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P01C03 Para criar caso com o Caso Schreber – Parte 1 – Fundamentos religiosos de as Memórias – Capítulo III – Metodologia em Schreber

Afirmar que Schreber apresentava uma obsessão da certeza ultrapassa o que está escrito em as Memórias, que contém como “não me atrevo a decidir se,” “eu não posso (dizer, afirmar, etc.)" e "presumivelmente;" Schreber afirma ainda não ter certeza inabalável de tudo o que relata, deixando claro que muito são apenas conjecturas e verossimilhança, ou "intuição e suposições" (f002, f022); Reconhece a não irrefutabilidade e o caráter de presunção e probabilidade de muito do que descreve, e, no capítulo XXI, não deseja convencer as pessoas, por argumentação racional, da verdade de suas "nomeadas delusões e alucinações.” De outro lado, não há elementos no texto que levem a se cogitar de fraude e não há indícios de artimanhas argumentativas de advogado; ao contrário, sente-se em Schreber uma sinceridade impar e até mesmo certa ingenuidade. 
As Memórias como monografia 
As Memórias seguem um modelo jurídico. Introduzem-se com a descrição do tema, as limitações a que está sujeito, pela notável falta de recursos para as anotações (f065). Dá o objetivo: tornar as coisas mais claras a si mesmo e por reconhecer ser necessário explicar-se às pessoas de seu convívio (f186). Almeja conseguir uma qualidade de vida melhor, a recuperação de sua cidadania e identidade, alta manicomial e o reconhecimento de não se tratar de um doente mental. Mais tarde, pelo potencial de imortalidade para si e para o texto, namora a possibilidade de ser estudado cientificamente. A seguir, nomeia o público a quem se destina, a natureza dos fenômenos sobre os quais versará e a dificuldade de expressá-los em linguagem corrente.
Não deixa indicadores diretos de onde se buscar a compreensão de seu discurso, contudo, escreve como quem julga será entendido pelas pessoas a que destina o texto. Fornece uma chave inicial para o desnudamento de seu discurso, que decodificada mostra seus termos apontar, de modo claro, para as fontes epistemológicas que “substratam” sua mente. Posiciona-se no campo religioso como quem duvida da verdade literal da fé cristã. Declara-se não muito afeito às coisas religiosas até o momento dos fenômenos que vivencia, mas “nossa” em “nossa religião positiva” (f003), vincula suas concepções a crenças partilhadas com outros. 
Não faz neologismos, usa as palavras –– procurando determinar a proveniência, se das vozes ou se de sua autoria (f030). Quando tem acesso a uma única bibliografia, pauta-se de acordo com regras nela aprendidas, modificando várias vezes seu ponto de vista para contê-lo dentro dos ensinamentos do autor. Em adição, demonstra ser capaz de mudar de opinião quanto às suas crenças. "Demonstra ser capaz" não como uma atitude consciente de influenciar o julgamento de seus juízes, incluindo os médicos alienistas, mas por demonstrar no fluxo de seu texto realmente ocorrer tal mudança. Em 1900, consegue discernir que muitas das suas visões ocorreram em sonho (f065), dando-se uma regra: passará a cuidar de só valorizar imagens em que tenha certeza de que estava acordado. Têm ciência de que as imagens de clareza fotográfica tornam difícil a quem as vivencie diferenciar o real do irreal, sonho, ao que se deve acrescentar seu estado mental sempre esteve alterado por substâncias químicas durante a internação.
Schreber demonstra lidar com hipóteses como instrumentos a serem usados até que se encontrem outros mais adequados (f135). Tem o cuidado de ligar um capítulo ao seguinte mediante um relato do que nele tratará. Antecipa um questionamento: por que não informou a seus médicos de todas essas coisas bem no início apresentando uma queixa (f132)? Responde com uma pergunta: teria tido o mais leve crédito? Conta conseguir, com sua destreza dialética argumentativa, levantar a dúvida se não há alguma verdade em suas delusões e alucinações (f412).
No que seria o item "bibliografia consultada,” Schreber (f063n) se vale apenas da memória pela indisponibilidade de seus livros e anotações anteriores à internação. Declara-se não afeito ao estudo da Filosofia e descreve suas leituras nos dez anos antes do início de sua doença: Haeckel, The History of Natural Creation; Caspari, Primordial History of Mankind; du Prel, Evolution of the Universe; Maedler, Astronomy; Carus Sterne, Beginning and End; Meyer's Journal Between Heaven and Earth; Neumayer, History of the Earth; Rancke, Man; ensaios filosóficos de Eduard von Hartmann, particular no periódico The Present. Termina com um duplo “etc. ” como a fornecer uma dimensão do que não diz.
Segue o método naturalista – observar, descrever, nomear, classificar e aplicar. [1] Seu objeto de estudo são os fenômenos – ciências naturais de fatos – fatos que vivencia no manicômio e em seu mundo interno. Segue preceitos de estudioso de religião solar: “é necessário reconhecer igualmente o lado material e o lado espiritual de cada fato,” [2] ou do Pampsiquismo de Fechner. [3,4] O método permite recuperação da Realidade por ele vivenciada, no plano abstrato, pelos nomes dados, e, no plano concreto, pelas descrições fornecidas. Schreber julga corretas as suas ideias-concepções e só é possível encontrar uma correspondência entre a Realidade por ele vivenciada e os símbolos linguísticos que usou para descrevê-la quando se respeita as definições dadas e descrições por ele fornecidas.
Dá o nome genérico de “sobrenaturais” aos fenômenos que vivencia, esclarecendo que, para relatá-los, usará de imagens e símiles (f002). “Aplica a um objeto o nome ou imagens de outro objeto com o qual tem semelhanças.” [5] Usa, portanto, simbologia, para descrever suas vivências do mundo interno e externo, fala por metáforas. As Memórias constituem um discurso obscuro por Schreber se deixar deslizar, guiado pelas palavras em seu fluxo de pensamento, de um campo semântico para outro – devendo ser questionado o motivo pelo qual assim o faz. Schreber se deixa, ainda, deslizar entre os planos simbólicos dos vários sistemas de ideias que aborda e do plano simbólico para o plano conceitual. Simbolista, reconhece o risco de suas descrições serem "talvez, somente aproximadamente corretas.” Descreve o que sente dos fenômenos por ele vivenciados e os nomeia e ao referir-se novamente ao vivenciado o faz pelo nome que a ele atribuído.  
Divide seu relato em “Introdução”; suas concepções religiosas com o título de Deus e Imortalidade; a acusação de assassinato de alma sob o título de Uma crise nos reinos de Deus? Assassinato de alma; relato de suas vivências pessoais entre a primeira e a segunda doença no capítulo IV; suas vivências no asilo de Flechsig do final do capítulo IV ao capítulo VIII; suas vivências no asilo de Pierson no capítulo VII; suas vivências no asilo de Weber a partir do capítulo IX e, a guisa de conclusões, faz as considerações finais no capitulo XXII. Acrescenta suplementos que funcionam como “errata” e “considerações finais.” Esta divisão permite datar cronologicamente os eventos que descreve, chamando a atenção o fato de que a ordem cronológica está respeitada mesmo quando os eventos estão descritos em trechos diferentes de as Memórias. 
Segue, em algum grau, também o modelo de escritos espiritualistas e esotéricos. Em 1890, os rosa-cruzes, “muito zelosos de seus segredos falam em enigmas e parábolas a maior parte das vezes.” [7] Os textos de Swedenborg são baseados em analogias e correspondências, processo extraído das Escrituras: “todos os ensinamentos da Escritura são formulados em parábolas, em linguagem de símiles, símbolos e correspondências.” [8] A linguagem da Cabala é metafórica. [9] Na Teosofia, Leadbeater procura "símiles que sejam familiares à mente do leitor" [10] e, em outro texto, vê a imperfeição do recurso e faz uso de comparações. [11] Annie Besant [12] e Rudolf Steiner [13] endossam a afirmativa de Max Heindel: “infelizmente nossa linguagem é inadequada para descrever condições dos reinos suprafísicos, portanto, tudo o que é dito deve ser tomado como símiles muito mais que como descrições acuradas.” [14] É indicativo de que Schreber está se dirigindo a pessoas entendidas em Rosacrucianismo, Misticismo, Cabala, Teosofia, e busca a compreensão das pessoas que lhe são próximas, o que permite pressupor a existência de uma forma comum de se comunicarem.
A introspecção como método 
Schreber usa o método introspectivo para descrever fenômenos que vivencia em seu mundo interno e no ambiente manicomial. Pode ser um uso meramente intuitivo, mas declara ter sido levado à reflexão pela “coação a pensar” (f231). A introspecção, pela psicologia metafísica, é a observação “atenta de si mesmo pela consciência,” sendo a alma “o sujeito e o objeto da observação,” como ensina Lahr, [5] em 1907. Historicamente a introspecção acompanha a “psicologia da alma” mesmo quando esta deixa de se conduzir pelo metafísico como instrumento de uma psicologia experimental, fenomenológica ou empírica.
Pela definição atual, a introspecção é a inspeção dos próprios pensamentos, sentimentos e estados mentais. É o método para se escrever memórias e confissões, que Lahr percebe nas versões teológicas de psicologia sistemática, como em Tomás de Aquino e Santo Agostinho em Confissões, e como vê em Descartes. Foi o método usado pelos associacionistas. [15] Em 1913, Ingenieros reconhece que "os estados de consciência só são acessíveis à consciência e devem ser estudados mediante a introspecção, intuitivamente.”  [16] Críticos do método introspectivo afirmam-no ser um processo retrospectivo, a observação não ser atual ao que a mente está fazendo e sim a posteriori, e, neste caso, recai-se no Rosacrucianismo, que ensina o processo de retrospecção, [17] que coincide com o exame de consciência do catolicismo.
Schreber usa “rememoração / recollection” 28 vezes e a análise destas ocorrências sugere que é posto a rememorar seu passado imediato, e o faz na introspecção / retrospecção, que pode ser em conjunto com o médico alienista, por uma forma de psicoterapia em curso, e, à noite, isolado, principalmente no período em que esteve no quarto escuro.
A introspecção na Cabala está descrita no Zohar, [18,19,20] do Misticismo judaico, como meditação, introspecção e controle dos sonhos, trazendo os sonhos lúcidos, de imagens vívidas com grande acurácia fotográfica, no dizer de Schreber, e novamente a introspecção como o caminho para consegui-los. A introspecção está no Budismo, [21] mas as Memórias não contêm uma sentença sequer que o atualize na mente do leitor. “Conheça a ti mesmo” é, também, máxima do Zoroastrismo, segundo estudos teosóficos. [22] Em Dhalla, Zaratustra procura o silêncio do isolamento solitário, em meditação, levando-o a encontrar seu Eu interno e, dentro da complexidade de sua pregação, deve-se primeiro por em ordem o mundo interno, por constante experiência introspectiva. [23] No Gnosticismo, é um método que permite ao homem conhecer-se e tornar-se mais claramente consciente da sua real situação no mundo. Deve-se assinalar a máxima maçônica: "é pela introspecção que a mente é guiada nos caminhos corretos.” [23a] "Conheça a ti mesmo" faz parte do rito de iniciação maçônica, no Primeiro Grau, relacionado ao Rosacrucianismo. [18,19,20,21,22,23,24,25,26]
A introspecção é método do Misticismo, seja de São Francisco ou Santa Tereza de Ávila, [27] seja de Eckhart, [28] ou do autor anônimo de Theologia Germanica. [29]
À época de Schreber enxerga-se na introspecção a causa de muitos sintomas, seja na melancolia, na hipocondria, na histeria, na neurastenia, nas neuroses pós-traumáticas, na paranoia e na demência precoce / esquizofrenia. Pode-se simplesmente aceitar que Schreber faz este tipo de introspecção patológica quando presta atenção excessiva às sensações corporais – nervos femininos – ou quando descreve a visão de órgãos internos, mas a Teosofia descreve esta visão de órgãos internos como autoscopia, [30] e alerta que “a introspecção mórbida deve ser evitada.” [31] Deve-se questionar se o voltar-se para si mesmo que Schreber faz não foi induzido pelas circunstâncias que vivencia, embora apresente características hipocondríacas: o ambiente manicomial induz a introspecção.
Pode-se concluir ser a introspecção de dois tipos, a inspeção dos próprios pensamentos, sentimentos e estados mentais, presente na psicologia-filosofia e necessária ao autoconhecimento na filosofia moral e nas sociedades esotéricas; e a observação das sensações corporais, esta não circunscrita apenas ao patológico no homem, pois presente no êxtase místico, que é volúpia em Schreber e na psicologia do Misticismo. [27] Schreber observar a si mesmo com preocupações morais sugere um comportamento de quem busca auto-aperfeiçoamento, devendo se questionar se se trata de um movimento interno ou se foi a ele conduzido do exterior.
Referências 
1 – PNH
2 – MELZA
3 – FLAD
4 – GTFLBL
5 – CLCF
6 – SKLFNC
7 – HJRRM
8 – SLADD
9 – AFKRPH
10 – CWLLAD
11 – CWLSS
12 – ABDA
13 – RSCRP
14 – MHRCC
15 – SPRS
16 – JIPPB
17 – MHPLA
18 – CLDB
19 – ROPTLKP
20 – ZGTG
21 – GTAA
22 – BPWZPW
23 – MNDHZ
23a – GWDKT
24 – LZEVRC
25 – ACMESM
26 – GWDKT
27 – JHLPRM
28 – EUMC3
29 – WRICM
30 – ABTNP
31 – CWLSGO
 
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Atualizado em: Seg 4 Jun 2018
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