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CAPÍTULO IV – A RECUSA DO CHAMADO.

Tal como Starwish no início de sua prisão no batalhão vermelho, fui abandonado neste hospital e não tenho visto ninguém do mundo lá de fora, nenhum de meus amigos, nenhum… parente… apenas as pessoas da equipe médica ou da limpeza que passam pelos corredores a noite, quando as portas estão trancadas. Por ficar trancado e sozinho neste lugar, realmente acabei beirando a depressão por um tempo, e a única coisa que me manteve são, foi a grande amizade que surgiu entre mim e nada menos que a médica responsável por todo este corredor. Ela me ajudou, da mesma maneira que Júpiter deu forças a Starwish em meu primeiro livro e, assim como também, “o planeta de mesmo protege nossa Terra”. O nome da médica era Ágata e, diferente de todos os outros daqui, ela realmente se preocupava comigo mas… pensando bem, por que não o faria, considerando o que viu no dia em que cheguei, atado a uma cama?
Foi neste dia que me deparei com esta linda médica de óculos, que vinha fazer uma avaliação inicial de minha condição, seus cabelos compridos e ruivos, tão vermelhos quanto o sangue arrebataram minha atenção, seus olhos verdes muito expressivos encontraram os meus de tal forma que, por um instante, me perdi neles, pareciam ver dentro da minha alma, e o que demonstravam era uma grande pena e, ainda que tivesse um rosto bem mais jovem e que Ágata fosse muito mais baixa, ela era simplesmente tão parecida com aquela mulher, que cheguei a acreditar que se tratava dela e a questionar sobre aquele outro mundo nas conversas que tivemos depois, eu apenas percebia que não era ela, porque a mesma não conseguia responder as minhas perguntas. Nos tornamos bons amigos e conversávamos muito, todos os dias após seu expediente, por cerca de uma hora ou mais do lado de fora de meu quarto (cela), parece que, de algum jeito, esta médica conseguia permissão para que ficássemos no refeitório, no corredor ou em alguma das salas de estar, mesmo depois do horário de recolhimento. Ficamos tão próximos que, assim como no caso de meus dois personagens, todos ao redor supunham que existia algo mais, mesmo não havendo absolutamente nada, tampouco adiantaria para mim, esperar por outra coisa, eu, um “louco” e minha médica…
Quanto aos outros membros das equipes, tanto médicas como de limpeza, ou mesmo, da segurança, todos eles comentavam (o contrário), mas, apenas se escondiam da própria Ágata e, quando em minha presença apenas, simplesmente não se detinham e falavam como papagaios, era como se me julgassem incapaz de compreendê-los. Ela por sua vez não se interessava em nada do que se dizia dentro da instituição, exceto por minha história, a incrível história de uma viagem sobrenatural a um outro mundo, o que vez ou outra, a fazia duvidar, se podia ver isso em seus olhos enquanto me escutava, Ágata oscilava entre acreditar e em imaginar que eram apenas delírios de uma mente doente(!):
– Na verdade – me disse ela – não fosse por aquilo, jamais acreditaria em tua história Vaniel!
– Pois, falando como uma profissional, toda ela, me pareceria remeter a tua própria vida, como se não fosse nada além de uma criação mental, a fim de, aceitar as circunstâncias, pense bem:
– Até mesmo o destino que teve o tal Sunwish, tem uma grande semelhança ao que lhe ocorreu, e quanto à aquelas duas garotas que estiveram contigo naquele outro Mundo?
– Pareceriam a quaisquer outros médicos, como equivalentes à Amanda e Ana…
– Porém, sei muito bem o que vi quando chegou aqui, como eu poderia negar a criatura abissal que me atacou na ocasião, a qual, tu me salvara?
– Realmente aconteceu, um ser reptiliano lançou suas garras sobre mim e, em seguida, foi morto por ti diante de meus olhos, mesmo que ainda estivesse ainda atado a uma cama!
Vendo meu silêncio, Ágata prosseguiu:
– É uma pena que aqueles ao teu redor tenham tentado escondê-lo por causa dela (por tua história)!
– Apenas saber que é uma pena – respondi – não me ajuda a provar que não deveria estar aqui… – ela então, falou:
– Parte-me o coração ter de concordar… é estranho, em tua lauda constava apenas uma crise nervosa, e seguramente motivada pelo estresse de tua perda, e tudo isto estava devidamente informado, não existia nem sinal de problema real. Então, mesmo sendo acusado de loucura por teus familiares naquela reunião, não deveria ser motivo para tirá-lo da sociedade, é como se houvesse algo a mais por trás disto!
Não eram lembranças fáceis de se encarar, mas, ainda que tenha sido de frustração, este foi um dos raros momentos em que dei risada neste tormento, em seguida disse:
– É mais irônico… do que estranho, uma piada de mal gosto!
– Sempre falamos, isto é, entre meus amigos, sobre este tipo de histórias, de pessoas que, de fato, viram coisas tão incríveis que ninguém mais acreditou nelas e foram tratadas como loucas, é muito irônico que eu mesmo me encontre nesta situação…
E como que, atraído pelo assunto, um segurança passou pelo corredor, nos encarou com nítida expressão de desaprovação (isso, na verdade, era comum quando estava fora de meu quarto com ela), nós o ignoramos, mas logo depois, Ágata se aproximou de mim e perguntou em voz baixa:
– Existe mais alguém que conheça tua história, que saiba de tudo o que passou naquele mundo?
– Não – respondi – você é a primeira pessoa para quem contei tudo!
Ágata olhou ao redor, em seguida para os guardas que nos observavam e abaixou sua cabeça, acho que estava pensando com tristeza em alguma solução além do alcance, depois, me olhando nos olhos, disse:
– Não vejo maneira alguma de tirá-lo deste lugar, porém, não gostaria que mais alguém além de mim conhecesse tua história?
Gaguejei:
– A-acho que s-i… acho que sim… mas espere, além de você ninguém aqui ouviria minh…
E antes que eu pudesse terminar a frase, fui interrompido:
– Não me refiro a isto, a relatar aos outros médicos ou quem quer que seja que esteja nesta instituição, tenho uma ideia diferente: termine aquele livro que escrevera na adolescência, O REINO DE CRISTAL, e inclua tudo o que tens passado desde o início, de tua família até quando visitaste o Mundo Acima das Estrelas e também como salvou a todos!
– Mas como acha que eu faria isso estando preso aqui? – questionei incrédulo – não existe maneira, ninguém da diretoria permitiria, além disso, não tenho mais nada além das roupas do corpo e uma cama, quanto mais papel e caneta para escrever no escuro!
Parecendo muito animada, Ágata respondeu:
– É verdade que não seria permitido e é por isso que tudo será realizado em total segredo, apenas tu e eu saberemos!
– Poderia lhe arranjar um notebook, porém, teria de escondê-lo em teu quarto e só escrever durante a noite, quando não houvesse mais ninguém nos corredores e quando acabar, me encarrego de publicá-lo!
Aquela, sem dúvida, foi a melhor ideia que já ouvi na vida e, por um instante, vislumbrei um raio de esperança: quem sabe, este livro tivesse alguma repercussão que me fosse favorável, se muitas pessoas o lessem será que tentariam fazer algo por minha situação?
Entretanto, uma dúvida surgiu em seguida: como Ágata passaria com um aparelho desses, portões adentro?
– Se me pegarem, perder o emprego seria o mínimo a esperar! – disse ela.
– Acho que aqui é como a base do Oeste que me contaste, um lugar onde se esquecem de pessoas que não têm uma família de verdade!
Ela tinha razão, e agora, mais do que nunca, pude compreender exatamente o que Starwish sentiu em sua cela… E, como uma resposta a nosso plano, como se alguém nos tivesse ouvido, a segurança aumentou de repente, restrugindo a saída de todos os pacientes ainda mais e se tornou quase impossível que Ágata e eu nos falássemos da mesma maneira durante um bom tempo. Os guardas estavam sempre de olho em nossos passos e prontos a me conduzirem de volta ao quarto na primeira oportunidade. Nos meses seguintes apenas observamos a preocupação um do outro a distância e vimos, impotentes, nossos temores se concretizarem, pois Ágata, de certo dia em diante, simplesmente não apareceu mais, ficando em seu lugar um outro médico com sotaque estranho e, ao contrário da anterior, não dos demos muito bem logo de cara. Me senti tão sozinho e isolado como jamais havia sentido desde que a conheci, a única pessoa que tornava este lugar de depressão quase suportável havia desaparecido de meu mundo sem explicação alguma!
Mas apesar de não estar mais ali, havia um membro da limpeza que estava ciente das intenções de Ágata, me refiro a ideia de que escrevesse o presente livro e, ainda que nada tenha me revelado sobre o paradeiro de Ágata, foi ele quem conseguiu passar este computador pela segurança e trazê-lo até o meu quarto, além disso, também tem conseguido meus cadernos originais sobre Starwish e o Reino de Cristal, dessa forma pude transferi-las para este trabalho, assim como pôde ver no capítulo anterior. Ainda assim, há pouco consolo para mim neste sucesso e, no fim das contas, o que me restou dela foram apenas as lembranças… lembranças de nossas conversas sobre as coisas mais triviais possíveis, as vezes parece que ainda posso escutá-las em minha cabeça, posso ouvir Ágata me questionando como foi minha adolescência após o incidente com o boxe e minha súbita iluminação:
– …infelizmente, durante a adolescência me afastei de minha fé e recusei o chamado em favor dos amigos, garotas e esse tipo de coisa…
– Não se pode dizer que isso não seja normal Vaniel, entre aspas é claro, na verdade, antes de percebermos este erro e tentarmos buscar nossa individualidade, todos passamos por uma faze de rebeldia, em que queremos ser como o resto das pessoas e é assim que muitos caem em ciladas durante a vida.
– Ciladas? – perguntei – a que se refere falando assim?
– Eu não sei… – respondeu – minha mãe costumava falar assim, acho que se referia a coisas de adolescentes, do tipo que saem para festas e tudo mais, algo como o alcoolismo talvez…
Então eu disse:
– É uma sorte que, algo que jamais houve entre meus amigos, foram as bebidas, ou qualquer outra coisa semelhante ao que se refere.
– Se posso dizer que, nesta época recusei meu chamado, também posso dizer que o mesmo não me recusou, Ele apenas me manteve longe de caminhos mais extremos e aguardou pacientemente pelo momento em que retornaria.
– Então eramos apenas alguns garotos jogando videogame, e agradeço pelo fato de que sempre me pareceu estranho quando alguém dizia:
– “Quem não bebe, não tem história!”
– Pois, se pedíssemos para este tipo de pessoa contar uma destas histórias de que tanto se orgulham, o que ouvíamos era:
– “Bebi até vomitar nos pés da garota com quem estava…”
– “Fiquei tão bêbado que meus amigos tiveram que me carregar inconsciente de volta pra casa e quando cheguei lá, meus pais me deram uma baita de uma surra.”
– “Aquele dia me carregaram em uma carriola.”
– “Caí dentro da geladeira…”
– E mais um monte de besteiras do tipo!
Ágata respondeu:
– Compreendo o que queres… ahn…? …dizeres???
E fazendo uma careta diante da minha reação, falou novamente:
– Não ria de mim Vaniel, não é nada fácil tentar falar apenas desta forma, não se esqueça que estou fazendo isso por você Snow!
– Mas, fico feliz que tenha tido bons amigos, ainda assim, preciso perguntar:
– Se não bebera e nem nada do tipo, o que então fazia durante a adolescência?
– É verdade – falei – todos os outros jovens da nossa idade estavam muito preocupados em disputar quem conhecia mais palavrões e esse tipo de coisa, mas, eu mesmo, Batata, Ana e até Júlio, nos ocupávamos em debater assuntos como, teorias da conspiração, astronomia, fé, videogames ou artes marciais e, por isso, eramos tidos como estranhos pela maioria das pessoas, conhecidos da escola e esse tipo de gente.
– Provavelmente Vaniel, parecia a essas pessoas, que você e seus amigos não eram muito fãs de atividades físicas, que eram nerds, por isso os viam com tais olhos.
– Esse pensamento sempre me irritou Ágata mas agora, me parece algo bem engraçado, até patético.
– Patético? – questionou Ágata, então respondi:
– Em nossos debates não havia nada de tão intelectual assim mas, devido aos assuntos que discutíamos, era natural se ouvir palavras como: teoricamente, observável, supostamente, entre outras. Mas o que ocorria, era que, algumas pessoas, ao nos ouvir, começavam a nos chamar (de forma pejorativa) de “fãs de certos filmes/séries” e o mais engraçado de tudo isso, é que apenas eles conheciam os tais filmes que nos acusavam de sermos fãs, coisas que, mesmo sendo fãs de animações e videogames, jamais ouvimos falar.
– Além disso, também não ficávamos apenas no videogame e nos tais debates, também participávamos de treinos de artes marciais e até nos reuníamos regularmente para jogar basquete, isto é, algo parecido com o basquete…
– Como assim – perguntou ela, então lhe contei:
– Começou quando Batata montou, com a ajuda de todos, uma tabela num poste em frente a casa do vizinho, que aliás, odiava nossa presença ali já que a bola sempre caía em seu quintal.
– A tabela era bem rústica pois foi feita com um pedaço de madeira velha jogada nos fundos de minha casa a muito tempo, e pintada a mão pelo próprio Batata, que fez um trabalho excelente. Aplicou um fundo preto por toda a madeira, em seguida usando pinceis comuns desenhou o quadro de marcação com tinta branca, que ficou bastante torto, claro que, por não haver sido usado nenhum tipo de gabarito, se não aquele que outros chamariam de “zoiômetro”!
– Mas o verdadeiro charme da tabela, eram os símbolos de times americanos, também feitos por ele, tais como o Chicago Bulls, New Orleans Hornets, Los Angeles Lakers, e mais algum outro que não me vem mais a memória.
– Desenvolvemos uma rotina de nos reunir em todos os fins de semana para jogar, sempre por volta de uma ou duas da tarde e, muitas vezes, a meia-noite chegava e continuávamos lá, mesmo que estivéssemos nos arrastando pelo cansaço.
– Usávamos regras próprias, porque jogávamos só por diversão, então era muito comum que alguém colocasse a bola debaixo dos braços e saísse dando voltas pela rua tentando se desviar dos outros, antes de se posicionar bem debaixo da tabela e executar um arremesso, só para errar a sexta e a turma cair na risada diante da cena!
– Para jogar desta maneira – argumentou Ágata – imagino que vocês não eram muitos, teu amigo Batata obviamente estava presente, talvez também Júlio, e imagino que aquela garota completasse o time… estou certa?
– Está sim, doutora! – respondi – Mas Ana deixou de jogar depois de um tempo, então o quarto membro passou a ser esporádico, ou seja, qualquer outro conhecido trazido ao mero acaso, depois tivemos também outra garota que ficou um pouco no lugar de Ana mas logo saiu da turma também.
Ainda posso me lembrar claramente da expressão de deboche de Ágata, ao comentar:
– Que coisa. Sempre haviam garotas com VOCÊs…
Respondi:
– Batata dizia que “era mais… agradável, trombar com uma delas durante o jogo do que com outro garoto”!
– Mas era estranho porque, mesmo com a chance de “trombar com elas”, como dizia Batata, em quase todas as vezes quando Júlio recebia um passe, ele interrompia totalmente o jogo para perguntar com muita ênfase:
– “Vocês viram quem morreu”?
– Então Batata, com cara de raiva pelo jogo interrompido, respondia prontamente:
– “Quem Júlio”?
– E este replicava:
– “Johnny Ramone1”!
– Batata podia ser o piadista da turma, mas também se irritava com facilidade, principalmente com as perguntas de nosso outro amigo no meio do jogo, então respondia com rispidez:
– “Júlio, estou até gravando um CD de música sertaneja!”
– Na verdade, sempre achei que o Batata dizia esse tipo de coisa para afrontá-lo mas, aparentemente, ele inspirava mesmo esse desejo nas pessoas ao seu redor. Uma das garotas que jogaram conosco, realmente veio a gravar um CD de música sertaneja depois de conhecê-lo…
– Tratava-se da mesma Paula que Batata observava anos atrás, durante os treinos de boxe, e acho que foi apenas por não ter nada melhor para fazer que tenha se juntado a nós…
– TODAS ESTAS GAROTAS – comentou Ágata com um tom de voz muito estranho – VOCÊ namorou com ALGUMA delas?
– Na verdade não – falei – aquela era uma época mais simples, ainda mais se tratando de nossa turma, que conservava um pouco de inocência então, a maior parte de tudo isso, não passava de coisa de criança mesmo.
E sorrindo, ela comentou:
– Entendo, ainda era criança…
Depois de um momento de silêncio, acrescentou:
– Esta inocência de que fala, infelizmente foi perdida pelas gerações atuais e tua história poderia até soar risível, pois os jovens de agora estão mais preocupados com “outras coisas” e menos com a infância. A mente acaba sendo o que existe de mais poderoso em nós humanos, podendo exercer grande influência, até sobre o corpo de um indivíduo. Em meu TCC2, por exemplo, falei sobre o efeito placebo: foi constatado que, pessoas acometidas por doenças que venham a receber medicamentos falsos sem o conhecimento de sua ineficácia, tendem a apresentar resultados semelhantes, se não os mesmos, de alguém que esteja recebendo um tratamento real, tamanho é o poder da mente sobre o corpo que, apenas por acreditar, acaba gerando fisicamente os resultados pretendidos3.
– Aplicando este pensamento no aspecto moral da sociedade, notamos que cada geração tende a operar sob padrões mais baixos que a anterior, o que também reflete no desenvolvimento sexual dos jovens.
Respondi:
– Posso não ter feito um trabalho sobre isso como você, Ágata, mas fui testemunha disso que está me falando na prática: a maioria das garotas do tempo de minha adolescência apenas começavam a se desenvolverem bem próximo, ou até depois, dos dezoito anos enquanto que, hoje em dia, acontece muito mais cedo!
Ágata:
– A divulgação de conteúdos sexuais é grande demais e, por consequência, o desejo de iniciar uma vida sexual ativa, também aparece mais cedo se comparado as gerações anteriores como a tua ou a de teus pais por exemplo. Uma mente que deseja tal coisa estimula o corpo a se desenvolver antes para corresponder aos objetivos; existem diversos estudos realizados por todo o mundo que comprovam este fenômeno… …nos desviamos do assunto, Vaniel.
– E teu amigo, ele chegou a namorar com aquela moça que tanto o encantava?
– Ele nunca teve coragem de dizer qualquer coisa – respondi – apenas arrastou a timidez até que o óbvio aconteceu: a garota começou a se relacionar com outra pessoa. Ela foi a primeira, mas não a única, que Batata passou a se referir pelo apelido de Lilith4, de modo a expressar sua desaprovação por “ter sido enganado”, como costumava dizer e também, para evitar admitir a timidez, em vez disso, afirmava ter sido seu topete (esquisito) que à espantou.
– Qual a razão de manter tal topete então? – perguntou Ágata.
– Pela pouca estatura – falei – Batata o conservou durante anos para aparentar ser alguns centímetros mais alto, mas o efeito não era bem o esperado… ao menos, ele descontou sua raiva e se divertiu, quando contei o que houve quando saí com Paula, devia ter visto como ele riu.
– COMO ASSIM? – gritou Ágata estranhamente nesse momento – quer dizer que VOCÊ saiu com ela!?
– Não, apenas me expressei mal – respondi, enquanto observava a expressão estranha no rosto de Ágata, será que estava segurando o riso, devido ao que contei sobre o topete de meu amigo? – isso aconteceu quando eu já estava namorando com Amanda, aquela de quem lhe falei no outro dia (e, embora não tenha percebido na época, este foi o motivo de Ana ter se afastado de todos nós), então Lilith… digo… Paula, estava também namorando com um outro conhecido nosso dos jogos de basquete, foi aí que resolvemos sair todos juntos, para que pudéssemos pagar a conta em algum lugar um pouco melhor, pois éramos ainda adolescentes descapitalizados.
– E preciso fazer algum drama agora para dizer que, aquele foi um dia fatídico!
Ágata se inclinou levemente em minha direção para ouvir:
– As garotas haviam se produzido muito bem, minha namorada estava com um lindo vestido vermelho que cobria até os joelhos, mas que era justo o bastante para destacar sua silhueta, e seus cabelos estavam soltos até os ombros.
– Paula também apareceu igualmente bonita, vestida de preto, jeans e com sombra nos olhos.
– A essa altura, já havíamos definido em qual lanchonete iriamos, foi aí que a cena se tornou mais engraçada, quando o acompanhante da outra garota comentou durante o caminho que fizemos a pé:
– “Estou com tanta fome, que comeria um cavalo, como dizem nesses desenhos”!
– Quando chegamos no local não foi bem assim que aconteceu: escolhemos uma mesa dentre as muitas que fosse mais próxima da saída, de modo que podíamos ver o lado de fora, na verdade nem sei bem o porque disso, mas esta foi a única coisa normal que fizemos ali, porque depois, este suposto encontro se tornou um interminável filme de comédia, e de muito mal gosto!
– Toda a empolgação daquele rapaz desapareceu por completo, dando lugar a um silêncio constrangedor pois, quando finalmente a comida chegou, ele nem mesmo a tocou, o que nos pareceu muito estranho considerando as palavras ditas anteriormente. A situação era tal que nem mesmo contar uma piada ajudou…
– Achei que Batata fosse o piadista da turma!? – disse Ágata.
– Sim, ele era – respondi – e foi com o próprio que aprendi a piada que contei, mas que de nada adiantou naquele dia.
– Então por quê não me conta agora? – falou Ágata – quem sabe me faça rir, Vaniel.
Mesmo que registrar como era meu tempo com ela seja muito importante para mim, e que me ajude a manter viva a lembrança daquela que me ouviu tão atentamente, ainda assim, eu não gostaria de macular estes relatos reproduzindo as palavras de meu amigo.
– …
– Pelo seu silêncio doutora, vejo que não a achou engraçada… mas tudo bem, ela de nada adiantou daquela vez também, apenas evocou este mesmo silêncio!
– Seria melhor que continuasse contanto, o que aconteceu depois, Vaniel?
– Depois de mais um momento constrangedor – respondi – todos dispersaram seu olhar ao redor e permaneceram assim. Foi então que reparei no canto superior do balcão, na parede, onde uma garrafa do uísque Black Label, em seguida, para tentar quebrar o silêncio, comentei sem sequer me dar conta de que estava pensando em voz alta: “olha, o Black Label”!
– Então tudo foi de mal a pior, pois havia uma televisão ligada nos fundos, na mesma direção em que estive olhando, o que acabou confundindo-o, o rapaz achou que meu comentário tratava sobre a banda, Black Label Society5 que ouvíamos as vezes durante os jogos de basquete e se colocou totalmente desinquieto na cadeira querendo vê-la também. Logo a situação se transformou num verdadeiro show, não da Black Label mas do rapaz que fazia movimentos inacreditáveis para se colocar na direção da TV, o que fez também, que as garotas se levantassem rapidamente com a desculpa de irem ao banheiro, enquanto eu explicava todo o mal entendido.
– De repente, como que por alguma iluminação vinda dos céus, ele saltou da cadeira manifestando um olhar forte e decidido, caminhou porta afora e, em seguida, se pôs a gritar meu nome insistentemente:
– “Vaniel. Hei, Vaniel… ‘vem cá’, quero falar com você, Vaniel”!
– Precisei atender o pedido para que ele parasse de gritar meu nome, pois todos os olhos ao redor se voltavam para nós. Caminhei até e ele e perguntei o que queria de tão urgente.
– Creio que nessa hora o garçom já se preparava para correr em nossa direção, pois o mesmo nos acompanhou com um olhar fixo enquanto o rapaz dizia:
– “Quando formos embora, vamos tentar nos separar. Cada um vai pra um lado pra ficarmos sozinhos com as meninas”.
– Mal sabia ele que, no banheiro, uma situação contrária se desenrolava, pois Paula dizia veementemente à Amanda:
– “Quando formos embora, não vou sair de perto de vocês, não quero ficar sozinha com aquele garoto”!
– E foi o que aconteceu, ou seja, nada. Batata até tentou justificar o caso, comentando:
– “Será que eram os óculos que ele usava, que não à agradou”?
– Até poderia ser… quem sabe?
A médica ruiva sentada ao meu lado, no refeitório, riu ruidosamente da cena e, quando acabou, disse:
– É realmente uma história inacreditavelmente constrangedora, isto por só, já daria um bom livro, não acha?
– Esse livro teria muitas continuações – respondi – pois, algum tempo depois, Paula acabou saindo com Júlio e isso desagradou ainda mais o Batata do que na vez anterior, porém, se realmente havia alguém sem sorte nesta história, com certeza era a pobre garota!
– Mesmo longe de minha presença (pois, aparentemente, ela não percebeu os sinais que Júlio dava durante os jogos de basquete e, em sua mente, me culpava pelo que houve). Na verdade, as coisas correram exatamente iguais a como eram em nossos jogos, com todas as pausas dramáticas e questionamentos sobre grandes figuras do mundo do rock e, depois do primeiro encontra ela me disse:
– “Aquele outro amigo seu também só fala de rock, não consegui conversar sobre outro assunto com ele. Até disse que vou gravar um CD de música sertaneja, pra ver se se tocava e mudava de assunto, mas nada adiantou, nem aquela sua piada estranha”!
– Foi aí que tivemos outra baixa no time…
– Agora entendi – disse Ágata – o que quis dizer com “espantar garotas”… e não falaram mais com Paula?
Respondi:
– Não, ela se mudou mas, soubemos depois, que ela realmente estava realmente tentando gravar um CD de música sertaneja e parece que pensava em trocar seu sobrenome para algo como Hernandes, a fim de criar um nome artístico mais atraente!
O rosto perplexo de minha médica enquanto ouvia minhas histórias ainda está gravado em minha mente. Depois ela perguntou:
– E quanto ti Vaniel, teve alguma outra namorada além de Amanda?
– O que houve entre você e Ana?
– Ainda não cheguei no ponto da história em que falo sobre Ana, mas sim, antes de Amanda, namorei por um tempo com uma garota da escola, só que não durou muito.
– Por que terminaram? – perguntou ela.
– Bem, foi por culpa de outras garotas, também de minha sala… espere, não faça essa cara Ágata, não é o que está pensando, elas não brigaram por mim, nem tive nada com as mesmas!
– Elas apenas diziam que uma tal Yasmim seria um par melhor pra mim.
– E esta era mais bonita que tua namorada da época, por isso diziam tais coisas? – questionou Ágata.
– Não, na minha opinião, as duas eram bem bonitas, mas Yasmim era mais parecido comigo, tinha pele tão clara quanto a minha e cabelos loiros e lisos, o que na cabeça do resto delas, a fazia combinar perfeitamente com meus cabelos brancos, enquanto que minha namorada era morena, de pele quase negra, cabelos encaracolados e mais alta que eu, ou seja, eramos o oposto, mas não só na aparência, porque no jeito de ser, nós dois tínhamos algo em comum, já que dentro da sala de aula éramos metidos a sabe-tudo, entende?
– Claro que entendo – respondeu – em tuas histórias, está sempre tentando “dar uma de sábio” com todos até mesmo comigo acaba fazendo isto!
– Mas, sua namorada não gostava desta semelhança que tinha com a outra garota, por isto terminaram?
– Foi isso mesmo, ela acabou dando ouvidos as conversinhas das outras garotas e nos separamos, mas nunca tentei me aproximar de nenhuma delas, porque fiquei muito irritado com a situação, depois que acabamos a escola, eu apenas soube que ela fez uma péssima escolha de namorado…
– O que quer dizer com péssima escolha, Vaniel?
– Se me lembro bem, o nome dele era Victor, morava com sua avó e cuidava dela, mas por trás da aparência usava a aposentadoria da idosa para comprar substâncias… ahn… substâncias ilícitas, como dizem aqui, e ela acabou se viciando junto dele. Isso me entristeceu sabe?
– Na época não fiz nada para evitar que nos separássemos e as vezes penso que se tivesse feito de outra forma, ela não teria se envolvido com aquele rapaz!
– A maioria das pessoas não mudam por outras – falou Ágata – a não ser que elas mesmas queiram fazê-lo, não te culpe por isto Snow, é melhor dirigir tua atenção para garotas mais próximas de ti, a pessoa certa pode estar bem na tua fren…
– Infelizmente, sei que fui o responsável pelo que houve com ela, pensar diferente não mudará isso mas… do que está falando Ágata?
– Neste bloco não existe garota alguma, é uma ala apenas masculina, não vejo a quem pode estar se referindo próxima a mim!
– Se está dizendo Vaniel…

1 JOHNNY RAMONE – Guitarrista da banda americana Ramones, falecido em 15 de setembro de 2004, vitima de câncer de próstata.

2 TCC – Sigla para trabalho de conclusão de curso, um trabalho que se apresenta ao terminar um curso superior.

3Semelhante ao estudo a respeito do efeito placebo, houve também um experimento que buscava estudar os efeitos das orações de familiares sobre um paciente e, o que se constatou com isso é que, apesar de não se ter observado melhora no quadro da doença em si, aqueles que recebiam orações acabavam tendo menos complicações durante o tratamento.
4 LILITH – Segundo algumas tradições Judaicas, Lilith (ou Lilite) teria sido a primeira mulher de Adão, a qual, fora criada em igualdade a ele. Destaca-se para apoiar este pensamento:
 
Gênesis 1:27 - “Deus, portanto, criou os seres humanos à Sua imagem, à imagem de Deus os criou: macho e fêmea os criou.” (King James Atualizada 1999)
Mais tarde, ela questionou por que deveria se deitar “embaixo” de seu companheiro, já que ambos eram iguais. Insatisfeita, Lilith acaba fugindo e se casando com Samael, um dos anjos caídos. Tal união, teria dado origem aos Lilins, uma terrível raça (Nefilin) de demônios. Após a fuga três anjos foram mandados em seu encalço, entretanto não tiveram êxito na missão, depois disso, uma nova companheira chamada Eva foi criada para Adão. O nome Lilith está presente também na mitologia da Mesopotâmia e aparece (uma única vez) nas escrituras entretanto, algumas traduções optam por traduzir seu nome como: bruxa, espectro, sátiro ou lâmia, entre outros termos.
 
Isaías 34:14 - “…Lilite pousará ali, e achará lugar de repouso para si.” (João Ferreira de Almeida Atualizada)
Lilith também atribuída a classe de demônios chamada de Sucubus, um tipo de espírito que, quando assume uma forma feminina, seduz os homens durante seus sonhos. Era uma crença popular na idade média que, se um homem estivesse sorrindo durante o sono, deveria ser acordado imediatamente, pois estaria sendo seduzido por Lilith. Há relatos de que, nesta época, as pessoas usavam medalhões, contendo o nome dos anjos que a perseguiram, faziam isso como forma de proteção. Há ainda, a linha de pensamento que atribuí tal nome a filha de Caim, que era descrita como sendo ruiva.
5 BLACK LABEL SOCIETY – Banda americana criada em 1998 por Zakk Wylde, antigo guitarrista de Ozzy Osbourne.
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Atualizado em: Sex 25 Mar 2022

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