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Em volta da Terra

Já estamos há um mês na Estação Internacional. Flutuamos há mais de 350 quilômetros de altitude e todo dia damos quinze voltas em torno da Terra. Os primeiros dias foram de uma empolgação muito grande com a missão, mas hoje sinto que já estou cansada de estar aqui e ainda restam dois meses inteiros pela frente. Eu quero voltar para casa. Meu marido e meu filho devem estar cansados de só falarem e verem-me por monitores de vídeo. Sinto saudade deles, do meu cachorro Spock, das minhas samambaias. Como eles estão se atando sem mim?
Somos cinco astronautas vivendo apertados aqui e submetidos a uma rotina entediante. Duas horas de exercícios diários para evitar atrofia muscular e problemas de calcificação, checar uma infinidade de instrumentos, coletar e organizar dados e mais dados. Mas tudo isso dá para encarar. O pior mesmo é na hora de dormir, já que dormimos em sacos apertados ou quando usamos o vaso sanitário e temos que nos amarrar a ele senão saímos flutuando ... ah que saudade da minha cama espaçosa e do meu banheiro!
A Terra vista do espaço é bela. Sempre é um espetáculo maravilhoso para os sentidos. Estamos na sétima volta sobre a Terra. Sobrevoávamos a costa da África quando o inusitado aconteceu: as luzes sumiram. O continente africano estava às escuras. Enquanto nossa órbita progredia observamos que não há um único ponto de luz sobre a face da terra.
 - Ei, gente!! Vocês estão vendo isso? – Falo isso aproximando bem meu rosto da janela da estação.
- Que merda está ocorrendo? As luzes das cidades sumiram! – Um surpreso astronauta alemão, responsável pelas pesquisas de fisiologia em microgravidade, falava com sua voz grave.
Todos nós corremos, ou melhor, flutuamos para a mesa de comunicações. Tentamos estabelecer contato com o comando da missão. Tentamos contato com diversas estações rastreadoras e nenhum sinal de resposta.  Acessamos as estações de televisão e de rádio. Abrimos a rede mundial de computadores e nada. Tudo em silêncio. O que será que houve? Todos querem falar ao mesmo tempo e ninguém se entende. Um clima de medo temperado com surpresa e desespero instala-se em nós.
Já estamos na décima quinta volta sobre a Terra e em todos os continentes percebemos que as luzes dos grandes aglomerados urbanos sumiram. A Europa é sempre muito iluminada, a costa leste americana se destaca em contraste com outras regiões do globo. Mas tudo sumiu. Tudo o que nós vimos é um planeta sem luzes. Será que houve um misterioso blecaute mundial? Uma espécie de pulso eletromagnético que desligou tudo lá embaixo?
Um dia passou-se após aquilo que, agora, chamamos de Evento. Estamos em mais uma volta sobre o planeta e até agora tudo permanece na mesma. Estamos em silêncio. Não sabemos o que aconteceu. Passado o primeiro momento de alarme, percebemos que o contorno dos continentes está alterado, a América do Sul está mais próxima da costa da África e o continente norte-americano está ligado a Europa e a Ásia, vemos também que não existe mais América Central. Tudo mudou lá embaixo. Percebemos que o contorno dos continentes está muito diferente daquele que nos acostumamos a ver desde crianças nos primeiros mapas escolares
Nosso especialista em astronomia teve a ideia de checar a posição das estrelas em relação a Terra e descobriu que elas não estão batendo com os dados que tínhamos até então. Algumas estrelas estão mais próximas e outras mais longes. Pedimos ao computador que fizesse uma projeção de tempo tomando por base a posição da Terra e do Sistema solar atualmente e a que tínhamos antes do Evento acontecer. A resposta é assustadora: a posição da Terra agora está 135 milhões de anos no passado em relação a sua posição antes do Evento.
Todos os dias voltamos nossos olhos para a Terra. Ficamos olhando em nossos computadores filmes e imagens da vida na Terra antes do Evento. Perdemos o interesse pelas pesquisas que conduzíamos. Lá embaixo não há ninguém para falar conosco. Ninguém virá resgatar-nos. Quem cuidará da minha família, de Spock e das samambaias agora?
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Atualizado em: Dom 18 Mar 2018

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