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A rebelião das bruxas

Interior do Rio Grande do Sul. 1984. Enquanto o país sai às ruas pelas Diretas, um grupo de mulheres e homens vivem tranquilamente numa grande fazenda no interior do Rio Grande do Sul, sem preocupações políticas. Não participam de eleições, nem de movimentos sociais. Sequer saem da fazenda. As compras de que necessitam são feitas pelos empregados, que recebem as mensagens e ordens pelas crianças. Cultivam apenas suas Oliveiras e produzem azeite. Abastecem a Alemanha e a Irlanda com suas deliciosas azeitonas e óleos dos mais variados tipos. Não competem com o restante dos produtores locais, pois a maioria deles está voltado para o mercado interno, embora alguns deles ambicionem alargar suas vendas além das fronteiras.
   Não costumam se socializar com os outros moradores. Ao que tudo indica, a religião deles, uma espécie de seita egípcia, da qual se sabe pouco, proíbe o contato direto com pessoas que não pertençam à irmandade, exceto em situações de emergência ou de estrita necessidade, casos expressos no GUIA, uma espécie de livro de ensinamentos que guardam em sua biblioteca. Comunicam-se entre si no antigo dialeto egípcio, uma língua morta em todo o mundo, mas conservada por eles. As crianças não frequentam a escola convencional. Costumam seguir o modelo egípcio de educação, o tipo de ensino que os sacerdotes da realeza do antigo Egito recebiam, com algumas adaptações. Estudam a língua nacional, a língua dos ancestrais(o egípcio antigo) e de seus pais, a língua universal do momento, a língua dos países com quem transacionam, a matemática, a astronomia(com forte viés astrológico), a história dos povos e a filosofia de sua religião. Não saíam da fazenda. A principal função delas era se comunicar com os empregados. Esse costume tem rendido à fazenda sérios problemas, pois frequentemente os fiscais do governo fazem visitas por causa das denúncias de "exploração de menores". No entanto, sempre davam um jeito molhando a mão de quem as procuravam. Além das crianças, outro problema que a Fazenda enfrentava eram as acusações de "incesto", "infaticídio", "homicídio", "automutilação compulsória", "trabalho escravo", "lavagem cerebral", "genocídio", "satanismo", "sacrifício de humanos", "criação de animais de fauna estranha à nacional" e "tráfico internacional de animais silvestres" etc. Por inúmeras vezes, as irmãs enfrentaram os tribunais. A fazenda foi diversas vezes vistoriada pelas autoridades, mas nada de concreto foi encontrado que pudesse incriminá-las. Só receberam uma multa por causa dos crocodilos que criavam no lago. Eram conhecidas na cidade como as "BRANCAS", pois só usavam trajes brancos. Muitas pessoas achavam que eram membros(as) de uma conhecida seita brasileira: A CULTURA RACIONAL, por causa das vestes brancas que usavam.
   Na verdade, a fazenda não constituía uma única família estrito senso, mas um conjunto de famílias que viviam em comunhão, uma sociedade alternativa unida pela crença nos deuses egípcios.  Eram "AS FILHAS DE ÍSIS", uma antiga ordem religiosa liderada por mulheres, uma seita existente mesmo antes das primeiras pirâmides serem erguidas. O culto sobreviveu ao longo de milênios. Talvez seja o único culto verdadeiramente egípcio a ter sobrevivido. O grupo atual que reside no Brasil tem origem alemã. Vieram ao Brasil no começo do século XX, por causa da perseguição nazista. Eram vistas pelo regime como ciganas e apátridas(sem pátria, apáticas politicamente).
   No século XIX e começo do século XX, a Alemanha era rica em cultos pagãos. Mais de cem cultos eram observados só dentro daquele território. Embora diferentes, os membros desses cultos guardavam relativo contato como forma de se defender das acusações e perseguições que sofriam e de encontrar formas de esconder liturgias que tinham em comum, como a crucificação ansata, praticada por todos. A maioria dessas seitas era liderada por mulheres. Quase todas foram extintas pelos nazistas e cristãos, sobrando poucas , que se espalharam mundo afora nos anos vinte e trinta do século XX.
   Havia uma família que liderava a Fazenda com mão de ferro. A família Muller, cuja matriarca e líder suprema era conhecida como MADAME MORGANA. Jovem e bonita, e de personalidade forte, tinha um semblante que escancarava certa crueldade e frieza. Seu olhar era profundo, marcante e ameaçador. Havia assassinado suas duas prováveis sucessoras, e estava planejando matar a terceira para se perpetuar no poder até sua crucificação, que adiou por cinco vezes alterando os registros de seu nascimento e de seus familiares. A vida na fazenda era curta. Aos cinquenta anos de idade, fosse homem ou mulher, a pessoa era sacrificada na cruz ansata, afogada e devorada por crocodilos. O ritual constituía no seguinte: havia uma grande lago(na forma de uma cruz) no campo da fazenda. Nele, uma cruz ansata de aço reluzente era ativada eletronicamente para descer às águas e depois subir. Os membros do culto cercavam o lago e faziam uma oração ao deus SOBEK (O DEUS CROCODILO DO EGITO). Terminada a oração, dois homens com máscaras de crocodilo acompanham a pessoa num barco. Antes de ser amarrada na cruz, a pessoa, sendo homem ou mulher, tem sua última relação sexual com os dois mascarados. O esperma era guardado numa vasilha e entregue à líder da fazenda. Eles a amarram na cruz e a fazem sangrar com pequenos cortes por todo o corpo. Uma nova oração se iniciava enquanto a cruz lentamente desce às águas, verticalmente. Terminada a oração, um grande banquete com vinho e frutas é servido aos presentes. Três dias depois, eles retornam ao lago e fazem uma oração. Erguem a cruz do local. Ela volta sem ninguém. E fica estendida e brilhando, a esperar o próximo sacrifício. Além de sofrer a agonia do afogamento, o sacrificado(a) é devorado(a) por crocodilos-do-Nilo, que as famílias criam no lago. Não sobrava nada, nem sequer a unha da pessoa. O ritual é uma representação de quando o deus Sobek devorou o coração de Osíris, esposo de Ísis, a principal deusa da comunidade.
   Havia um rodízio na gerência dos negócios e dos rituais na Fazenda. Completados os trinta e cinco anos, a matriarca passaria o posto à família mais antiga. Geralmente a liderança era repassada a uma família cuja líder tinha em torno de 22 ou 23 anos. A matriarca da família, que entregava a liderança, passaria a compor o Conselho Decisório(a justiça da comunidade) da fazenda até os cinquenta anos de idade, quando então seria levada à Cruz.
   O problema é que os trinca e cinco anos de Morgana nunca chegavam. Ela contava com a ajuda e a cumplicidade de algumas famílias na fazenda, que, em troca, tinham uma vida dupla: viviam na fazenda, mas saiam de lá para namorar e consumir. Claro que não saiam de branco, mas com roupas comuns para não chamar a atenção. Esse tipo de prática, dependendo dos atenuantes e agravantes, poderia levar à morte. Havia duas penas para quem tinha uma vida dupla, segundo as regras do Conselho(quem de fato mandava na fazenda): seria tatuada com uma cruz ansata invertida no dorso da mão, o que faria com que ninguém falasse com ela durante dois anos. Seria isolada. Depois retornaria à vida social normalmente, porém nunca poderia fazer parte da liderança da Fazenda ou do Conselho. Nem ser sacrificada no lago. Seria morta aos cinquenta anos, como todos(as), porém de forma diferente: seria queimada numa cruz invertida no campo, sem cerimônias. Esse era o destino dos "tatuados(as)", como eram chamados na fazenda. Constituíam uma subcultura dentro do grupo. Mesmo após dois anos, tempo em que a socialização já era permitida, os tatuados(as) costumavam se comunicar apenas com seus familiares e com outros(as) tatuados(as). Participavam apenas dos rituais obrigatórios a todos e tinham suas próprias cerimônias, em que elegeram Hórus como deus principal. O Conselho permitia que se adorassem quaisquer deuses e fizessem celebrações específicas, desde que não atrapalhassem os eventos gerais e obrigatórios, e não entrassem em conflito com os princípios e as tarefas da fazenda.
   Algumas famílias estavam insatisfeitas com a gestão de Morgana. Eram as famílias sucessoras que aguardavam o momento de assumir a gestão da fazenda e dos rituais. Diversas petições e reclamações foram direcionadas ao Conselho pedindo uma investigação no inventário da família de Morgana. Os pedidos ainda estavam sob análise. Enquanto isso, Morgana reinava absolutamente.
- Mãe, ontem à noite vi uma das filhas da Madame Morgana saindo da fazenda escondida. E ela só retornou pela manhã.
- Como sabe disso? passou à noite acordada espiando a vida alheia?
- Mãe, olhe para essa mão? sou uma tatuada. Ontem foi um dos nossos festejos na Fazenda. "A coroação de Hórus". Ficamos próximos ao lago a noite inteira.
- Já disse para ficar longe daquele lago. Você acha que os crocodilos ficam apenas na água. Eles saem. E estão famintos. Faz semanas que não se alimentam de carne.
- Já sabemos, e eles estavam fora da água. Mas não se aproximaram por causa das fogueiras, disse a jovem.
- Pois tome cuidado, minha filha. Já basta carregar a maldição de ser uma tatuada. E agora só falta ficar sem algum membro por causa desses crocodilos. Já temos aleijados demais por aqui. Todos vítimas desses animais. O lago é sagrado. Só devemos nos aproximar dele no dias de sacrifício.
- Sim, o que faremos?  Posso denunciá-la?
- Não precisa, bobinha. A Madame Morgana está cheia de processos no Conselho. Talvez seja sacrificada no Campo. Ela acha que a comunidade é idiota. Todos sabem que ela adultera seus documentos. Basta o Conselho analisar os documentos que perceberão a fraude. Mas eles precisam de tempo. Mesmo assim, a Madame Morgana, embora não respeite nossas tradições e regras, é uma boa gestora nos negócios. Foi a melhor administradora que a fazenda já teve. Talvez o conselho a engula por isso. Contudo, cedo ou tarde, ela e sua família serão queimadas nos campos. Semana que vem é minha vez de ser levada ao lago. Já vivi o suficiente. Minha alma agora pertence a Ísis.
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Atualizado em: Qui 12 Jul 2018
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