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Entre o amor e o eu

Pediram-me que eu escrevesse do amor; quem pediu? – eu pedi. Pediram-me os textos alheios, da qual me alimento sorrateiramente, na onde encontro-te escondido onde minha covardia não chega. Tomo emprestado, roubo; mas nada se faz suficiente. Pediram-me que escrevesse, os espaços de extremo existir – onde eu me permito ser, debilmente, numa fragilidade que consome e mastiga com seus dentes de leite –. Os espaços pediram-me. Espaços de pura seiva, entre a terrível angústia e o repentino ecstasy a que me obrigas sempre desprevenida.
O amor me assusta e é por isso que não ouso domá-lo com minhas inúteis palavras. Você não o conhecera em mim, nem eu em você; ele se faz nesse texto, compulsivo produto de um antropofagismo claudicante, assim como se fez em nós. E morre e nasce em lugar nenhum: sem rastro. Pudera eu juntar todos os fragmentos, dele e de nós, que restam. Construiria um monopólio e enfim poderia chamar-te meu, sentir-me sua. Desse castelo feito de ruínas ancestrais e transformado em monumento de ouro, ergueria um império a você. Porém, o amor é irônico em fingir dar-me te; sinto-o rir à felicidade rasa que sinto em suas mãos. Eu, que tão levemente, deixaria essa divina sátira tomar minha vida como bem quisesse, entregue à afinada orquestra de um palco insólito à vive-la em vão.
Nem ao menos ouso dizer quem sois, pois tudo que te tornas, faço meu e apenas meu. És meu ouro-de-tolo: é das esmolas que me destes que construo minha solitária riqueza.  A realidade, é que guardo em mim um templo iconoclasta, todo para ti; sem ao menos poder nomeá-lo seu – seu nome verdadeiro nunca saberei –, tornara-se o deus de um não-mundo insignificante dentro de um intocável eu. As preces mudas que o pobre povo desses arredores entoa, é fraca e egoísta: pedem-te que os dê a cura aos olhos, o andar às pernas. E em algum canto dessa era medieval, onde a mitologia ainda ecoa no vazio das almas, onde o panteão ainda responde à angustia humana, chamam-te eterno milagre e anseiam que seja de você o todo vindouro, pois apenas de você provém o sagrado.
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Atualizado em: Ter 19 Jan 2021

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