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A lista de Xinger

              Killer app é o nome que se dá ao software que resolve de forma tão completa e satisfatória uma certa necessidade que seu sucesso é imediato e pleno. Assim, para os usuários que não queriam mais falar com outros seres humanos para pedir comida surgiu o iFood, para as pessoas que queriam mentir sobre seu status econômico foi criado o FaceBook, enfim, a lista é longa mas há muito mérito no desenvolvimento destes aplicativos pois eles exigem que o zeitgeist seja compreendido e desnudado, que o comportamento de massa seja identificado e traduzido pois a maioria de nós não consegue ver estes padrões, nem mesmo depois que estas ferramentas, como profecias que se auto-realizam, nos levam a extremos que nem os criadores previram.
              Este é o ponto fulcral deste texto: extrair de uma extensa e minuciosa análise comportamental o passatempo que mais engaja as pessoas e não há problema nenhum que elas não tenham consciência disto. Uma vez desenvolvido o app, ele não só passa a resolver esta demanda como a intensifica, arrebanhando clientes onde não havia - até que todos estejam vendendo picolé no Ártico. Mas qual seria esta demanda, o que 85% das pessoas estão fazendo, como perceber esta regra tácita? É só escutá-las. Ou lê-las. Ou melhor ainda, é só ver o que elas não estão fazendo. Quais as características de um assunto fadado ao ostracismo? Conversas elegantes sobre temas pertinentes que exigem estudo e preparação na formulação de seus os argumentos, em geral expostos em textos vívidos e densos. Este tipo de tópico tem vida curta, não tem notoriedade nem divulgação, em especial porque os mecanismos de busca e promoção foram devidamente calibrados para não potencializar estes temas. Isto nos deixa mais perto de uma solução mas a resposta completa ainda não é visível. A cereja no bolo é, também, resultado da psiqué humana e ela começa longe, muito longe, quase tímida e por certo com aparência inocente. Alguns exemplos irão ilustrar isto melhor e resolver o enigma: “Bilionário dá 250 mil dólares para instituição de caridade” diz a notícia. Comentário? “isto não significa nada para aquele pão duro! Tinha que ter dado mais!”. Outro: “Ministro da Economia estrutura programa de fomento à indústria de base visando ampliação da força de trabalho”. Comentário: “este aí quer se eleger, não sabe nada do que está fazendo”. Mais uma: “prêmio Nobel de Biologia anuncia avanços importantes da teoria do surgimento da vida” e o comentário: “que bobagem, que perda de tempo”.
              Dizer que menoscabar pessoas, pontos de vista e até fenômenos da Natureza virou esporte nacional é um eufemismo; as fronteiras são globais e vivemos agora a era do xingamento. Aspectos como o objeto da discussão, sua relevância ou mesmo os interlocutores perderam totalmente a importância, sobretudo em assuntos mais complexos. A lógica por trás disto é tristemente óbvia: já que não consigo transitar pelas complexidades inerentes ao tópico (aliás, quem tem interesse no tópico?), é mais fácil e divertido mudar o foco para o simples xingamento, para a depreciação e desqualificação de pessoa que porta a informação, do veículo de divulgação ou, caso falte imaginação, do dia de semana em que a notícia foi apresentada. Xingar nos eleva moral e intelectualmente pois pretensamente nos coloca na posição de vanguardistas, somos capazes de ler a situação com mais acuidade e pertinácia que o autor, conseguimos evidenciar seus óbvios erros e ainda somos gentis o suficiente para espalhar nossos ensinamentos a quem quiser e até a quem não quiser ouvir. Xingar esconde nossa ignorância sobre o assunto ao mesmo tempo que nos permite apresentar um teatro onde somos personagens inteligentes e também responsáveis cidadãos. Na ordem natural das coisas, o primeiro interesse foi o de fazer (até cerca de 1980), depois fazer cedeu espaço a falar sobre fazer (até 2015, segundo alguns especialistas) e agora é chegada a década do cão, onde só xingar tem valor. Se você é novo neste esporte, seguem duas dicas. Seja breve - assim você terá tempo para xingar várias pessoas sem limitar seu portfólio xingativo a um nicho em especial - até porque o bom xingador é um generalista: ele não sabe nada sobre muitos assuntos. O xingamento serve para justificar o seu fracasso então mire naqueles que realizaram coisas e evite minorias a todo custo.
              Do ponto de vista de consumidor, se você quiser xingar alguém hoje, como você faria? Que plataformas ou ferramentas estão a sua disposição para exercitar este direito constitucional? Claro, existem inúmeros apps mas você não quer usar o Uber para postar sobre sua viagem e nem o TikTok para pagar uma conta. É preciso criar um produto novo, voltado para este grande mercado, com recursos voltados a este segmento e para resolver este problema foi criado o Xinger. De cara, assim que você cria a sua conta, os servidores do Xinger fazem uma pesquisa na sua vida digital toda, recuperando contatos de todos desafetos que você já teve, com direito a saber os assuntos debatidos e o motivo do ódio que une vocês. Mas este é só o início: depois você pode alargar a sua rede e literalmente passar a odiar todo mundo. O Xinger tem uma versão gratuita e uma versão paga (você pode adicionar o Xinger na sua lista), sendo que na gratuita você pode xingar à vontade mas as pessoas não conseguem ver ou ouvir os seus insultos (atualmente é possível mandar texto e arquivos de mídia) mas você pode ver os xingamentos de usuários melhores que você. Para você que busca novos relacionamentos problemáticos, temos o botão ‘Hate’ que funciona parecido com o ‘Like’, para quando você quer sinalizar que odiou o que alguém disse e se as coisas progredirem bem você pode mandar um convite para que o ódio de vocês cresça ainda mais rápido.
              Acreditamos que com a disseminação do Xinger, o trânsito das cidades deve melhorar pois esta necessidade latente de mostrar-se superior aos outros através de críticas sem mérito terá sido canalizada para um ambiente seguro, deixando nossas ruas mais calmas. Similarmente, as pessoas já terão reclamado sobre a falta de higiene dos outros, de forma que comportarão de forma levemente menos selvagem na vida real - pelo menos enquanto houver uma vida real e o Meta não tiver tomado conta.
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Atualizado em: Qui 24 Fev 2022

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