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O próximo universo

              Recentemente o mundo foi novamente pego de surpresa pela movimentação de Mark Zuckerger em direção ao metaverso e é normal ficar apreensivo em relação ao fato de que as relações humanas continuarão mudando de acordo com esta recém criada nova realidade. Um ponto que deveria nos trazer conforto e alívio, entretanto, é o fato de que o próprio Mark é exemplo e modelo de ser humano (tanto quanto a tecnologia permite no momento) não somente em aparência mas também em estilo e carisma - em comparação a um ATM, por exemplo. O que poderia dar errado?
              As dúvidas, entretanto, são inúmeras. A primeira e possivelmente a mais frequente: ‘não seria meta-verso?’ Segundo a última revisão ortográfica, palavras iniciadas por este prefixo só são separadas por hífen se a segunda parte começa com ‘a’ ou ‘h’. Fora isto, a mudança vai bem além da nova marca do grupo e com certeza muito além de uma campanha de marketing: trata-se de uma reformulação dos aspectos mais fundamentais das interações humanas, ampliando e liberando recursos até então impossíveis na já aposentada ‘velha realidade’. Através do metaverso e seus equipamentos, a experiência humana (até então limitada em tempo, espaço e número) passa a permitir que você esteja em dois ou mais lugares ao mesmo tempo, interagindo com grupos diferentes de pessoas, absorvendo e apreciando ambientes distintos e aprendendo mais coisas por minuto do que jamais foi possível na história deste país, quero dizer, na história - tudo isto sem sair do sofá da sala dos seus pais e sem ter que falar com ninguém. Claro, não será o ‘antigo’ você mas sim um avatar que não se limitará aos seus traços físicos, limitações mentais ou mesmo personalidade. Desta forma, será possível tirar férias na Austrália sem sair de casa mas ao mesmo tempo curtindo todos os aspectos relativos a uma viagem (no sentido arcaico da palavra). Plugins, cupons e ofertas especiais ampliarão a intensidade da experiência, permitindo que você seja picado por uma cobra venenosa local e tenha queimaduras de segundo grau por causa do sol e temperatura do Outback. Há anos o terreno vem sendo preparado para este momento, esvaziando a necessidade da velha interação entre seres humanos, privilegiando a troca de informação entre máquinas, softwares e algoritmos: tudo para tornar esta transação algo mais simples e gerar menos inconformidade (ou você fala com algum ser humano para pedir um delivery?), embora seja inevitável que alguns continuarão a xingar as nuvens.
              Como será, de fato, este ‘abominável mundo novo’, como diria Huxley se estivesse por aqui nestes tempos? Alguns veem esta nova fase como mais uma etapa na vertiginosa descida de valores e habilidades que forjaram tudo o que o gênero humano conquistou até hoje. Já outros são mais pessimistas mas a verdade parece ser uma só: se é possível fazer (e dá dinheiro), alguém fará. Mas se não é possível, contrate pessoas que descubram como transformar o impossível em viável e volte ao ponto 1. Identificar os pontos negativos desta que será a nova mania mundial é extremamente fácil mas além de retrógrado, é incompleto. Quando viabilizou-se uma forma de produzir em massa o motor de combustão interna criou-se uma alternativa ao transporte de tração animal, ampliando as potencialidades de uma sociedade inteira mas com certeza houve uma manifestação do PSOL dizendo que isto aumentaria as diferenças sociais: verdade, parcial, temporária e anacrônica mas verdade. A extremidade que faz avançar a sociedade não é aquela mergulhada na pobreza, ignorância e miséria; esta é, paradoxalmente, auxiliada e beneficiada pela outra extremidade que tem condições, que tem trabalho, organização, energia e recursos para colocar à disposição de uma causa e que, em geral, quer ter algum tipo de retorno com isto (para fazer frente aos riscos enfrentados e compensar todo o trabalho feito). Poucas são as instituições verdadeiramente ‘pro-bono’ e elas existem exclusivamente devido à visão de mundo de seus fundadores e elas são ironicamente desumanas no sentido de ir contra o instinto que organiza o resto da sociedade - embora tragam benefícios diretos e concretos. Certo, errado, bom, ruim, satisfaz a métrica estilística e ética que eu arbitrariamente tracei para avaliar aqueles que fazem mais do que eu? Irrelevante, enquanto esbravejo contra as estrelas e vocifero contra o cosmos, eles criam a nova realidade que mais cedo ou mais tarde me envolverá, indiferente as minhas argumentações filosóficas. Como o próprio nome meta indica, este universo será o seguinte, a sequência, a evolução.
              Nada disto, entretanto, preclui-me de ter uma opinião (aliás, não consigo evitar de ter, inclusive, várias). Se já vivíamos em uma caverna platônica, agora está em construção uma caverna dentro da caverna, que vai abusar do conceito da recursividade e qual uma toupeira, continuará a cavar impelida por um imperativo biológico (neste caso digital). Se formos tão espertos quanto uma toupeira (sem ironias), poderemos refazer este caminho se percebermos que ele está nos levando para um lugar perigoso mas o grande medo é que sejamos já hoje cegos demais para conseguir discernir o que é saudável e benéfico do venenoso e tóxico. Aliás, com certa razão: nossos antepassados se colocaram a frente de questões importantes como ‘pedras são comestíveis?’ ou ‘que tal andar só nas duas patas traseiras?’ e foi o julgamento que eles fizeram que pavimentou a estrada por onde passamos agora. Hoje, como diriam os snowflakes, tudo é mais difícil mas precisamos pensar também nas gerações vindouras e como nossas decisões forjarão este distante futuro (mais de 6 meses). Excetuando alguns grupos focais bem específicos, voltar a andar de quatro parece uma opção contraproducente, assim como voltar a ser caçador coletor ou mesmo voltar a viver nos oceanos e isto só serve como alerta para lembrar que voltar nem sempre é fácil ou mesmo viável. Vamos pelo menos deixar migalhas de pão pelas cavernas que passarmos para que voltar seja uma opção e esperar que os contos de fada sigam sendo nossos melhores faróis de sabedoria.
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Atualizado em: Sáb 20 Nov 2021

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