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Coronavírus – por quem os sinos dobram (Descoberto o tocador de sinos)

“Quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade”
Ernest Hemingway

Olá, pessoal.
Colo, abaixo, amabilíssima cartinha do amigo Ernesto. (oito minutos de leitura. Leiam passando álcool nas mãos de minuto em minuto).
Oi, Eugênio,
Dispenso-me de lhe perguntar se está bem. Como todos daí, deve estar orando a fim de tanger o tal do coronavírus para as profundezas do inferno. Orando e torcendo pelos acertos das autoridades, como humano de boa-fé que você é. Todos e autoridades daí, vírgulas, já que uma das desumanas autoridades, o Sr. Jair, não está nem aí para o sofrimento dos conterrâneos. Releve a ruma de “aqui” e “aí” e a rima com o Jair, tá, Eugênio? Esta missiva, aliás, tem tudo a ver com o Sr. Jair. Sucede o seguinte, meu nobre.
Não aguento mais a ordem desses quatro aqui: escreva para o Eugênio, Ernesto, escreva para o Eugênio, Ernesto. Eles pensam, Tião, que o seu nome é Eugênio. Desconhecem que o trato por Eugênio em razão de sua intimidade com o adjetivo de som análogo. Bom, eles estão putos com esse Jair. Ser contra o distanciamento social é coisa de..., de..., de..., dizem, os olhos cuspindo fogo.
Sabe, Eugênio, estou de espinhaço sangrando e de ouças arrombadas só de ficar me mexendo com os dobrados dos sinos daí que ressoam aqui. Se o repique não bastasse, o Raul fica dizendo que não vai ficar aqui com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. O Bandeira, então, dá dó, Eugênio: a mesa não estava posta, Senhor. Vou-me embora pra Parságada. Lá não existe baderna. O cara não troca o disco, Eugênio. E o Drummond? Põe-se a recitar de mãos na cachola: tem uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tem uma pedra. Tem uma pedra. Tem. Uma pedra. Uma pedra. Uma pedra. E conclui aos gritos: REMOVAM-NA. Ah, Eugênio, sei que está confuso. Vou explicar tudo.
Veja, meu nobre”:
Chegou um médico brasileiro aqui e nos contou o que está acontecendo com vocês. Não acreditamos, Eugênio. Fomos bater aí. Saíamos da nave e já fomos vendo escabroso casal aos beijos caminhando pra gente. O medo e a angústia queriam nos abraçar, Eugênio. Vão pra lá, coisas-ruins, esbravejei, pedindo calma ao Drummond. Eu, o Raul, o Drummond e o Bandeira queríamos passar a coisa a limpo, entendeu, Eugênio? Descobrir, sobretudo, quem toca os sinos no Brasil. Pois não é, Eugênio, que o Raul descobriu. Transformou-se em reluzente revólver e flagrou o aloprado do Jair tocando o sino. Estava em êxtase, gente, denunciavam-no os beiços comprimidos e o risinho de canto de boca, disse-nos o Raul. “Imprecionante”, Eugênio. Bem, voltamos. Perplexos é pouco. Agora estamos isoladíssimos. Mas não perdemos os boletins do Mandetta nem que a vaca tussa a tosse seca.
Acontece, Eugênio, que o Raul é inquieto. Mental e fisicamente. Daí que o reprisado “removam-na” do Drummond fez o doidão querer pular pela janela do apartamento a fim de ir tirar satisfação com o Jair. Sabe como o Raul chama o Jair. Idiota? Imbecil? Irresponsável? Insano? Passou longe, Eugênio. Tá frio, meu nobre. Sabia, Eugênio, que o vocábulo velhaco qualifica também a criatura que odeia velho?
            Então. O Raul fez o maior escarcéu. Sorte dele foi o ágil Tancredo ter chegado na hora: puxou-o pelos fundilhos e fez tremendo sermão. A hora é de união. Chega de intolerância, Raul, concluiu o nevado. Nisso, Eugênio, o Tancredo lembrou-se de uma conversa que tive com ele a respeito de sua pessoa, e pediu que eu entrasse em contato com você. Relutei, mas a ladainha dos caras acabou prevalecendo, entendeu? Pra não alongar a conversa, Eugênio, leia a sugestão do Tancredo.
Preste atenção, Eugênio.
            Você vai sugerir ao Datena que promova um encontro virtual do Jair com os quatro últimos presidentes do Brasil. A ideia é que eles estimulem o distanciamento social da galera. Não são líderes? Ou não? Pedirão que o povo fique em casa e que deixe de brigar nas redes sociais. Até porque precisam de todo o mundo vivo para brigarem depois. Farão o pedido, rindo, como se irmãos fossem. Irmãos unidos, é evidente. O Tancredo, Eugênio, até rascunhou a introdução da fala de cada um.
O FHC iniciaria com “Assim não dá. Não é o mais do mesmo”. O Lula diria: “Estou convencido de que neste país”. A Dilma estabeleceria uma meta de distanciamento: “Quando atingirmos a meta, dobraremos a meta”. O Temer começaria assim: “Tem que manter isso, o isolamento, viu”?
É lógico que o Datena precisa pegar o “talkei” do Jair. Mas é provável que ele não tope e dê uma banana pro Datena. Nessa hipótese, peça ao Datena, Eugênio, que seja gentil e devolva o mimo presidencial com outro mimo. Sugestão: um rolo de papel higiênico. Daqueles que se desmancha com o olhar, de preferência.
            Então? Topa falar com o Datena? Precisamos salvar vidas, Eugênio.
            Eugênio, meu nobre, preciso lhe confidenciar uma coisinha. Tem um sujeito aqui, esquisitão todo, dizendo que uma coisa terrível vai derrubar o mundo. Vai deixar muita gente deprimida e matar do coração certas criaturas milionárias que só pensam naquilo. O agourento continuou.
O que vai derrubar o mundo não é vírus, meninos.
É o que, então, homem de Deus, perguntou o Raul.
O misterioso respondeu:
É segredo. Posso dizer apenas que a humanidade precisa bolar opções. Buscar a alternativa de coisas únicas. Tem que se prevenir. Foco na ciência, meninos.
Aí, Eugênio, ele tascou:
            Fora da natureza, meninos, o que foi feito pelo homem pelo homem pode ser desfeito. O protocolo está nos finalmentes. Tudo começará num ano com zero.
            O azoreta falou assim e sumiu. Escafedeu-se, Eugênio.
Misericórdia. Fiquei matutando. Pensei na internet. E tu, Eugênio?
            Abraços do amigo,
            Ernesto
Natal, abril 2020.
Dias de isolamento, confinamento e distanciamento. E de álcool. Não necessariamente gel e de 70.
            TC
            Falar em álcool, relevem os erros. Não revisei. Terminei a prosa a vara e a remo.
            Original no meu blogue: Pocilgadeouro.com.br
           
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Atualizado em: Qua 15 Abr 2020

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