.Logo ao chegarmos fomos recebidos por um homem de cerca de trinta anos, bastante forte.Embora não parecesse  surpreso com nossa visita, sua atitude refletia uma hostilidade absurda que eu não sabia a que atribuir. Conduziu-nos, no entanto, até uma grande sala, cujo forro devia estar a quatro metros de altura e onde reinava uma desordem extraordinária.
Havia ali grandes mesas cobertas de pilhas de papéis, de desenhos e livros.Vários baús antigos, encostados nas paredes serviam de suporte a uma quantidade de máquinas de ferro ou de madeira cuja utilidade eu era incapaz de adivinhar. Num canto, uma bancada de preparação de peças em vidro ostentava manchas coloridas e estava cheia de potes com pincéis, penas e bastonetes apontados.
---Meu nome é Bruckmeier. Oque os senhores desejam? Disse o homem
---Somos da Scotland Yard e gostaríamos de saber se conhece Guilbert Wolguerts?
A sua resposta surpreendeu-nos.
---Certamente que conheço, Vou chama-lo.
Dizendo isto o homem afastou-se e sumiu em meio as prateleiras que estavam espalhadas por toda parte.
 No alto, uma engrenagem de polias mantinha suspensa uma espécie de cavalete sobre o qual se via a moldura de um quadro virado para cima. No outro canto da sala, um fogo infernal ardia numa enorme lareira. Hastes de metal incandescente estavam mergulhadas no braseiro, e pensei ter distinguido uma massa de vidro derretido no meio das chamas. Um pouco afastada da lareira, estava disposta sobre um pano, uma coleção de objetos que me fez pensar nos instrumentos cirúrgicos utilizados no Oriente.Realmente, não sabia o que pensar daquela acumulação de objetos, nem do estranho cheiro, mistura de pintura, de substâncias aromáticas e de metal incandescente, que se desprendia do conjunto. Ao lado desenhos, diversos cadernos estavam cobertos de uma escrita que não
conseguia decifrar. Embora acreditasse reconhecer algumas daquelas letras, o conjunto não evocava nada de compreensível, como se as palavras e as frases tomassem emprestado nosso alfabeto para se combinar numa outra língua.Outra coisa estranha eram as espécies de enigmas que decoravam a parte de cima de algumas folhas. Traçados em lápis preto, podiam ser vistos, por exemplo, uma nota musical seguida de uma serpente, depois de um pote, depois de uma  outra nota e de uma  arma de fogo. Embaixo, estavam rabiscados alguns signos, sem dúvida a solução do enigma, ela também expressa na mesma língua desconhecida.
Os momentos que antecederam a chegada de Guilbert pareceram uma eternidade para mim,estavam vivas em minha memória as horríveis cenas que presenciei nestes últimos dia.Gargantas cortadas, cabeças arrancadas, muito sangue e crueldade.Era uma mistura de Impaciência e nervosismo.Então surgiu Guilbert, eu poderia dizer com certeza que foi uma entrada teatral.Saindo por detrás das inúmeras cortinas que se espalhavam pela sala, apareceu um homem com trajes militares em cor azul escuro.A perna da calça direita dobrada até o joelho deixava claro que lhe faltava parte daquele membro, o apoio era uma muleta fabricada em aço.Ele caminhou vagarosamente até onde estávamos e sorriu.
    ---Que bom que chegaram senhores.Disse ele enquanto sentava-se em uma cadeira a nossa frente.
---O senhor me parece muito tranquilo para quem vai ser preso por quatro assassinatos. Respondeu Thormann
Bruckmeier colocou duas cadeiras próximas para que sentássemos e acomodou-se sentado em uma das inúmeras caixas de metal que haviam no local.
---Meu caro inspetor, o senhor foi muito esperto em seguir as pistas deixadas por mim. Falou Guilbert ainda  sorrindo.
---Se sabia que vínhamos porque não fugiu? Perguntei, pois não estava entendendo toda a calma do criminoso. Ele então recostou-se ainda mais na cadeira, fez um gesto com a mão para que sentássemos  e começou a falar.
---O motivo pelo qual me alistei para ir ao front de guerra na India foi porque nunca concordei com a união de minha mãe com aquele trapaceiro, não suportava mais ver ela sendo maltratada por aquele vigarista.
---Mas a noticia que tínhamos era que estavas morto. Disse o inspetor
O Jovem ergueu a mão pedindo para continuar.
---Fui gravemente ferido em combate, e podem ver que o ferimento me fez perder parte de minha perna.A incompetência dos médicos ingleses matavam mais que as balas inimigas, então pedi ajuda a uma das enfermeiras e fugi do hospital.Se permanecesse ali perderia mais que metade da perna, certamente perderia minha vida.
---Você é um desertor. Disse Thormann interrompendo a narrativa. 
---Quando se esta em uma guerra só existem dois tipos de soldados, os vivos e os mortos.E eu escolhi fazer parte dos vivos. Justificou ele.
---Mas e estas terriveis mortes depois de sua chegada? Perguntei
---Quando retornei fui procurar o Sr. Langoni, um velho amigo de minha família, pois sabia que ele era me ajudaria.E então fiquei sabendo das torturas que o conde infringia a minha mãe, e de seus comparsas que saqueavam a cidade e levavam seus logros a ele.
---Seu problema de locomoção certamente não atrapalhou na execução de seus planos? Afirmou Thormann
---Sempre que tinha que sair a rua pedia para meu Tio Bernard acompanhar-me com o coche.
--Ele foi seu cúmplice então. Deduzi.
---Eu não diria desta forma.interveio o jovem.
--- Quando fiquei sabendo das intenções do conde de ficar com as terras de minha família resolvi agir.Primeiro foi a morte de Peace, mas ele não deu importãncia ao aviso.
---Ou então talvez não o tenha entendido. Interví.
Mas sua incrível narrativa estava apenas começando.
--- O mesmo acontecendo com o velho Furnace.Aquele embusteiro estava zombando das mortes.Pois tenho certeza que sabia que eu estava caçando seus larápios.
---E a morte do conde? Indagou Thormann
        ---Pedi a Langoni que entregasse ao conde um convite para o espetáculo de Hector Lenn, mas eu o estaria esperando nos fundos do teatro.Depois  de derrubar o miserável com uma pancada na cabeça colocamos novamente dentro do coche e fomos para o Park.O restante vocês já sabem. Confessou ele calmamente.
---Usaste esta muleta para dominar suas vítimas com uma pancada na cabeça. Disse o inspetor apontando para o artefato que estava ao lado da cadeira de Guilbert.
---Sem dúvida inspetor. Respondeu ele, sempre muito calmo.
Thormann ergueu-se de sua cadeira e foi até onde estava o Jovem.
---Terei que prende-lo pelas quatro mortes, tens algo a declarar antes de ser levado ao distrito?
---Sim inspetor, o mais importante eu deixei para o final. Disse o jovem sorrindo.
Nem eu,  e creio certamente tampouco o inspetor entendíamos porque a ironia, ou seria demasiada tranquilidade do assassino.
---Quando minha mãe foi para França ela já estava grávida.Eu nasci lá mas meu pai é de Londres.
Ouve um entre-olhar de surpresa entre Thormann e eu.
---Sou um desertor, se não prederem-me agora o exército certamente me encontrará.Por este motivo entrego-me aos senhores mas faço um pedido.
Ouve um breve silêncio na gigantesca sala e ele continuou.
---Que os senhores sejam testemunhas que passarei toda nossa propriedade para o Sr. Langoni.Ele é meu verdadeiro pai.Enquanto eu e Bernard estivermos presos ele cuidará das terras e de minha mãe.
Foi quase indescritível a expressão de espanto que ficou estampada no rosto de Thormann.No trajeto até o distrito estavámos todos em silêncio.Guilbert já nao tinha mais o sorriso no rosto e o inspetor parecia aos poucos analizar o intrincado desfecho cheio de detalhes inesperados ao qual presenciamos.
Após todas as providências necessárias já terem sido tomadas pela Scotland Yard para a prisão de Guilbert e Bernard, predispunha-me a ir para casa para um merecido descanso quando Thormann pediu que o acompanha-se até o centro prisional.Logo ao chegarmos direcionou-se rapidamente a uma cela localizado aos fundos do corregional.
---Veja este homem Lawford. Disse o inspetor apontando para um preso que estava de pé agarrado as grades.
Era um homem de meia idade e cabelos longos e claros, com uma cicatriz no lado esquerdo do rosto.
---Este é Jack Sheppard, ladrão e cafetão. Falou Thormann apontando para o homem.
---E porque esta me apresentando a ele? Perguntei intrigado com o fato.
    Thormann aproximou-se da grade.
---Diga ao Sr. Lawford porque esta preso Jack. Falou o inspetor.
O preso retornou ao fundo de sua cela e sentou-se ao chão.
---Cavalheiro, eu fui preso porque matei uma vagabunda que roubava meu dinheiro, dinheiro de meus clientes.
---Diga o nome dela Jack, diga ao sr. Lawford o nome da prostituta que você matou. Falou Thormann em voz alta.O homem sorriu, ergue-se e veio novamente até as grades.
E ssussurou...
--Nina, o nome dela era Nina.
O inspetor esperou alguns segundos observando minha expressão de total perplexidade.Depois colocou a mão em meu ombro conduzindo-me para fora da área prisional.
Eu não sabia oque pensar ou dizer.Por longo tempo joguei sobre os ombros de Thormann a culpa  de algo que ele não havia feito.E ele afastou-se de mim tempo necessário até pegar o verdadeiro criminoso de Nina.
---Vou ao distrito mas deixo-te em casa, ambos precisamos descansar.
E assim o coche seguiu seu curso, assim como nossas vidas.
   
Timoty Lawford, Londres 1864
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Atualizado em: Sáb 6 Jun 2020

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