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A casa

O luar refletia na fachada branca. Ele não sabia há quanto tempo estava ali, circulando em frente à casa, simplesmente não sabia. E era noite, era sempre noite. E sempre a lua cheia refletindo e sempre as paredes brancas. Brancas como a sua pele. Na verdade era como se estivesse ali desde sempre, mas também era como se não tivesse objetivo algum. Ou, antes, como se houvesse um objetivo desconhecido. Angustiosamente desconhecido. É isso: era como se andasse ao redor daquela casa tentando resgatar algum angustioso esquecimento. Não, a casa não era sua, não sabia que casa era aquela. Também não sabia onde ficava. Era uma rua escura, com grandes árvores que discursavam e gesticulavam. Passava gente de vez em quando. Quer dizer, parecia gente. Passavam vultos – às vezes silenciosos, às vezes sussurrantes, simplesmente passavam. E ele não sentia fome nem sede nem frio. Ele sentia um perfume. Havia um inebriante perfume mutante no ar, o tempo todo. Às vezes parecia jasmim, às vezes almíscar, às vezes rosas... sempre mudando e inebriando e o deixando confuso. De vez em quando, sentava junto à porta e ficava assim horas a fio, sem pensar em nada. Às vezes subia no muro e brincava com a própria sombra na parede ou deixava o pensamento se perder olhando para o céu.
E foi numa dessas subidas no muro que ele começou a reparar melhor nos vultos que passavam. E um determinado grupo que se aproximava foi ganhando forma mais nítida e cores e foi ficando mais parecido com gente de verdade. Então ele pulou e voltou para perto da porta porque sentia medo. E era um medo ainda maior porque subitamente pararam em frente à casa. Era uma trupe circense, de rostos pintados e trajes puídos. Mas estavam alegres, dançavam e rodavam e davam os braços e riam. Aos poucos ele foi perdendo o medo, porque eles pareciam familiares. Forçou sua memória tentando lembrar daquela dança ou daqueles trajes ou daqueles rostos. Lembrou de alguns jovens esfarrapados que esmolavam no centro da cidade em uma tarde de inverno. Lembrou de suas próprias mãos trêmulas que buscavam algumas moedas no bolso do casaco. E lembrou de um certo olhar, uns olhos que brilhavam um brilho de lua, como uns olhos de corvo, e que o deixaram curioso para sempre de um grande segredo, nunca nunca revelado...Correu até a calçada, mas já haviam seguido e estavam longe. Então voltou a perambular em frente à casa, seu reduto aromático e confusamente esquecido. Outros vieram depois, mas então já eram apenas vultos novamente e em nada o interessavam. Temia apenas que o viessem importunar, então se abaixava e prendia a respiração esperando que se fossem. 
Antes, quando seus passos eram livres, gostava ver a si mesmo como um grande aventureiro. E cruzava desertos pela madrugada e olhava suas pegadas e sentia orgulho delas porque ninguém jamais as veria. Agora estava só e com medo, junto àquela casa branca. E sentia saudades da trupe. Não apenas dos truques ou das palhaçadas ou dos malabarismos ou das acrobacias. Sentia saudade mesmo era daquela gente que passara pela frente da casa, tão alegre e tão indiferente à tudo. Sentia saudade daquela gente que não conhecia. Naquela casa que não era sua.
Permaneceu longo tempo assim, nessa estranha condição de guardião e prisioneiro. O pessoal do circo passou a povoar seu pensamento. Via o encantador de serpentes tocar sua flauta e via balançar seu cesto. Mas não via serpente alguma. E via os mágicos sisudos fazerem surgir as flores que tomaram emprestadas dos palhaços. E via os palhaços rirem rirem. E sentia falta de todos eles, como se fossem de certa forma a sua família. Esperava, assim, no seu reduto incompreensível, e se esgueirava quando passava alguém para ver se não era algum deles. Mas nunca era.
Uma hora, entretanto, um grande estalido se fez ouvir. A porta da casa se abriu. Ele entrou sem pestanejar e estava muito frio lá dentro. Realmente muito muito frio. Ficou parado no centro da sala, como se esperasse alguma coisa. De súbito, à sua frente abriu-se uma visão - estava no alto de uma colina e podia ver lá embaixo a tenda do circo estendida. Seu coração bateu forte e começou a ouvir um som indistinto, como uma espécie de música que viesse de muito longe. A tenda reluzente do circo continuou a fulgurar em sua retina enquanto ele lentamente congelava, ao som da música que já agora tornara-se vigorosa. Uma música misteriosa que tinha algo de silvo, algo de choro, algo de uivo.
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Atualizado em: Seg 18 Jun 2018
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