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MISERAVELMENTE RICOS

“Todo artista tem de ir aonde o povo está” (NOS BAILES DA VIDA, Milton Nascimento e Fernando Brant)
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As pesquisas eleitorais para presidência, além de indicar os favoritos, evidenciam algumas interessantes peculiaridades. Os dados divulgados pelos institutos mostram, por exemplo, que o candidato à reeleição, Bolsonaro, é mais benquisto entre os eleitores com nível universitário e entre os que se encontram nas faixas de renda mais elevadas. Por sua vez, Lula, seu mais competitivo rival, sai-se melhor na intenção de voto dos mais pobres e daqueles que têm baixa escolaridade.
Segundo o DATAFOLHA, em pesquisa publicada no fim de maio, na faixa dos que ganham menos de 2 salários mínimos, Lula tem 56% de intenção de votos contra 20% dos que pretendem sufragar o nome do atual presidente. Por outro lado, dentre os que recebem acima de 10 mínimos, a coisa se inverte: 42% x 31% a favor de Bolsonaro. A diferença é ainda mais notável entre os empresários, onde o capitão detém ampla maioria: 56% x 23%.
Incorporando a variável ‘educação’, verificamos que, entre os menos escolarizados (até ensino básico), Lula dá um banho: 57% x 21%. Mas entre aqueles com nível superior, o predomínio é de Bolsonaro: 40% a 30%.
Uma curiosidade é que, ainda que se saia melhor na parcela mais bem formada da população, Bolsonaro não conta (como seria estatisticamente presumível) com apoio da maioria dos intelectuais e artistas conceituados que compõem esse segmento. São raros os pensadores, juristas, cientistas sociais e jornalistas de renome, assim como artistas de prestígio e astros consagrados da MPB e do pop/rock nacional que se declaram a seu favor.
As celebridades que mais veementemente tomam partido do chefe da nação são apresentadores midiáticos como Sikêra Jr e Ratinho e cantores populares como Amado Batista, Netinho e Gusttavo Lima, cuja massa de seguidores é formada majoritariamente por indivíduos pertencentes às classes C, D e E que paradoxalmente são, em sua maioria, pró-Lula.
Por outro lado, enquanto as personalidades gabaritadas do mundo artístico e intelectual são em franca maioria críticos ao atual governo, a maior parte do seu público potencial, o que tem melhor condição social e educacional (estando mais suscetível à sua pregação), discorda desse posicionamento.
Esse quadro revela um curioso descompasso entre a elite econômica (pessoas bem formadas com bons salários) que apoia o presidente e a elite intelectual e artística que o rejeita. Da mesma forma, embora os artistas e influenciadores reverenciados pelas camadas inferiores ofereçam apoio a Bolsonaro, os integrantes desses estratos a quem é dirigido o apelo, preferem o petista. Esse comportamento aparentemente contraditório mereceria uma análise sociológica.
A meu ver, a explicação é bem simples. Na hora de votar, as pessoas não se pautam por influências externas mas têm por base seu interesse individual imediato. Pouco adianta cantores sertanejos, apresentadores de TV e pastores evangélicos (todos esbanjando riqueza) bradarem impropérios contra o perigo comunista e a ameaça à família representada pelo candidato do PT. A imensa maioria da população carente tem sentido na pele o poder aquisitivo decair e a penúria bater. É natural que, em desconformidade com os acenos de seus ídolos, prefiram o candidato que prometa dias melhores, cuja imagem é a de um homem mais sensível às agruras do povo.
Na outra ponta, os mais abonados escolhem o militar reformado que lhes assegura a manutenção de seu patrimônio, seja através de uma política econômica que os favoreça, seja proporcionando livre acesso a armas para que possam se resguardar em suas cidadelas fortificadas. De nada vale intelectuais e artistas (vistos por eles como ‘esquerdopatas’) exporem os descalabros do governo atual, mesmo que esse discurso inclua preceitos louváveis como democracia, preservação do meio-ambiente, valorização da cultura e da ciência, combate ao racismo e outros valores espezinhados pelo atual governo. No momento de apertar o botão da urna, o sujeito, tomado pela ganância, despreza esses ‘nobres princípios’ e egoisticamente escolhe manter intactas suas regalias, pouco lhe importando o contexto perverso que as propicia.
No caso dos mais pobres, é compreensível e até elogiável a opção pela mudança pois se trata de uma questão de sobrevivência. O mesmo não se pode dizer dos mais ricos cuja escolha por ficar tudo como está significa manter inalterável esse iníquo e absurdo fosso social.
Sem entrar em detalhes político-ideológicos, penso que as classes abastadas que ocupam posição de relevo no quadro social têm obrigação moral de apoiar e mesmo liderar um projeto de reconstrução nacional que faça do Brasil um país decente, ainda que isso implique em abrir mão de parte de seus inadmissíveis privilégios vis-à-vis dezenas de milhões que padecem de fome.
Nossas retrógradas elites econômicas são uma vergonha não apenas para seus compatriotas mas sobretudo perante seus próprios filhos. Que tipo de nação pretendem deixar-lhes? Um lugar conflituoso em que alguns nababos vivam uma vida de fantasia, encastelados em condomínios de luxo murados e guardados por seguranças armados, reservando o espaço comunitário das ruas para os desvalidos caírem na miséria e na criminalidade? Ou um país com mais equidade, que crie condições dignas para todos viverem em harmonia, que invista, não em armas e confronto, mas em cultura, educação, saúde, saneamento e que salte aos olhos do mundo como exemplo de desenvolvimento justo e sustentável?
Que justificativa darão a seus netos por deixar-lhes como legado um meio ambiente devastado pelo lucro imediatista, universidades e centros de pesquisa desmantelados pelo obscurantismo, os povos originários que aqui vivem em harmonia com a natureza massacrados pela avareza, nossa história e nossas referências de nação desconstruídas pela ignorância e pelas fake news?
Estão pouco se lixando para a tragédia social e ambiental que se abate sobre nós em decorrência de suas escolhas mesquinhas. Se a situação apertar, fugirão com seus milhões de dólares para Miami, deixando para trás, sem remorsos, um país destroçado.
Surdos para os chamados de artistas e intelectuais que não se cansam de alertar para a calamidade social e a catástrofe ambiental, nossos miseráveis magnatas são o perfeito retrato do nosso subdesenvolvimento mental.
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Atualizado em: Seg 20 Jun 2022

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