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O Bar do Agenor

De pé atrás do balcão, olhando para o infinito, ele parecia alheio ao movimento do bar. Na verdade acompanhava à distância
os aviões que se aproximavam e se afastavam do aeroporto. É assim que ele passa a maior parte do tempo.
- Ei Seu Agenor, liga a TV, hoje tem jogo da seleção! gritou um rapaz que dividia uma cerveja com dois amigos
numa mesa do canto do bar.
- Tá quebrada! ele resmungou, sem ao menos se virar para o cliente.
- Ah liga aí, Seu Agenor, hoje é dois do Neymar!! pediu um cliente de outra mesa.
- Eu já falei que essa merda não funciona, DEU PRA ENTENDER?!?!? repondeu rispidamente, levantando o tom da voz.
Os clientes se olharam, constrangidos, sem entender a grosseria do homem.
Mas os velhos frequentadores do bar sabiam o porquê da resposta atravessada.

O Bar do Agenor fica na periferia de Guarulhos, numa esquina movimentada da Vila Santa Emilia.
Conhecido de todos no bairro pela cerveja gelada todos os dias, faça chuva ou faça sol, sábados, domingos e
feriados, e pelo torresminho, sequinho, eleito pela clientela como o melhor da cidade.

Seu Agenor está sempre atrás do balcão, com um pano de prato que um dia foi branco, jogado no ombro direito.
Nas mãos um abridor de garrafas com a imagem de Nossa Senhora, preso por um barbante no passador da calça.
Dentro do bar 4 mesas de madeira manchadas de bebida e queimadas de cigarro, cada uma rodeada por 4 cadeiras
de plastico vermelhas. O chão é coberto por um piso cerâmico já bem gasto pelo uso. Nas paredes revestidas de azulejos
brancos meio amarelados, alguns pôsteres de propaganda de cerveja e de cigarro, um cartaz anunciando a quermesse de
uma igreja do bairro, e no alto, entre prateleiras cheias de cachaça e vinhos baratos, uma TV digital, coberta de poeira,
que nunca é ligada.

Numa ponta do balcão fica o caixa, cercado por estandes de acrílico recheados de cigarros, chicletes e balas.
Ao lado do caixa, numa estufa de vidro, repousam em guardanapos de papel encharcados de óleo, uns salgados pouco
confiaveis, coxinhas, esfihas, croquetes suspeitíssimos, garruchas assustadoras e um prato com os tão afamados torresmos.

Atrás do balcão uma pia com um suporte para copos e no canto, separado por uma divisória, fica a fritadeira, local
que os clientes apelidaram de "Caverna do Diabo".

Quem não conhece Seu Agenor e o vê assim hoje, quieto, amargo, de poucas palavras,
não imagina que era um sujeito alegre, simpático, brincalhão, que adorava contar piadas para os fregueses.
E ria mais que todos, antes mesmo da piada terminar, muitas vezes caía na gargalhada sem conseguir contar o final.

Mas o que aconteceu há mais ou menos um ano o transformou nessa pessoa que é hoje, fechada e triste.

Tudo aconteceu no verão de 2016. Numa quarta-feira, final de tarde, o bar estava cheio, todos tomando uma gelada,
que ninguem é de ferro, pra amenizar o calor que era insuportável. Na confusão do bar lotado, a música alta que saía de
um carro de portas abertas que estava estacionado em frente ao bar, se misturava com aquele vozerio onde todos falavam
ao mesmo tempo. Ninguem notou aquele rapaz tímido, calado, que tudo observava enquando tomava sua ceveja, na ponta
do balcåo, solitário.

E isso se repetiu nos dias seguintes. Chegava sempre no fim da tarde, pedia uma cerveja e um torresmo. Tomava
sozinho, quieto no seu canto, observando o movimento de entra e sai, a conversa, os brindes, as discussões que o álcool
alimenta, a vida do lugar.

Com o passar dos dias, foi se inserindo na clientela do bar, chegava e cumprimentava um ou outro e aos poucos foi se
tornando conhecido dos frequentadores mais assíduos. Já era chamado pelo nome, João, jogava truco com os novos amigos,
pagava rodada de cerveja pros mais chegados.

Muito simpático, bom de papo, tornou-se figura constante nas rodadas de fim de tarde.

Certo dia, tomando sua cerveja em pé no balcão, conversando com Seu Agenor, perguntou sobre a velha TV empoeirada na
prateleira.
- Ah, essa TV não tem mais jeito não, respondeu Seu Agenor. - Virou sucata. Não gasto nem mais um centavo nela.
Não faz 3 meses que veio do conserto! Disse irritado.
- Pois vou lhe trazer uma TV nova, disse o rapaz, enquanto Seu Agenor lavava alguns copos.
- Não vou comprar TV nova não! Nem precisa trazer!
- Mas não vai lhe custar nada Seu Agenor. Fica em nome de nossa amizade!
- Como assim?, retrucou Seu Agenor, desconfiado, sem parar de lavar os copos - O natal já passou, falou rindo.

O rapaz então lhe explicou que trabalhava no Aeroporto de Guarulhos, no setor de aduana, onde fiscalizava e despachava
mercadorias importadas. Disse-lhe que no depósito havia milhares e milhares de equipamentos encostados, dos mais
diversos tipos, muitos por importação ilegal, outros por problemas no desembaraço alfandegário, pendentes de pagamento
de taxas, etc.
Contou que existiam centenas de TVs novas, empilhadas e que nunca seriam retiradas. Prometeu trazer uma pro bar.

- Oh Deoclecio, o Joãozinho aqui tá dizendo que vai dar uma TV nova pro bar!! - E de graça!!!
A gargalhada foi geral.
- De graça? tambem quero uma , disse rindo Deoclecio.
- Me traz duas, gritou Zé Paulo, gargalhando.
- Pois aguardem, prometeu João, meio encabulado.

Tres dias depois, bar lotado, eis que surge João com uma TV tela plana de 32 polegadas na caixa, debaixo do braço. As
vozes foram se calando e o que se ouvia agora era um burburinho, todos se perguntando o que estava acontecendo.
João colocou a TV sobre o balcão e disse: - Taí Seu Agenor, promessa é dívida, e dívida se paga!!
Seu Agenor, boquiaberto, paralisado, olhava para a TV, olhava para para os clientes, Deoclecio, Ze Paulo, Toninho. Todos
incrédulos com a cena que viam.
- Como é, vamos instalar essa TV ou não? perguntou João, rindo ao ver a perplexidade de todos.

- Meu Deus do céu, Seu Agenor, não é que o homem trouxe mesmo?! Falou Deoclécio, sem tirar os olhos da TV.

- Mas vamos instalar é agora gente, quero ver essa beleza funcionando, completou Ze Paulo.

Todos se aglomeraram em torno do balcão pra ver a novidade. Enquanto uns davam palpites na instalação,
outros discutiam qual seria o melhor lugar, a melhor posição. Mesmo quem passava pela calçada sem nunca ter entrado,
ficou curioso com a confusão dentro do bar.
Alguem apareceu com uma escada e num instante a TV estava posicionada no lugar.
- Liga logo! alguem gritou.
Todos olhando Zé Paulo no alto da escada, verificando mais uma vez se tudo estava ligado corretamente.
Silencio total no bar. Não se ouvia nada, nenhum ruído. Dava pra sentir a tensão no ar.
- Vamos lá, vou ligar... falou Zé Paulo.
Assim que apareceu a imagem na tela, todos explodiram num grito em uníssono. Parecia um gol do Brasil em final de
Copa do Mundo. Os vizinhos saíram pra rua pra ver o que estava acontecendo.
- Que maravilha, seu Agenor!!! dizia um. Parece um cinema!!! comentava outro.
Seu Agenor estava maravilhado. Olhava fixamente a tela, perplexo, como se não estivesse acreditando no que via.
Virou-se para todos e gritou para alegria geral: - Uma rodada por conta da casa! Aí foi aquela festa, todos se
abraçavam como irmãos, numa confraternização que só um boteco pode proporcionar.
Depois daquela tarde, é claro que Joãozinho se transformou no herói local.
Era saudado por todos que o viam e até quem nunca tinha lhe dirigido a palavra, fazia questão de se aproximar
e e cumprimentá-lo como velhos amigos.
Alguns dias depois, João tomava sua cerveja no balcão, acompanhada do tradicional torresminho, quando Zé Paulo
se aproximou.
- Ô João, sabe, eu queria te pedir um favor. Meu moleque passou para o colegial esse ano, e eu tava pensando em
comprar um computador pra ele.
João ouvia atentamente, balançando a cabeca vez ou outra, enquanto mastigava um pedaço de torresmo.
- Tipo desses notebook sabe? Será que voce não consegue um mais barato lá no aeroporto? continuou Zé Paulo.
João bebeu lentamente o resto de cerveja do copo, como se estivesse pensando no que responder. Se aceitava ou
recusava o pedido do amigo. Depois de alguns instantes disse:
- Olha Zé, posso dar uma olhada sim.
Seu Agenor se aproximou e entrou na conversa:
- Então Joãozinho, eu tava pensando se você não consegue um também pro meu neto. Eu queria dar de aniversário
pra ele.
Vejo sim, mas voces sabem, lá é só em dinheiro. Não posso pagar em cheque, cartão, nada, só dinheiro.
- Tudo bem, concordaram prontamente.
- Vou ver o que consigo então e amanhã ou depois, falo o preço.
- Graaaaaande João!! Falou Zé Paulo feliz da vida, enquanto lhe dava um abraço apertado.
- Mas vou pedir um favor, continuou João, não comentem com o pessoal, porque todos vão querer pedir e eu não posso
trazer tanta coisa, entendem?
- Tá tranquilo Joãozinho, disse seu Agenor. - Fica entre nós.

Uma semana depois, João entra no bar e vai direto ao balcão. - Aquela gelada, seu Agenor!
Seu Agenor coloca uma cerveja e um copo no balcão. Abre a garrafa e enquanto enche o copo, pergunta discretamente
- E então, conseguiu a mercadoria?
- Claro que sim seu Agenor. O que não se consegue pros amigos, não é mesmo? E tomou um gole generoso de cerveja.
- Quanto foi? perguntou seu Agenor com ar preocupado.
- Cada um ficou em R$1000,00. Olha que por aí custa mais de R$2500,00 cada!
E entregou uma sacola preta de plástico que seu Agenor rapidamente colocou do lado de dentro do balcão, feliz
da vida.
No dia seguinte, assim que entrou no bar, seu Agenor acenou pedindo que ele se aproximasse.
Escuta João, o Miltinho, você conhece, aquele da prótese na perna. Ele ficou sabendo que você conseguiu os
os computadores. Eu sei que você pediu pra ficar só entre nós, mas eu queria te pedir que ouvisse o que ele
quer te falar.
- Tudo bem seu Agenor, cadê ele?
- Ô Miltinho, gritou seu Agenor, vem cá!
Miltinho era um rapaz franzino aparentando uns 20 anos de idade, que tinha perdido a perna esquerda num acidente de
moto, há tres anos. Diziam que era um atleta promissor que teve a carreira interrompida.
- Fala pra ele, Miltinho, disse seu Agenor.
Meio sem graca, contou que queria uma prótese igual áquela do atleta sul-africano que participou das
olimpíadas. Era seu sonho poder correr novamente.
- Olha Miltinho, eu nunca vi algo assim por lá. Mas vou me informar, perguntar se alguem já viu ou se tem como
conseguir prá você, disse João. - Mas não posso prometer nada, ok?
O rapaz agradeceu, meio desapontado, meio esperançoso com a resposta e continuou: - O Pedro também queria te
pedir se consegue um celular, João.
- Então João, o Felipe e o Mané também me pediram pra falar com você se não dá pra arrumar umas coisinhas pra
eles, emendou seu Agenor.
Meio assustado, depois de pensar um instante e aparentando certa contrariedade, João puxou seu Agenor no canto e disse:
- Vamos fazer o seguinte. O senhor anota num papel o que eles querem, e eu vejo lá o que consigo. Mas pelo amor de
Deus seu Agenor, só os mais chegados, senão vou acabar me complicando lá no aeroporto.
- Combinado então Joãozinho. Amanhã te entrego o papel, disse satisfeito enquanto João saía do bar meio carrancudo, sem
nem mesmo ter tomado o restante da garrafa.

No dia seguinte, assim que João entrou no bar, seu Agenor já veio em sua direção com um copo e uma cerveja gelada.
Abriu a garrafa e encheu o copo, na ponta do balcão onde sempre ele se acomodava.
Ele deu os primeiros goles de olhos fechados, sentindo o gelo que descia pela garganta seca.
- Maravilha, Seu Agenor. - Como vão as coisas?
- Tudo bem Joãozinho, disse enquanto atendia outros clientes. João saboreava seu torresmo quando seu Agenor se
aproximou.
- Anotei os pedidos da turma como me pediu, disse discretamente.
Meio apreensivo com o que iria ver, tomou mais um gole.
- Deixa eu ver a lista.
Constrangido, seu Agenor entregou-lhe uma folha grande, com anotações na frente e no verso.
- Meu Deus, o que é isso!? perguntou João com os olhos arregalados.
- Sabe como é né Joaozinho, um pede uma coisa, outro vem e pede outra. Quando vi, a folha estava cheia.
João corria os olhos pela folha incrédulo, subia, descia, virava o papel, desvirava.
Computador, Radio, perfume, Raquete de tenis, bicicleta, rifle, perna mecânica, carrinho de bebê, tenis,
brinquedo, roupa. Tinha de tudo na lista.
- Mas só traz o que der, viu? disse seu Agenor constrangido ao perceber o desconforto que causara.
João pegou o papel, dobrou ao meio, dobrou outra vez e colocou no bolso da camisa, calado.
Pegou a garrafa, encheu o copo novamente e tomou de uma so vez.
- Olha Seu Agenor, vou ver o que dá pra fazer, disse em voz baixa. - Mas não posso prometer que vou conseguir
tudo o que está nessa lista. Virou as costas e se foi, visivelmente incomodado, meio atordoado.

Depois de dias sem aparecer no bar, os frequentadores comentavam que ele não voltaria mais. Seu Agenor imaginava
que ele tivesse se assustado com a lista. Talvez tenha se irritado com o excesso de encomendas, pensou.
Ou então, quem sabe, ficado envergonhado por não poder atender a todos. O fato é que tinha sumido.
Numa Sexta-feira, final de tarde, bar lotado, eis que surge João.
Meio sem graça, foi direto ao balcão.
- Quem é vivo sempre aparece! Festejou Seu Agenor logo que o viu. Se aproximou e disse em voz baixa:
- Escuta João, vamos esquecer aquela lista, está bem? Já conversei com os rapazes, não precisa se preocupar
mais com aquilo, OK?
- Como assim Seu Agenor? Faz uma semana que estou atrás dessas encomendas!! E passou a relatar o
trabalho e a dificuldade que teve em encontrar os itens pedidos pelos amigos, como teve que falar com dezenas
de colegas e superiores no aeroporto, etc, etc, etc.
- Tá aqui a lista. O que consegui está com o preço anotado do lado. - Algumas coisas não teve jeito.
Seu Agenor leu a lista de cima abaixo, frente e verso. Olhou para o João e disse com um sorriso enorme:
- Voce conseguiu a perna mecânica...!!
- Foi o item mais caro, disse João. Tenho certeza que o Miltinho vai ficar maluco quando souber.
A notícia da lista se espalhou pelo bar como um rastilho de pólvora. Num segundo todos estavam querendo ver se seu
pedido ia ser atendido.
Seu Agenor ficou responsável por coletar o dinheiro de cada um e tambem de ceder o carro para que fossem buscar
as encomendas no aeroporto na semana seguinte.
Na terça-feira, dez horas da manhã, estavam todos prontos esperando João para irem ao aeroporto.
A Caravan 86 estava estacionada em frente ao bar. Seu Agenor estava no volante, com a porta aberta. Em pé, encostados
na parede do bar estavam Zé Paulo, Deoclecio e Miltinho, ansioso como nunca.
Assim que João foi avistado, Seu Agenor sinalizou para que ele tomasse o banco da frente. Os outros tres foram
no banco de tras.
Seu Agenor lhe entregou um envelope pardo. - Tá aqui Joãozinho, R$ 98.400,00.
João estendeu as mãos, repelindo o envelope. - Não Seu Agenor. O dinheiro fica com o senhor. O dinheiro não é
pra mim, é pra entregar para o responsável no aeroporto.
- Então vamos embora logo, gente! disse Miltinho irritado. E partiram.
Durante o trajeto a conversa não poderia ser outra que não as encomendas. Como carregariam, se iria caber tudo na
Caravan, pareciam crianças na véspera de Natal. Miltinho já se imaginava correndo com a nova perna e sua alegria
contagiava a todos.
Deixaram o carro no estacionamento e caminharam até o Terminal 2. Iam numa espécie de fila indiana, João à frente
indicando o caminho, Seu Agenor em seguida carregando o envelope. Logo atras vinha Deoclecio, seguido pelo Zé
Paulo e por último Miltinho, manquitolando num passo rápido pra acompanhar o grupo.
Ao se aproximarem de um grupo que parecia meio suspeito, Seu Agenor segurou o envelope junto do peito e retardou
o passo para que o grupo se juntasse mais.
Atravessaram todo o terminal 2 e chegaram na área de embarque.
- Esperem aqui, disse João, apontando umas cadeiras no saguão. - Vou falar com o Responsável.
Todos se sentaram e ficaram acompanhando atentamente enquanto João se dirigia até um funcionário do aeroporto.
Após trocar algumas palavras, o funcionário abriu a porta e ele entrou, fechando a porta atrás de si.
Seu Agenor estava tenso com o envelope de dinheiro nas mãos. Queria se livrar daquilo o mais rápido possível.
Todos estavam tensos.
Alguns minutos depois, a porta se abre e João aparece. Vem em direção aos quatro com uma cara já mais tranquila.
- Tudo certo!! Ele já autorizou nossa entrada na área de Carga e Descarga, disse. As encomendas já estão
separadas. Vou entregar o dinheiro e vamos pegar o carro pra carregar .
Seu Agenor lhe entregou o envelope com o dinheiro e se sentou novamente enquanto João conversou novamente com o
funcionário e passou pela porta.
Miltinho não conseguia ficar parado. Levantava, dava alguns passos e voltava a sentar-se.
- A perna mecânica vai ser a primeira coisa que vamos carregar, hein? dizia aos outros.
- Fica quieto, voce ja está enchendo com essa perna, disse Zé Paulo.
Quinze minutos tinham se passado. Pessoas entravam e saíam pela porta, mas nada do João.
Meia hora e se questionavam se alguma coisa tinha dado errado com as encomendas.
- Será que o valor está errado? perguntou Deoclecio.
- De jeito nenhum, eu contei 3 vezes, respondeu Seu Agenor irritado.
Conforme o tempo ia passando, discutiam se deveriam esperar ou ir até a sala, ver o que estava acontecendo.
Depois de uma hora, Zé Paulo perdeu a paciencia.
- Vou lá ver o que está acontecendo, disse levantando-se da cadeira num salto. Seu Agenor, de cabeça baixa,
olhando para o chão, nem respondeu.
Sentado onde estava, nem se deu ao trabalho de observar que Zé Paulo discutia com o funcionário. Depois de alguns
minutos voltou nervoso, xingando o funcionário que dizia não conhecer João e quando se aproximou dos tres
companheiros, viu que Seu Agenor e Deoclecio tentavam consolar Miltinho que chorava copiosamente. Foi então que
se deu conta que estavam sozinhos, abandonados. Não existiam encomendas, não existia dinheiro, nao existia João.
Tinham se passado 2 horas quando resolveram ir pra casa.
No caminho de volta, tristes e envergonhados, ficaram o tempo todo calados, olhando pela janela do carro, sem
coragem de encarar uns aos outros.
Depois de algumas semanas, passada a raiva e a vergonha, a história toda virou motivo de piada no bar e qualquer
referencia ao ocorrido terminava em gargalhada geral.
Menos para o Seu Agenor, que continua quieto e amargo. Nunca mais ligou a TV, nunca mais contou uma piada, nunca
mais riu.
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Atualizado em: Ter 10 Maio 2022

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