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OS AROMAS DA ALMA

 
   Se não tivesse memória, não entenderia nada de mim. Quem sou, quem me fiz, de onde vim, e sequer para onde vou, não saberia dizer. Penso ter as respostas que penso ter, porque me lembro de mim. Se para Shakespeare somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos, eu sou feito de sonhos, lembranças e memória.
   Embora a memória seja fundamental para ser quem somos, ela nos parece tão própria, usual, banal, frequente e corriqueira, que muitas vezes nem nos apercebemos dela. Talvez por isso tenha dito George Sand que “a memória é o perfume da alma”. A minha alma, então, tem cheiros, fragrância e odores, que às vezes nem eu aguento. Afinal, tenho em mim todos os aromas do mundo, mas também tenho cá meus podres e meus fedores.
   Tenho o aroma adocicado da infância. Nela fiz minhas primeiras essências oleosas que se grudaram no interior das costelas. Delas emano aromáticos bálsamos de lavanda, eucalipto, alecrim e capim-limão. Do verniz cremoso do bebê e dos talcos que minha mãe me usava, aos shampoos e sabonetes dos banhos pueris, trago por dentro olorosos perfumes que somente eu sinto. Quem me aspira os cheiros de desodorantes e das águas de colônias de hoje, não sabe nada das fragrâncias que tenho na memória.
   Não há quem seja o que quer que seja que não se apoie em suas memórias. A vida vai imprimindo nossa existência em detalhes gravados nas carnes e entranhas da alma. Somos uma espécie de colcha de retalhos costurada pelos fios, linhas e tramas do tempo.  
   Começamos nossa personalidade a partir do corpo e suas heranças genéticas. Já desde cedo, ainda no útero materno, vamos gradualmente desenvolvendo a pessoa que mais adiante seremos, e que ainda continuaremos desenvolvendo. Porém, com o nascimento biológico, as coisas vão se acumulando e tomando corpo e forma dentro da gente. A alma, antes inodora de seu próprio cheiro, vai, com as experiências e vivências, adquirindo seu próprio estilo e jeito. E na combinação de tantos e diversificados aromas e cheiros, cítricos, amadeirados, herbais, mentolados, picantes, herbáceos, adocicados, azedos, florais, pútridos, agridoces... formam-se personalidades individuais, cada uma com as características, peculiaridades, singularidades, idiossincrasias, estilos e maneiras. Há almas (pessoas/personalidades) com essências onde prevalece mais perfumados cheiros de gardênias ou jasmins. Em outras, refrescantes aromas de laranja, bergamota, lima ou limão. Há quem exale mais notas olfativas de patchouli e musgos de carvalho. Tem ainda, aqueles de espírito alegre e jovial, que emanam perfumados agradáveis odores de lichia, framboesa, melão ou maçã. Já outros se parecem com madeira queimada ou inhaca de axila suada e não lavada. Eu mesmo, trago no interior perfumado da minha memória, reminiscências olentes de cravos e lírios, provenientes de tantos velórios frequentados, adeuses e despedidas.
   A memória nos faz. Sem ela seríamos apenas corpos perambulando pelos cantos de mundo. Como diz Fernando Pessoa, “vivemos da memória”. É a memória do humano que somos o que nos faz humanos.
   Não sei quando me tornei quem hoje sou. Apenas sei que dentro de quem sou habitam lembranças, vivências, escolaridades, livros lidos, filmes assistidos, experiências individuais e coletivas, minha infância (a real e a imaginada), recordações e reminiscências modificadas pelo rememorar e o tempo, meu adolescente magro e inseguro, meus lutos, minhas frustrações, e um tanto mais de alguma coisa. Freud mesmo já afirmou que “somos o que lembramos e o que não lembramos”. Vai ver que sou uma sobra de pedaços de tecidos mesclados, cortados e costurados pela mão do tempo, ou um amálgama de lembranças e esquecimentos.
              
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Atualizado em: Qua 20 Dez 2023

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