person_outline



search

Cade Você

Na minha vida não conheci sujeito mais desastrado e sem sorte do que o Josué. Correm estórias que contam que sua mãe morava em um sitio, quando engravidou, e, no dia do nascimento do "J", teve que andar algumas léguas debaixo de chuva para conseguir chegar à casa da parteira mais próxima. O sofrimento não parou. A parteira havia caído do cavalo e estava com as duas mãos enfaixadas e não poderia aparar o rebento. Coitado do "J" . No auge do desespero, para amenizar a situação, a filha da aparadeira chegou e se propôs a aparar o "J"mesmo sem pratica. Pobre "J". Seu nascimento iria servir de experiência para a Nana da parteira. Nana da parteira, era o apelido da Sebastiana de Jesus, filha da Maria Parteira. Ufa! Conseguiu nascer! Pelo peso do rebento e pela inexperiência, Nana, ao aparar o nascido, deixou que este caísse e machucasse o joelho, criando um hematoma que o acompanhou a vida inteira e não iria permitir que mais tarde jogasse futebol, que foi uma das suas maiores paixões, além, é claro, daquela de roubar uvas na casa do seu  Nico .
Como vocês estão percebendo sua vida não foi fácil. Cresceu. Casou com Dona Palmira.Teve filhos. Há, esqueci de contar que era meio desligado. Talvez porque, ao correr do seu Nico, que o pegou em flagrante quando catava frutas no seu quintal, tenha caído de cabeça do muro que fora obrigado a pular. Bem, mas esta foi uma outra estória. Certa vez, já casado, depois de muito protelar, conseguiu alugar uma casa na praia para passar o final de semana. A esposa e os filhos pulavam de alegria. Pudera! Nunca tinham ido à praia. A Candinha já dissera:"vou tomar água do mar para ver se é mesmo salgada!". Imaginem só o problema com estas praias tão poluídas!. Comprou as passagens. Oito. Ele, a esposa, mais seis filhos. Não contei mas os cinco filhos eram o terror da vizinhança. Fizeram dona Palmira envelhecer precocemente. Estava com trinta e cinco anos e aparentava cinqüenta. O caçula era a Laurinha, menina doce e meiga, que era o xodó do "J". Xodó, porque nasceu depois que ele sofreu um acidente do trabalho, onde quase perdeu os testículos. A Laurinha era a prova de sua potencia, de sua masculinidade. Era sexta feira. Foram juntos, ele e a Laurinha, fazer compras para levar para a praia. A Laurinha de mãos dadas com o paizão. Estava tudo indo tão bem, que ninguém poderia esperar pelo que aconteceu. Já falei que era meio desligado e ao entrar no açougue para comprar o frango para a farofa do final de semana, a Laurinha ficou observando a assadeira de frangos. também chamada de T.V. de vira latas, que tem na maioria dos açougues. Escolheu, pediu pagou e ....foi embora!!!  Ao chegar em casa sua sogra pergunta pela Laurinha. Pasmem! Havia esquecido no açougue!!.
VoItou correndo e não conseguiu achar a Laurinha, só sei que, para encurtar a estória, não foi daquela vez que conseguiram ir à praia. Por sorte uma senhora que o conhecia, levou a menina e entregou-a para a sogra! Justo para a sogra! Coitado! Se estivesse vivo estaria ouvindo até hoje. Se estivesse porque, com a sua famigerada má sorte, bebeu uma garrafa de detergente que a Dona Palmira esquecera em cima da pia. Não é difícil imaginar o que aconteceu!. Pobre!. Vocês se lembram do temporal do começo do ano? Pois é!. Morreu naqueles dias. Que hora mais imprópria pra morrer! Como enterrar o infeliz? Ao abrir uma nesga de sol, no meio da tempestade, o Zé coveiro, que fora sutilmente subornado com duas garrafas de pinga, fez o serviço. Só sei dizer que o "J"virou folclore no bairro. A casa na qual moravam, até hoje esta vazia. A família não conseguiu vender e a abandonou! A Laurinha casou-se e já tem três filhos, sempre que pode acende uma velinha para o pai. O Zé coveiro, coitado, se engrassou com a viúva e até hoje maldiz a própria sorte de não ter podido sair do cemitério naquele temporal. Pois é! Cuida agora de dez filhos. E o "J"? Que a terra lhe seja leve e não lhe apronte mais alguma!!
Pin It
Atualizado em: Sáb 30 Maio 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222