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O encontro na cela

        Na noite em que quase perdeu a vida, Luiz Meneguel pedira uma segunda chance a Deus. Ainda atordoado com o que acabara de ocorrer, pressionou a mão contra o ferimento no abdômen enquanto caia prostrado entre as latas de lixo do lado de fora do bar. Vendo sua vida se esvair na poça de sangue que se acumulava no chão, Luiz se conformava. Provavelmente a morte na sarjeta seria melhor do que o que o esperava pelo crime de que certamente seria condenado. O homem, que gostava da sua vida como um experiente marceneiro — embora não tivesse nenhum luxo também não amargava grandes sofrimentos —, tentou levantar a cabeça para que a última imagem que visse fosse das estrelas do céu noturno, em vez dos ratos que passavam a sua frente. No entanto, sua visão turva apenas o permitiu fitar o bosque que começava a alguns metros dali, ao final da rua. De repente, o homem foi preenchido por uma vontade de lutar por sua vida que só podia ser vinda dos céus. Afinal, Luiz sabia que era inocente. Deus também sabia. E Ele o ajudaria a escapar daquela situação.
        Enquanto se arrastava debilmente tentando alcançar o bosque que o escondesse dos guardas que já deviam se encaminhar ao local do ocorrido, sem pensar no que faria em seguida, Luiz ouviu os passos que se acercavam dele como uma sentença. Quando tentaram fazê-lo se levantar, uma dor excruciante atingiu seu abdômen, mas Luiz não tinha mais forças nem para gritar. O último pensamento que lhe passou pela mente foi a esperança de que a hemorragia do ferimento o levasse antes dos guardas. Não percebeu o momento em que perdeu os sentidos.
        Por um tempo que não conseguiria precisar, possivelmente o que foi mais de um dia, teve breves momentos de superficial consciência. Quando novamente tomou clareza do mundo ao seu redor, este estava reduzido a uma cela. Achou-se deitado no chão duro e úmido da prisão na qual nunca tinha posto os pés antes. A lânguida luz de uma lamparina atravessava por entre as grossas barras de ferro que o mantinha separado do mundo e incidia sobre as escuras e estreitas paredes da pequena cela, conferindo um ar ainda mais asfixiante ao local.
        Tentou sentar-se. Inútil. Estava muito fraco e a dor do ferimento ainda era grande. Passou o resto da noite oscilando entre breves momentos de sono e aflitiva lucidez. Na manhã seguinte, sentia-se ligeiramente melhor, apesar de ter sido deixado à própria sorte sem nenhum atendimento médico. Meio pão seco e meio copo d'água é o que recebera, embora ainda não tivesse tido apetite para usufruir da refeição de qualquer forma. Os ratos, esses sim, fizeram proveito. Meu Deus, se me deixou viver é porque não vai me deixar desamparado. Conseguiu sentar-se custosamente. Examinou pela primeira vez a ferida, tinha o aspecto agoniante. Deixou a cabeça encostar na parede, a suave luz da manhã que entrava pelas grades da pequena janela do cubículo não fazia a cela parecer muito menos escura que na noite anterior. Nesse momento, escutou o barulho de uma porta pesada se abrindo.
        — Então você sobreviveu — disse a voz se dirigindo a Luiz — Pena que Bernardo não teve a mesma sorte.
        Luiz demorou um segundo para reconhecer o homem de cabelos e barba branca que falava com ele do outro lado das grades.
        — Afonso? Você está aqui? — surpreendeu-se Luiz — Bernardo morreu mesmo? — As perguntas saíram em meio a uma pontada de dor na barriga.
        ­— Sim, morreu agonizando no chão enquanto você fugia.
        Luiz baixou a cabeça.
        — Como você está? — Afonso analisou o aspecto moribundo do preso, extremamente pálido, o olhar vago, mal se aguentava. Quase sentiu pena.
        — Me feri na confusão que teve depois do... do que aconteceu.
        ­— Quis vir vê-lo antes que parta.
        — Partir?
        — Creio que é possível que você seja exilado. Se sobreviver — observou.
        Luiz ergueu a cabeça para encarar o homem, era necessário um pouco de esforço para que as palavras se juntassem em frases com sentido em sua mente depois de os ouvidos as captarem, como quando se está quase adormecendo.
       O exílio. O banimento. A expurgação. Bom, pelo menos é melhor que ser executado. Não é? Ponderou o marceneiro. Ele podia ter cobrado a mais de um cliente ou outro, para os quais julgava que não fosse fazer falta, é verdade. Podia ter cometido pequenas desonestidades socialmente condenáveis durante a vida, mas não achava que merecesse morrer.
       Parecia que Deus, a sorte, ou o acaso, tinha possibilitado ao pobre marceneiro a segunda chance pela qual clamara.
       — Não! — disse Luiz, colocando a mão sobre a ferida — Espera! Você também estava lá naquela noite. Pode dizer para a polícia que eu não tenho culpa! Fala que você estava do meu lado e que não foi da minha arma que saiu o tiro que matou Bernardo!
      — Não farei isso, Luiz — respondeu Afonso rispidamente.
      — Não? Por que não?
      — Não darei falso testemunho.
      — Do que está falando? Você sabe que eu não atirei, não sabe? — Sentindo a ansiedade tomar conta de seu corpo, Luiz quis se levantar para defender com veemência sua honestidade, mas a dor o impedia.
      — Então quem foi? — perguntou o velho agarrando as barras da grade, cobrando a resposta. — Você apontou a arma para Bernardo, ao que ele tomou um tiro. Qual o mistério?
      — Eu não sei quem foi, mas a polícia precisa investigar para que o verdadeiro culpado pague — disse Luiz, projetando o corpo para frente na ânsia de argumentar sua inocência, o que lhe causou uma grande dor, o fazendo se curvar. Respirou fundo. — Bernardo e eu nos desentendemos, ele me afrontou, me insultou. Eu estava com raiva, puxei o revolver e apontei para ele, mas não disferi o tiro. A bala que o atingiu veio de outra arma, estou certo disso.
      — O que eu sei é o que eu vi — disse Afonso, enfatizando a última palavra. — E é o que direi aos que me perguntarem.
      — Pelo amor de Deus, eu não matei ninguém! — implorou Luiz, ignorando o ferimento que começava a latejar ­— Somos vizinhos há quantos anos, Afonso? Você sabe que eu não cometeria um ato irracional desses. — precisou fazer uma pausa — Outras pessoas se envolveram na briga, foi uma confusão. O tiro veio de alguém que estava atrás de mim, tenha sido acidental, ou tenham se aproveitado do momento. O Bernardo não era alguém agradável, eu não era o único com quem ele encrencava.
       — Eu já dei o meu testemunho ao delegado, Luiz. Rogue para que Deus perdoe seu grave pecado — E deixou o preso em sua cela.
       — Eu não tive culpa. Outra pessoa matou Bernardo e me incriminou — disse Luiz para si mesmo, sem toda a certeza que tinha até a noite anterior.
        A visita do antigo vizinho levantara a dúvida no fundo da alma do homem. Passou o resto do dia revivendo o momento fatídico. Naquela noite, após uma inaceitável injuria de Bernardo, sacou a arma e a apontou para o peito do adversário. O fez no impulso, tomado pela raiva, mas não tinha a intensão de, de fato, atirar.
        Ou será que atirei? A dúvida o atingiu. A cela a cada minuto mais claustrofóbica, mais aterradora, mais sepulcral. Deixou a incerteza preenchê-lo. Poderia ser afinal que tivesse disparado acidentalmente?
        O eco do estupido ainda reverberava em seus ouvidos quando deixou o recinto, estava confuso e bêbado. Repassava o momento na mente e se via a beira da lembrança, sem ser capaz, no fim, de lembrar. A memória nem sempre é confiável, sabia ele, tende a nos enganar se estamos sugestionados. Ora tinha a impressão de sentir o dedo puxando o gatilho, ora achava que sequer o dedo estava em preparo.
        O espírito do homem estava absorto em um único pensamento, e quanto mais a ideia lhe oprimia, mais a cela em que estava parecia opressiva. Poderá Deus em sua infinita misericórdia perdoar tamanho pecado? O pensamento lhe despertava o mais profundo temor.
        E se deixava dominar pela angústia, em muito instigada pela lúgubre cela que o invadia de um torturante sentimento claustrofóbico. A febre aumentava, o suor frio escorria de seus poros sem cessar e os tremores eram terríveis. Em meio às contorções convulsivas de seu espírito agonizante, pedia perdão às paredes que assistiam ao lastimável espetáculo. E que o guardariam pela eternidade.

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Atualizado em: Qua 21 Jul 2021

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