person_outline



search

Ninguém aguenta mais ser brasileiro

Porque no Brasil parece que as coisas não duram muito tempo. Tudo é transitório, improvisado, feito do jeitinho brasileiro que já estamos aconstumados. É uma eterna busca que não sacia, e que vê pouco deleite nas conquistas.
Veja, não foi ontem que travávamos uma batalha contra a anti-campanha de vacinação do governo? Pouco depois, num salto de meses, nos tornamos um exemplo de sistema de vacinação universal (viva o SUS). Mas ainda hoje vi a notícia de que voltamos a ter 1000 mortos por covid num único dia. É fevereiro de 2022. Mês tão lindo, do carnaval e do meu aniversário...
Também rola uma disputa pelo discurso oficial. Quem tem mais razão: a OMS, a médica do youtube ou o presidente? Ivermectina, vacina, Estados Unidos, China... Quem sabe um astrólogo teria a resposta, mas sem sombra de dúvidas estamos cercados de canalhas que tentam nos desorientar pela internet, e chamá-los por esse nome não é nenhum eufemismo.
A sensação que fica é de que as coisas estão soltas, quiçá os parafusos estejam frouxos. Não temos garantia de nada, ou de pouca coisa. Tudo muda muito rápido e o tempo nunca passou tão devagar. Já são dois anos de restrições sociais, isolamento, máscara na cara no calor de 40 graus, mas eu adorava o quentinho que dava no inverno.
Todo corpo tem morte. Talvez você concorde que estamos há dois anos fracassando contra um bicho invisível aos nossos olhos, de tão pequeno. A vida deve ser demorada mesmo, e cada coisa tem seu ciclo, sua fase. Esse período pandêmico favorecer o que não nos convém enquanto humanos: o isolamento. Outra coisa que não durou muito no Brasil. Mas porra corona. QUE FASE. Digo isso porque, como bom neurótico, me enrolo para achar o centro do problema, enrolo-me no meu sofrimento. E parece que é isso que estamos fazendo com um vírus.
Pensamos muito em nós mesmos, homo sapiens sapiens. Poucas vezes cedemos espaço para imaginar, por exemplo, como um dinossauro se sentiu na Mesozoica. Ou um elefante, vai, como um elefante se sente diante da mesma pedra que usavam pra nos ameaçar? Quero enfatizar a cegueira da nossa capacidade autoreflexiva, e como estagnamos aí, contemplando os pensamentos boiarem na beira do rio.
Um desafio é se abrir pras existências humanas, que são plurais e por isso já nos causam intrigas demais para nos ocuparmos. Estou falando isso como homem branco e urbanizado. Mas desejo ir além, embora com um passo de cada vez. Somos antropocentristas, acho que esse é o próprio dilema da antropologia.
O fato é que tempo, distância e morte são coisas que a gente aprende a lidar de um jeito misterioso. Não há fórmula, embora umas gotinhas de niilismo ou religião ajudem, ou atrapalhem. Fico com o primeiro: por ser menos florido, é o que não se deixaria enganar pela aparência e pelo perfume das rosas, ignorando seus espinhos. Nem tudo que seduz agrada, e acho que nós brasileiros somos facilmente iludidos. Não elegemos um messias, desesperados por alguém que trouxesse a verdade e a vida?
Parece que a pandemia está sendo este período louco, de mudanças que nos pegam desprevenidos, de mortes inesperadas e distanciamentos forçados e, ao mesmo tempo, desobedecidos. Eu sinto que não processei direito tudo que esse período tem carregado. Algumas coisas simplesmente vieram como fatos goela abaixo que aprendemos a conviver, aceitar, ou negar, para alguns. A impotência humana mostrou face quando a cooperação não foi o denominador comum diante dessa "batalha" contra o vírus. A iminência da morte nem foi superada com a alta tecnologia.
Me convenci que há coisas que fogem do nosso controle, por isso temos nos recolhido e nos isolado. Espero que tudo isso acabe logo. Se não for numa celebração coletiva e dionisíaca, que esse retiro seja em um casulo que possa gestar uma vida nova.
Pin It
Atualizado em: Seg 7 Fev 2022

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222