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Imunidade intelectual

              A expressão pode ser interpretada de várias formas que aquela que miro neste momento é a imunidade ao estilo parlamentar, quando ao sujeito é outorgado algum tipo de isenção (seja de responsabilidade, civilidade ou mesmo honestidade). Neste tipo de imunidade, entretanto, a regra é que a outorga é feita por força de lei, de forma que beneficiado recebe a permissão e a desfruta como melhor lhe aprouver. A imunidade intelectual, por outro lado, funciona sob o princípio do autoconcessão, cabendo ao próprio indivíduo presentear-se com ela.
              Pela importância, cabe explicar um pouco melhor (ao leitor que não ainda anteviu que se trata). Uma vez assumida a imunidade intelectual, seu portador fica totalmente protegido dos melhores argumentos, a lógica não lhe será importante e o bom senso será visto como um luxo desnecessário que as massas idolatram. Pessoas com alto nível de imunidade intelectual são genuinamente incorruptíveis mesmo pela mais tenaz e pertinaz argumentação, contorcem-se em devaneios de fuga e negação mas saem ilesas dos ataques feitos pelo mordaz trio História, Ciência e Lógica. Mas não se engane: uma pessoa que recebeu as doses da vacina que confere a imunidade intelectual não fica mais fraca, antes pelo contrário: em seus arroubos de megalomania conspiratória são loquazes e verbosos, como bem nos ensina o efeito Dunning Krugger (https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_Dunning-Kruger).
              Imunidade intelectual na vida quotidiana: terraplanista afirma XYZ. Ato seguinte: os interlocutores mesclam reações de riso, ofensa, descaso, espanto e decepção, até que um rompe o silêncio e argumenta, com polidez, os inúmeros equívocos que tal pensamento comporta e as incontáveis provas obtidas e verificadas de que tal tese é falsa. Mas TP tem a imunidade intelectual que o torna superior à toda cantilena científica, às tediosas observações do céu noturno, aos eclipses, aos milênios de cálculos. Talvez TP entenda (racionalmente) os argumentos mas é organicamente incapaz de introjetá-los, como se não tivesse o receptor necessário para deixar entrar aquele conceito. Pessoalmente, sou contra ostracizar pessoas com esta condição, não porque ache que elas não são responsáveis por si mas por considerar a infindável cadeia de eventos (e eventuais tragédias) que podem ter ajudado a moldar esta visão de mundo, tão pouco científica, tão evasiva, tão apavorada. Sim, no fundo, acho que se trata de medo. Medo de constatar que o mundo avançou e o conhecimento de camponês da idade do bronze não é significativo nos dias de hoje, medo de que ceder em um ponto o leve a ceder em outros e o castelo de cartas das superstições entre em inexorável colapso. Qual a melhor estratégia para lidar com este efeito, sobretudo quando ele é tão pervasivo na sociedade? O approach ‘abandonando a carcaça no deserto’ parece divertido mas é inviável. Precisamos resgatar estas pessoas, ou melhor, este exército de pessoas, desconvertê-las. Talvez seja muito difícil, muito trabalhoso e muito caro. Talvez seja tarde para elas. Talvez devêssemos mirar nas próximas gerações e vaciná-las o mais rápido possível, com muito conhecimento, literatura, ciência, artes e filosofia.
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Atualizado em: Ter 11 Jan 2022

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