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UM CASO

Era estudante do cursinho quando pôs seus olhos sobre ele pela primeira vez, enamorada. Chegava mais cedo para estar com ele, encostados no poste ou na lataria lateral do carro, em trocas de carinhos. Soube da fama dele e foi o que mais nele a atraiu desde os primeiros dias de contato. Era moço bonito, sempre quieto e quase sempre bem vestido. Nunca dava alteração. A origem de seu dinheiro, se é que o tinha, era um mistério e como todos os mistérios suscitava inúmeras hipóteses.

Os pais dela não aceitaram o namoro, fossem quais fossem as fontes dos recursos financeiros dele. Desejavam dotá-la de um diploma universitário e ao tempo certo entregá-la no altar a um bom marido, se possível portando ainda o selo de donzela de família. A ele, que segundo se presumia, vivia do jogo, não iriam tornar fácil corrompê-la.

Mas quem joga sempre fuma. E ele não fumava. Quem vive de jogo se apresenta aos carteados. Jamais alguém o havia visto em uma sala de jogatinas. O fato comprovado é que ele dançava magistralmente.

-- Vive das quengas! - Garantiu alguém certa ocasião à mãe dela, que se alvoroçou toda e muito se arrependeu num primeiro momento por permitir que ela continuasse frequentando o grêmio sem que o pai soubesse. Prestando mais atenção aos fotos, notou que a menina voltava do grêmio um tanto eufórica. Que depois de dançar com ele, se demorava a dormir. Debatia-se na cama, girava de um lado para outro, suava, certamente com ele que, em pensamentos, punha-lhe a coisa. E a mãe descobriu a partir daí que amigas encontravam sempre um modo de levá-la para ele em lugares insuspeitos.

Posto que ele carregava a fama de fendedor, a mãe aderiu aos novos tempos preparando-se para aparar as arestas na família e convencer o marido de que o mundo evolui para todos. Ela não seria diferente das outras sem acabar sendo descriminada pelas colegas.

Seguiu-se uma fase bastante complicada porque a mãe se precipitou passando ao pai suas suspeitas, e o pai, ao contrário do que previra a esposa, deu de ombros. A mãe foi parar no analista, o pai arrumou para a filha um bom partido e, sem necessidade de maiores argumentos além dos diretamente ligados a um testamento futuro chegou com a filha a bom termo. E a garota, sem deixar os estudos, se casou com outro. Casada e com todas as garantias, viu a cegonha glotorar bem antes que a mãe terminasse de pagar as prestações junto ao analista.

Mas o mundo gira como gira a roda gigante e muita gente cai do banco. O bom marido se perdeu na bebedeira, o pai morreu numa cama de hospital e a mãe se apegou ao neto. Vive a ensinar como educar alguém para uma vida feliz.

Quanto ao moço de má fama, continua famoso. Dizem dele que é um cirurgião de primeira grandeza e só não é milionário por ter escolhido a carreira política.
Outros dizem que não é bem assim.

Quem vai saber?
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Atualizado em: Sex 6 Mar 2009

Comentários  

#4 Abreu 12-08-2010 15:45
Quem souber, morre...
#3 Abreu 12-08-2010 15:45
Quem souber, morre...
#2 tania_martins 30-11-2009 22:45
Leitura deliciosa.
Parabéns!
#1 tania_martins 30-11-2009 22:45
Leitura deliciosa.
Parabéns!

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