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Rebelião II

Os repórteres, ansiosos, buscavam entender o que se passava nos pavilhões. Os gritos ecoavam nos muros de quatro metros de altura, mas reverberavam distorcidos. Imprecações coléricas, sons de objetos arremessados, vultos que corriam sobre os paralelepípedos compunham o cenário que os jornalistas registravam em seus blocos de notas. Fotógrafos e cinegrafistas empenhavam-se para captar imagens distantes. As informações eram desencontradas, valia mais o senso de observação. De uma guarita, um guarda alertou que uma horda se dirigia para o lado esquerdo da prisão. Sons cortantes quebraram o silêncio tenso que se estabelecera. “Estão na enfermaria”, alertou o militar.
Parecia que os presos retiravam válvulas de botijões de gás. “São extintores”, observaram alguns. Estalidos secos, como madeira se quebrando, também foram ouvidos. Ao final de alguns minutos, uma camada de fumaça preta subiu ao céu: a destruição marchava. Muito do que existia na penitenciária estaria reduzido a cinzas quando se encerrasse a rebelião. Os focos de incêndio multiplicavam-se. Comentários surgiam: os presos se excediam e até os próprios colchões transformavam-se em cinza e fumaça nas fogueiras armadas na entrada dos pavilhões. Alguém informou que, na enfermaria, havia grandes quantidades de álcool e éter. Os rebelados moviam-se em um estado de exagerada euforia, urrando como animais.
Informações circulavam: havia quatro ou cinco reféns; reforços foram solicitados à Polícia Militar, em Salvador; cerca de cem homens faziam a segurança na penitenciária; não fora criada ainda uma comissão para negociação entre os presos, sabia-se apenas que eles não queriam a construção do muro. Ninguém confirmava ou negava que a reivindicação seria atendida; o certo, por enquanto, era que as dependências do presídio estavam sendo destruídas.
Em um estreito portão lateral ao lado do principal, que normalmente dava passagem aos agentes, presos se amontoavam, observando a multidão na rodovia. Gritavam pela destituição de funcionários e diretores e juravam vinganças contra os policiais que transitavam pelo pátio.
            Nas duas primeiras horas o clima permaneceu explosivo. Os internos ainda não haviam abandonado a ideia de invadir a administração. Se conseguissem, iam destruir documentos e desmoralizar as autoridades. “Tomara que eles venham”, torcia um policial baixo e careca, que empunhava uma submetralhadora.
“E eles virão?”, indagou um repórter.
“Quero que venham”, disse o policial. “Vai ser fácil”. E sorria.
As nuvens de fumaça escassearam. Em pouco mais de uma hora de incêndio, boa parte do material combustível ardeu em labaredas. A munição atirada sobre o prédio da administração findara. Grande parte dos internos já dispunha de uma arma cortante para possíveis confrontos, arranjada na cozinha ou improvisada. Vagavam sem rumo sobre os paralelepípedos. Pelo visto, aproximava-se o momento em que começariam a ajustar contas entre eles mesmos.
Pouco depois do meio-dia começou uma correria intensa: parecia uma nova investida contra a ala administrativa. Dois policiais militares, com revólveres em punho, colocaram-se na área ao lado do prédio da administração, entre os dois grandes portões principais, que se sucediam. Rádios entraram em flashes imediatamente. “Pega, pega”, ouviram alguns repórteres, apurando os ouvidos.
Um encarcerado escalava o muro de quatro metros de altura. Parecia, à distância, que pretendiam uma investida maciça e muitos, na rodovia, recuaram, temerosos. Mas, não. O preso, visivelmente machucado, sentou-se na muralha por alguns instantes e arfou.  Estava só. Lá dentro, permanecia um intenso movimento, pés nervosos eram entrevistos em frenética agitação. Os policiais baixaram as armas. E o preso começou a penosa descida, com braços e pernas bambos. Não resistiu e caiu, sendo recolhido pelos dois militares. Circulavam informações contraditórias. A mais verossímil dava conta de que a vítima foi acusada de delação e acabou espancada pelos companheiros. Correra pela área interna, entre bofetadas e pontapés, até escalar o portão e escapar com vida.
Carregado como um fardo foi receber atendimento médico no hospital público próximo ao Conjunto Penal. “A vida deste aí vai se tornar um inferno”, confidenciou um porteiro do presídio, com naturalidade. Certamente conservaria as marcas da acusação de delator e covarde e o convívio no cárcere se tornaria insuportável.
Esses confrontos foram assumindo uma feição cruel e covarde: dezenas de presos, ensandecidos, perseguiam um parceiro desafortunado que reagia ou se escondia, recolhendo a humilhação pelas pancadas recebidas. As provas das traições eram vagas: uma acusação verbal e uma antipatia generalizada rapidamente descambavam em agressões ferozes. Após os primeiros ajustes, quando se distribuíram sopapos naqueles presos mais visados, a turba se colocou diante do impasse da continuação do motim.
Nesse instante começaram a se manifestar as figuras mais influentes entre a massa carcerária. Tarimbados em rebeliões, preocupavam-se em formular reivindicações, mantendo os reféns vivos e sem espancamentos. As negociações e o calculado impasse, na realidade, eram pretextos para encobrir outro objetivo: a escavação de um túnel que permaneceria oculto e, dias mais tarde, seria usado numa fuga.
“Vamos encaminhar uma lista de reivindicações”, prometeu um dos líderes à direção da penitenciária. De antemão, alguns requisitavam a presença do “juiz corregedor” e a revisão imediata dos seus processos. Muitos se julgavam com a pena cumprida e exigiam libertação.
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Atualizado em: Qui 10 Out 2019

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