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Assassinato de Picalho - PARTE FINAL

JUNTANDO OS CACOS

Praxedes chegou cedo naquele dia outra vez, como já estava se tornando costume desde assassinato. Lia e relia suas anotações, olhava seu quadro de anotações na parede, mas nada fazia sentido. Havia voltado a cena do crime diversas vezes para encontrar algo que lhe houvesse escapado, mas nada. Perdido em seus pensamentos, é despertado por Dona Leci, que entra para fazer a limpeza.
Ela começa, reclamando do excesso de gente entrando e saindo da delegacia, por certo, aumentava lhe o trabalho, e Praxedes cordial lhe responde:
_ Está um caos, há noites, não consigo dormir pensando neste caso.
_ E o senhor, já encontrou o assassino?
_ Nem de longe, alguma peça não se encaixa neste mistério.
_ Todos falam no corredor, que foi o fazendeiro, que mandou matá-lo.
_ Sim. Ele é o maior suspeito, mas não posso ficar falando sobre isso,
nem com a senhora, preciso do sigilo neste momento.
_ Entendo. O senhor era muito amigo do Dr Picalho.
_ Sim, nos dávamos muito bem.
_ Não abriu a janela hoje? Posso abri-la?
_ Nem me dei conta disso. Claro, por favor.
_ Toda manhã, o senhor chega, vai até a caixa de correspondências, pega um cafezinho, entra na sala, joga a bolsa no sofá, abre a janela, senta na cadeira e dá uma “bufada”. Risos.
Ele sorriu, olhou pra ela e disse:
_ Este sou eu.
_ Terminei Sr Praxedes. Tenha um bom dia.
_ Bom dia.
Assim que ela saiu, ele mergulhou novamente em seus pensamentos. Tinha um faro, e este não lhe apontava para os dois maiores suspeitos. Faltava o olhar do assassino e isso lhe corroía. Precisava descobrir quem era o último homem daquela foto. Teve a ideia de ir ao bar mais antigo da cidade, e perguntar ao Samuca, se lhe era familiar.
Samuca era um típico dono de bar, boa praça, conversador, mas se as coisas saíssem da normalidade no bar, “o bicho pegava”.
Chegando ao Flores Bar, saudou o velho anfitrião, pedindo um café e já avisando que precisava de algo.
Samuca se prontificou a ajudar, até porque sabia que as perguntas lhe renderiam saber de coisas que outros não sabem e isso para um fofoqueiro conhecido, era algo que lhe causava comichões.
Após tomar o café, Praxedes tirou a foto do bolso e mostrou-a a ele, questionando sobre a pessoa que ele indicava, se lhe era familiar.
_ Deixe pegar meus óculos lhe digo com certeza
_ Chagas.
_ Quem?
_ Chagas, uma história triste.
Contou Samuca, que Chagas era o melhor amigo de Picalho, sempre estavam juntos, e Chagas havia se casado muito novo, e Picalho, sempre na esbórnia, convidava-o para as noitadas. Num dos convites aceito, na volta, se envolveram num acidente, onde morreram três pessoas no trevo de Queimada. Na época, o pai de Picalho, por ser muito influente, convenceu todos que o motorista era Chagas, o qual foi condenado, e embora Picalho não estava tranquilo com a situação, por ser Delegado novo, com uma carreira pela frente, silenciou-se. Chagas ao ser preso, não suportou a injustiça e enforcou-se na primeira semana de detenção.
_ Caramba. Nunca ouvi rumores sobre esta história.
_ Não é pra menos, o pai de Picalho, na época deu cabo de alguns faladores, então o assunto se tornou perigoso, e caiu no esquecimento.
_ Rapaz, que história regalada.
_ Pois é. Mas me diz uma coisa, o que isso tem a ver agora, porque queria saber quem era este?
Praxedes riu, bateu nas costas do amigo e lhe disse:
_ Depois, meu caro, depois.

PROCURANDO O NOVELO

Praxedes, após ler tudo que havia sobre o fatídico acidente, fez um levantamento da vida de Chagas, mas não havia registro de nada relevante. Sua companheira da época, porque não havia registrado o casamento, era conhecida por Lurdinha, moça que ele conheceu fora da cidade, quando trabalhou na linha férrea. Não havia registro de filhos, irmãos, e os pais já falecidos, ou seja, ele praticamente não existiu.
Naquela tarde, o diretor ligou para Praxedes e lhe deu um ultimato, três dias, para a solução do caso, e o mesmo tentou debater mas sem sucesso.
No outro dia, Praxedes pede licença ao Diretor para ausentar-se da cidade para seguir uma pista que envolvia o crime. O diretor quis saber, mas Praxedes, explicou que não era nada oficial, apenas conjecturas. Ele ficou o dia todo fora, retornando no finalzinho da tarde, e ao chegar a sua casa, Deco estava estacionado diante da mesma aguardando-lhe a chegada.
_ Deco, o que faz aqui?
_ Há quatro horas estou esperando você.
_ Porque?
_ Bartolomeu e Senhor Feitosa se pegaram no boteco, e Bartolomeu quase matou Feitosa, ele está na UTI, e os capangas de Feitosa mataram Bartolomeu.
_ Alguém sabe o que iniciou a briga?
_ Marisa.
No outro dia, Praxedes solicitou que intimassem Marisa, assim que fosse conveniente, pois se fazia necessário saber a versão dela.
A pressão aumentava conforme os dias iam se passando, Praxedes ainda não encontrava o fio, e isso jamais tinha acontecido em sua carreira. Sempre foi conhecido pelo faro apuradíssimo, por capturar uma mentira assim que fosse pronunciada, mas neste caso, nada. Seus instintos o levavam para outro lado, mas eram apenas conjecturas.
Chegado o último dia dado pelo Diretor, coincide com a chegada de Marisa à Delegacia. Marisa não era uma mulher comum, por onde passava homens e mulheres a seguiam com os olhos, era um belo espécime de ser humano, linda, cabelos, boca, olhar fulminante, muito bem trajada, discreta mas com muito “sex apeeal”. Entrou na sala de Praxedes, sentou-se diante dele, cruzou as pernas e disse:
_ Eis me aqui.
_ Bom dia Sra Marisa. Sei que o momento não é oportuno, mas preciso lhe fazer algumas perguntas.
Ela acenou com a cabeça e ele começou o interrogatório.
_ Vou direto ao ponto. Qual o seu grau de intimidade com o Dr Picalho?
_ Fomos amantes, mas eu havia terminado há algumas semanas.
_ Qual o motivo do rompimento?
_ Isso é relevante?
_ Vou refazer a questão?
_ A Senhora esteve com ele no dia do assassinato.
_ Não. Mas ele me ligou naquela tarde.
_ O que ele queria?
_ Sair comigo novamente, mas disse não, porque já estava a fim de uma outra pessoa.
_ Você verbalizou a Picalho, quem era a outra pessoa?
_ Sim. Queria que ele me deixasse em paz, então falei de Feitosa.
_ E qual foi a reação dele?
_ Disse que iria matá-lo, e a mim também, caso não reatasse com ele.
_ Sabe me dizer se Picalho e Feitosa se falaram neste dia.
_ Meia hora depois de falar com Picalho, Feitosa me ligou dizendo havia recebido uma ligação de Picalho ameaçando-o de morte.
_ Hum. Interessante.
_ Porque?
_ Feitosa esqueceu de comentar este detalhe comigo.
_ Sobre o incidente que vitimou seu marido, o que pode me dizer?
_ Eu queria me separar a muito tempo, mas todos sabem o quanto Bartolomeu era bronco e ciumento. No dia, eu disse a ele que havia me apaixonado por Feitosa, e que iria deixá-lo.
_ Nem terminei a frase, ele saiu feito louco de casa, tentei acompanhá-lo mais foi em vão.
_ Então, esta foi a última vez que viu seu marido com vida.
_ Sim.
_ Uma última pergunta. Porque envenenou Picalho?
Ela sorriu, e falou tranquilamente:
_ Sei que meu comportamento de mulher não é adequado, mas não sou assassina. Estou dispensada.
_ Sim, mas não saia da cidade.
Ela acenou e saiu.

UMA IDEIA, UMA SOLUÇÃO

Todos na cidade já faziam apostas sobre a autoria do crime, e Feitosa estava pagando 2 por 1, ou seja, todos acreditavam que ele havia apagado Picalho. Por mais que ele tivesse a motivação, como ele envenenaria o frasco, teria ele entrado sem ser visto, talvez um capanga, mas dentro da delegacia? Se perguntava Praxedes.
De costas para a porta, olhando o céu através da janela que deixava uma brisa reconfortante entrar, foi interrompido por Dona Leci.
_ Posso entrar seu Praxedes.
_ Claro. No que posso ajudá-la.
_ Encontrei seu carrinho, estava na sala da limpeza.
_ Ah, muito obrigado. Eu ganhei este carrinho de minha finada Mãe, quando tinha 12 anos.
_ Não sei como foi parar lá. Mas guarde-o com cuidado para não perdê-lo.
_ Sim senhora.
Praxedes chegou ao seu limite, a prazo dado pelo Diretor estava se esgotando, e ele cheio de conjecturas, resolveu sair para dar uma espairecida e tentar desvendar a trama.
Passadas algumas horas, Praxedes com sorriso estampado no rosto, ligou para o Diretor, e disse ter solucionado o caso.
O diretor quis saber de pronto mas ele fez questão de dizer pessoalmente. O Diretor não quis aceitar, mas devido à gravidade de todo acontecido, disse-lhe que desceria até a delegacia.
Praxedes pediu a Deco que reunissem todos os funcionários da delegacia na sala de reuniões pois a solução do crime exigiria sigilo de todos que trabalhavam no prédio.
Quando o Diretor chegou, estavam todos reunidos na sala, e uma cadeira estava reservada a ele. Sentou-se e foi logo dizendo que esperava a solução.
Praxedes então começou a explanar.
Logo que cheguei a Delegacia no dia do crime, fui interpelado por Deco dizendo sobre o acontecido
_ Se usasse o celular, não teria sido o último. Disse o Diretor.
_ Obrigado pelo conselho Senhor.
_ Após adentrar na sala, senti o cheiro de “Vick” no ar, e ao ver os lábios de Dr Picalho roxeados, quis me certificar do frasco, pois já suspeitava devido a mania de lubrificar os lábios, que era sabido de todos na delegacia.
_ Além de não encontrar, notei a falta de um porta-retratos, na prateleira, devido as marcas de poeira.
_ Acontece, que como Picalho era uma pessoa com muitos inimigos, isso tornava o caso de difícil solução. Lembrei que havia tirado uma foto com Picalho, mais o Prefeito, e O Zé Fotografo, ampliou a foto ao ponto de perceber todas as pessoas da foto.
_ Das doze presentes, seis já eram falecidas, três a muito haviam partido de Queimada e dois ainda moravam aqui e apenas um, eu não conhecia. Esta é a foto em questão, onde podem perceber a presença de Feitosa e Bartolomeu. Dois com motivos para executá-lo. Este último, alguém aqui sabe quem é?
_ Todos balançaram a cabeça negativamente.
_ Então fui ao Samuca, que além de reconhecê-lo como Chagas, ainda contou a história trágica do seu fim.
_ Meu pai me falou sobre este acontecido. Disse o Diretor.
_ Sim senhor. Chagas foi acusado injustamente de dirigir o veículo que matou três pessoas num acidente no trevo de Queimada. O verdadeiro motorista era Picalho, que por ser filho do Desembargador Picalho, foi inocentado, e todos foram pagos ou ameaçados para ficarem em silêncio. Chagas enforcou-se no terceiro dia de prisão, e a história caiu no esquecimento. Acontece que Chagas havia se “juntado” a uma moça chamada Lourdes Esteves, que fui investigar no dia que pedi licença ao Senhor para me ausentar, mas não encontrei nada. Estranhei o fato de não achá-la, e este fato me deixou “encafifado”.
_ Com tudo acontecendo tão rápido, tinha pouco tempo aprofundar minha investigação, então tive uma ideia, dada pela nossa assassina.
_ Uma mulher? Marisa? Perguntou o Diretor.
_ Não. Nossa assassina chama-se Lourdes Esteves Chagas, agora peguem as três iniciais e somem ao final um “i”, e saberão que envenenou Picalho.
_ Leci? Dona Leci? Disse Deco aos berros. Você enlouqueceu.
_ Não meu caro. Não é verdade Dona Leci?
_ Sim. Eu matei este desalmado, e mataria mais mil vezes se fosse necessário.
_ Mas como? Ela trabalha aqui há anos?
_ Sim. Ela precisava ser de confiança para não levantar suspeitas.
_ Como conseguiu o veneno, dona Leci? Perguntou Praxedes.
_ Tenho um sobrinho que é químico.
_ Entendo.
_ Como soube que fui eu?
_ Quando a interroguei, perguntei-a se havia notado algo diferente, e sabendo que apenas a senhora tinha a chave da sala, e coincidentemente foi a pessoa que teve acesso à cena do crime antes de todos, teve a oportunidade de pegar o frasco de “vick”, também a única coisa que ligaria a senhora, a Picalho, ou seja, o porta-retratos, e para atrapalhar minha investigação, passou um pouco de batom no pescoço e perfume na vítima. Naquele tumulto, ninguém perceberia alguém saindo com um porta-retratos, batom e perfume num balde de limpeza.
_ Tudo isso não me revelaria.
_ Sim. A Senhora cometeu o erro de detalhar meu comportamento todas as manhãs, isso demonstra uma pessoa observadora, que ao perguntar sobre algo diferente na sala, imediatamente a senhora teria me dito sobre o porta-retratos na parte central da sala.
_ Mesmo com isso, precisava ter certeza, então com muito medo, peguei meu carrinho que estimo tanto, que fica guardado em minha gaveta, já com a ideia de muitos não o ver, e coloquei-o no dia anterior na área de serviço, pois sabia que uma pessoa detalhista iria se lembrar. E para fechar minha investigação, comparei o tipo sanguíneo de Lourdes com o da senhora, através do cadastro dos funcionários.
_ Devo admitir que estou impressionado. Disse o Diretor.
_ Obrigado Senhor.
O diretor se levantou satisfeito como um pavão, estufou o peito e disse:
_ Chamem a imprensa.
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Atualizado em: Ter 3 Jul 2018

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