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Agenor

 (...) para ganhar tempo, desci no largo do Arouche, em frente ao mercado das flores. Subi a Rego Freitas. Precisava chegar na praça da República antes das três.

Cheguei às duas e meia, fui até o local combinado em frente a secretaria da educação e esperei. Dali a pouco o meu telefone tocou, era ele. O sequestrador.

Você esta atrasada! – ele disse num tom severo – haverá consequências. Você nunca mais verá o seu cãozinho!

Ele desligou eu olhei às horas, ainda era quinze para as três. Fiquei desesperada. Estava com o dinheiro que ele pedira para pagar o resgate. Cheguei antes da hora marcada... e agora isso? Senti que nunca mais veria o Agenor.

Eu sei o que aconteceu, na última hora o Agenor deve ter falado alguma coisa. Por algum motivo que eu não sei qual, ele deve ter falado... Tanto que eu avisei para ele... Ai Agenor!

Desculpe-me senhora, o Agenor é um cão, certo; – perguntou o detetive – quando a senhora diz que ele 'falou', a senhora quer dizer que...

Quero dizer que ele falou! O Agenor fala, ora essa...

Preciso reaver esse cão ou essa mulher vai acabar num hospício – pensou o detetive – Tudo bem minha senhora eu vou ver o que eu posso fazer. Vamos começar por essas chamadas telefônicas que o marginal fez para negociar com a senhora. Vamos ver se chegamos ao meliante...

***

(...) veja bem, eu via aquela senhora passeando aquele cãozinho todos os dias, ali próximo a praça Cornélia, havia muito amor envolvido, ela beijava o cão, abraçava. Conversava com a criatura. Pensei, por que não sequestrar esse cão. A dona com certeza me pagaria uma boa quantia para reaver o animal.

Não deu outra ela topou pagar três mil reais. Achei que era muito dinheiro precisava me precaver, essa senhora poderia estar armando uma para mim, hoje em dia não se pode confiar em ninguém...

Marquei um encontro na praça da República, como o senhor deve saber, para fazermos a troca. Eu lhe entregaria o 'saco de pulgas' e ela me daria o dinheiro. Ficamos em um ponto estratégico, o cão e eu, de onde poderíamos ver sem sermos vistos pela dona. Assim eu veria a atitude dela. Se estava acompanhada ou se tinha envolvido a polícia.

Ela chegou a praça sozinha, bem antes da hora marcada, caminhou até o local que indiquei e ficou esperando. Fiquei observando para ver se tinha alguém ou alguma coisa suspeita na praça... E foi ai que aconteceu. O danado do cão viu a dona e ai para o meu espanto, ele falou:

Mamãe! Mamãe! Mamãe!

Meu coração disparou. Eu tentava recobrar o espirito. Aquilo era um absurdo tão grande. Pensei que tinha imaginado. Então ele falou outra vez. Quando o choque passou eu só pensava no dinheiro que poderia ganhar com aquele cachorro. Imagina só, um cão que fala. Liguei para a velha e falei que não entregaria o cão e me mandei para a Liberdade, onde eu morava, louco para chegar em casa e conversar com aquele bicho.

E onde esta o cão agora? - perguntou o detetive.

Então doutor, quando estou descendo a Galvão Bueno o infeliz salta dos meus braços e corre rua abaixo, eu corri atrás dele, mas sabe como é, é muito difícil alcançar um cão que corre. Acompanhei o danado até onde deu. Ao chegar na Vergueiro o perdi de vista. Minha língua estava la nos pés. Parei na calçada ofegante. Depois que recuperei o folego, voltei até a República. Quem sabe o danado tinha ido atrás da dona? Debalde. Nunca mais vi aquela mina de ouro...

***

(...) qual é, doutor Toninho! Ta no ramo da investigação ainda? Paga uma cachaça ai vai!

Cai fora arroz-doce!

Eu notei o doutor falando de cães desaparecidos, ali com o China. Eu te conto uma boa sobre um cão desaparecido e você me paga uma pinga. Combinado?

Ei! China! da uma pinga aqui pro 'beija homem'!

Tem certeza, seu Toninho?

Pode servir. Serve duas, a minha com limão. Então, desembucha ai vai!

Então doutor Toninho, eu estava ali nas imediações do teatro municipal, vendo se arrumava um qualquer... quando eu chego na rua Peter eu vi uma coisa que me chamou a atenção, uns cartaz colado nos poste e na parede. Sabe aqueles perdeu-se... Então – fez uma pausa e virou o copo de pinga de uma vez direto na garganta – Tinha uma foto que era um desenho de uma dona, como aqueles retratos falado que a policia faz. Sabe como é? Então... tinha uns escrito também que dizia que o cão tinha perdido a dona e que havia recompensa para quem desse informações do paradeiro da velha... Até o nome do cão tinha no cartaz.

Fiquei encafifado com aquilo. Contei pr'um amigo meu, ele me falou que aquilo é arte, sabe. Que la na Inajá de Souza, onde ele mora, tem um cara que faz bolo de grama e junta pedras...

Qual o nome do cão, pingaiada?

Se eu não me engano é Agenor!

O que deu nele... O doutor Toninho! volta aqui homem de Deus! Da outra pinga ai vai China...

***

(...) quando descíamos por um rua, ele vacilou, pulei dos braços dele e corri, por um tempo ele conseguiu correr atrás de mim, mas quando eu peguei uma subidinha ele desistiu. Eu voltei à praça, na esperança de encontrar a 'mamãe', mas nunca encontrei. Acabei me enturmando com uns cães vadios que viviam ali na região mas eles tinham hábitos muito estranhos, então preferi ficar só. Até que um dia essa boa senhora me tirou da rua e me levou pra casa dela. Era bom mas eu vivia triste porque sentia muita falta da 'mamãe'. Um dia ela me perguntou porque eu andava tão triste e eu sem pensar respondi. Ela tomou um susto danado na hora mas acabou me ajudando a encontrar a 'mamãe'.

Eu fui lhe falando como era a minha dona e ela desenhou, fez os cartazes, colou nos postes...

Ela chegou Agenor! – disse o detetive interrompendo a narrativa.

O meu menino! Que saudade de você meu bichinho - disse a velha abraçando o Agenor - Foi a senhora que o achou... muito obrigada... muito obrigada detetive. Obrigado mesmo.

A alegria da dona só não era maior que a do cão. Esse balançava o rabo freneticamente. Lambia o rosto da dona. Tentou falar alguma coisa mas a emoção era tanta que só conseguiu ladrar.


*****







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Atualizado em: Qua 23 Mai 2018
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