person_outline



search

O ESCARAVELHO SAGRADO

Em menos de três horas, Neseb chegou a Saqqara, a sul de Cairo. Saqqara é nome de um importante sítio arqueológico do Egito. Esse lugar foi uma necrópole da antiga cidade de Mênfis, uma das inúmeras capitais do antigo Egito. Neseb dirigiu-se apressado até lá, pois a equipe de arqueologia havia ligado e pedido que ele viesse rápido. Eles tinham encontrado alguma coisa interessante nas escavações; no mínimo, algo incomum. Neseb era um egiptólogo respeitado; especializado na simbologia da fauna da mitologia egípcia, e mais precisamente, em animais mumificados.
Neseb conhecia como ninguém o simbolismo oculto na devoção dedicada pelo antigo povo egípcio aos animais. Para os egípcios, essa fauna estava ligada tanto aos deuses como ao destino do povo. Serpentes, lagartos, chacais, crocodilos, falcões, etc. Cada um desses animais tinha um importante significado para os egípcios. Um exemplo são os gatos, tão venerados por essa cultura. Os antigos egípcios acreditavam que os gatos eram a reencarnação da deusa Bastet ou Bast, símbolo da harmonia e da proteção das casas e também dos templos. Uma deusa da fertilidade, da feminilidade. A mitologia egípcia animal, sempre fascinou Neseb, desde que ele era criança. Mas de todos os simbólicos animais do antigo Egito, o que mais atraiu os estudos do jovem Neseb, foi sem dúvidas, um inseto sagrado. O escaravelho.
Ao chegar à entrada da caverna, Mostafa, arqueólogo chefe das escavações, já esperava ansioso por Neseb. Os dois entraram rapidamente, se esgueirando por um corredor apertado, escuro e empoeirado. Mostafa foi à frente com a lanterna, guiando Neseb, que observava as paredes sem nenhuma inscrição, sem nenhum hieróglifo egípcio. No final do longo corredor, chegaram a uma grande câmara mortuária; mas lá, os arqueólogos não tinham encontrado múmias humanas; encontraram outra coisa. A “Grande Sala”, como foi batizada, estava repleta de animais mumificados.
O local era uma enorme tumba de quatro mil anos, onde eram depositados cuidadosamente, os animais sagrados. A câmara da “Grande Sala” estava abarrotada de diversos tipos de animais. Havia dezenas de gatos, inúmeros falcões, serpentes, cabras, chacais e até alguns crocodilos; todos mumificados. Neseb estava maravilhado com o que via. Porém, Mostafa lhe disse que o chamado não tinha sido por causa daquela câmara, mas sim, por conta do que tinham encontrado em uma câmara menor, nos fundos da “Grande Sala”.
Mostafa conduziu Neseb até o outro lado da “Grande Sala” e, apontou para uma pequena abertura na parede rochosa, quase que imperceptível. Neseb olhou para Mostafa, que fez sinal para que ele entrasse por aquele buraco. Entraram; agora com Neseb na frente, tomado pela empolgação. Era outra câmara; bem menor que a “Grande Sala”, mas parecia ser um local especialmente importante. O lugar estava praticamente vazio, não fosse por uma única e solitária caixa de pedra no centro da câmara. Neseb iluminou as paredes com sua lanterna, procurando por inscrições que revelassem informações sobre aquele local. Assim como nos corredores e na “Grande Sala”, não havia qualquer inscrição ou hieróglifos. Um mistério.
Neseb perguntou á Mostafa o que havia na caixa de pedra, no centro da câmara. Mostafa lhe disse que fosse até lá e visse ele mesmo. Neseb, não perdeu tempo, estava curioso. Ao se aproximar da caixa e iluminá-la com sua lanterna, ficou entusiasmado com o que viu. A caixa parecia uma pequena tumba, retangular e trazia gravado em sua tampa, três escaravelhos. Neseb arregalou os olhos, estava diante de uma descoberta inédita. Retirou cuidadosamente a pesada tampa do pequeno sarcófago e direcionou a luz da lanterna para dentro daquele antiguíssimo baú de pedra; dentro dele, haviam duzentos escaravelhos mumificados. Uma raridade sem preço no universo da arqueologia egípcia. Neseb estava em transe; não podia acreditar na honra, sorte e felicidade de testemunhar aquele achado.
Ele nomeou aquele local de “Câmara de Khepri”. Na mitologia egípcia, existe um deus com um escaravelho no lugar da cabeça. Um deus chamado Khepri (ou ainda: Khepra, Kheper, Khepera, Khepre, Khepere). Um dos principais deuses da mitologia egípcia, considerado um símbolo da vida eterna, da ressureição, uma manifestação do deus Rá na Terra. Na cultura do antigo Egito, o escaravelho, era um inseto sagrado e símbolo da vida, poder e proteção contra o mal. Representante do sol, da sabedoria divina e da eternidade.
O escaravelho é um besouro; um inseto da subfamília dos escarabeíneos, provenientes da região do Mediterrâneo. O escaravelho sagrado para os egípcios era (ou ainda é), o escaravelho-do-esterco, ou besouro rola-bosta, como é conhecido em alguns países. Segundo os entomologistas, o escaravelho tem um cérebro do tamanho de um grão de arroz. Esse inseto leva para sua toca, com precisão, o seu alimento, uma bola de excremento animal. Mesmo na escuridão da noite, ou longas distâncias, o escaravelho tem um ótimo senso de orientação e não erra o seu caminho. Se houver um obstáculo, ele o contorna e retoma a direção que estava seguindo. Um inseto extraordinário.
A bola de estrume carregada pelo escaravelho, além de servir de alimento, serve também para o inseto depositar os seus ovos. Dentro da bola, os ovos eclodem e as larvas se alimentam até se tornarem capazes de sair; como um novo escaravelho. Os egípcios observando isso relacionaram o inseto com a eternidade, com a ressurreição. Principalmente, porque é comum também o escaravelho depositar seus ovos dentro de outro escaravelho morto. Quando os antigos egípcios observaram escaravelhos vivos, saindo de dentro de escaravelhos mortos, tiveram a certeza da eternidade e da ressurreição. Um símbolo da vida que se renova eternamente, a partir de si mesma.
De acordo com a mitologia egípcia, observando o comportamento do escaravelho, os antigos egípcios associaram esse inseto a Khepri (escaravelho, em egípcio) e, sua função era mover o Sol, como o inseto, que move a bola de estrume. Acreditava-se que Khepri, uma representação do deus Sol (Rá) na Terra, era o responsável por mover todos os dias o Sol, “rolando” de leste para oeste, e assim como o escaravelho, restaurava o renascimento do Sol no dia seguinte.
Existem ainda, diversas outras interpretações simbólicas que o escaravelho pode ter na mitologia egípcia. Entre elas, o costume de usar amuletos que representassem o inseto. Quem usasse um amuleto ou joia de escaravelho, garantia sua permanência ou retorno a esse mundo. Também era comum colocar uma escultura de escaravelho no peito do morto, sobre o coração, para simbolicamente fazer o retorno através da ressurreição.
Ainda na “Câmara de Khepri”, Neseb estudava os duzentos escaravelhos mumificados, todos em perfeito estado de conservação. Para ele, sem dúvida, mais um tesouro encontrado da arqueologia egípcia. Neseb examinou com atenção as três gravuras de escaravelhos na tampa do pequeno sarcófago; fotografou, fazendo muitas anotações e documentando tudo que podia.
Somente a pesada tampa da caixa de pedra tinha sido removida, a caixa, não. Pediu ajuda á Mostafa e com muito esforço, conseguiram arrastar a pesadíssima caixa. E para a surpresa dos dois, havia um compartimento secreto debaixo da pequena tumba; um buraco no chão com alguma coisa enrolada em tecido egípcio antigo. Era um embrulho especial que tinha sido escondido ali.
Cuidadosamente, Neseb desenrolou o tecido e o que estava dentro do embrulho iluminou os rostos dele e de Mostafa. Era uma caixinha de ouro, com três pedras preciosas em formato de escaravelhos, como na tampa da caixa de pedra. Parecia e realmente era uma joia sagrada. Ao abrir a caixinha de ouro, Neseb ficou surpreso com o que viu dentro. Uma bolinha de esterco, antiga, envelhecida e ressecada por quatro mil anos. Interessante, uma caixinha de ouro para guardar uma bolinha seca de estrume e um pedacinho minúsculo de papiro com algo escrito.
Neseb traduziu com facilidade o que estava escrito em hieróglifo, no pequenino pedaço de papiro. A curta inscrição traduzida dizia: “A vida renasce nas águas do Nilo”. De início, aquela inscrição não fez muito sentido para Neseb e nem para Mostafa, um arqueólogo experiente. Se bem que ambos ainda estavam em estado de êxtase, pelas descobertas naquelas misteriosas câmaras de Saqqara. Como já estava tarde, e com a devida autorização de Mostafa, Neseb levou a caixinha de ouro com a bolinha de estrume seco para um estudo minucioso em casa; e mais todo o material de estudo coletado nas câmaras: “Grande Sala” e “Câmara de Khepri”.
Alguns dias depois, em casa, Neseb estava lendo artigos que talvez pudessem ajudar nos estudos relacionados aos duzentos escaravelhos mumificados encontrados e a caixinha de ouro com a bolinha de estrume seco. De repente, levou um grande susto. A caixinha de ouro, que estava sobre a sua escrivaninha, começou a vibrar e emitir uma espécie de zumbido que vinha de dentro dela. Neseb, meio ressabiado, pegou a caixinha de ouro e abriu a tampa bem devagar. Dentro da caixinha, onde antes havia somente a bolinha de estrume, também tinha agora um belíssimo escaravelho vivo, vivíssimo.
Era o forte inseto se debatendo e zunindo dentro da caixinha que a fez vibrar. Mas como pode isso? O lindo escaravelho saiu da caixinha de ouro e começou a desfilar calmamente pela escrivaninha de Neseb, passeando divinamente por cima dos livros, como se estudasse o lugar, procurando se orientar. Neseb entrou novamente “naquele” transe típico de um egiptólogo apaixonado pela mitologia egípcia.
Rapidamente edificou uma teoria sobre a origem daquele escaravelho. A inscrição egípcia do pequenino papiro lhe veio à cabeça: “A vida renasce nas águas do Nilo”. Neseb percebeu que ao retirar a caixinha de ouro com a bolinha de estrume seco de dentro da “Câmara de Khepri” e das profundezas do sítio arqueológico de Saqqara, submeteu o artefato, no caso a bolinha de estrume seco, a umidade do ambiente externo. A umidade relativa do ar.
Se pararmos para pensar, as águas do Nilo evaporam, e esse vapor circula no ar como umidade, por toda a região. Era isso que a inscrição queria dizer. A bolinha de estrume seco continha em seu interior os ovos de escaravelhos de quatro mil anos. Estavam em estado de dormência, de hibernação, esperando o momento de retornarem a vida, como fazem com perfeição os sagrados escaravelhos. A bolinha de estrume absorveu essa umidade do ambiente, se hidratou e a vida retomou seu natural desenvolvimento, fazendo germinar e eclodir ao menos um ovo de escaravelho.
De repente, o escaravelho que estava na escrivaninha voou pela janela, escolheu a direção que queria tomar e se foi. Neseb ficou observando, sentado. Ficou pensando como a mitologia egípcia era fascinante. O “deus Khepri” tinha ressuscitado bem diante dele, mostrando que a vida e a eternidade são uma realidade. Aquele escaravelho sagrado lhe mostrou a sabedoria divina, a riqueza e o poder do antigo Egito. Khepri, o escaravelho, voltou para sua jornada de nascer, viver, morrer e retornar no dia seguinte; como o Sol.
Pin It
Atualizado em: Qui 20 Maio 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222