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Científico, até os ossos!

              Vivemos em uma sociedade fundamentalmente científica e, diferente de uma mera opinião, esta afirmação pode ser amparada por uma série de argumentos e evidências. Da mesma forma, é também visível que o domínio desta musculatura científica não é um exercício democrático, pelo contrário, é um oligopólio intelectual. Indiscutível, entretanto, é o quanto os hábitos da sociedade atual foram influenciados e até moldados pelo resultado desta jornada de descoberta e inovação, a ponto de ser tão ubíqua que parece invisível.
              Um tópico inicial bastante didático é a comunicação - atributo humano de alto interesse. Nenhum dos meios correntemente usados seria remotamente possível se não fossem as descobertas científicas em áreas como Física, Eletrônica, Acústica, Rádio Propagação, etc. Felizmente, junto como avanço tecnológico, vem a facilidade de uso e isto permite que mesmo desconhecendo a intrincada natureza dos fenômenos envolvidos, qualquer pessoa pode pegar um fone de ouvido e conectá-lo em seu celular, sintonizar uma rádio ou mesmo sentar-se bovinamente para ver TV na sala. Se fosse necessário descrever com precisão e profundidade todos os fenômenos envolvidos e os anos necessários para desenvolver as tecnologias que viabilizam esta mágica silenciosa seriam necessários muitos volumes de aridez técnica e pensamento abstrato.
              Na Inglaterra de 1900, era consenso entre os futuristas que em 50 anos a cidade estaria afundada em 3 metros de esterco, subproduto da atuação gastrointestinal de uma horda de equinos usados no transporte humano e de cargas. O problema só recebeu um encaminhamento adequado com o advento do motor de combustão interna produzido em massa, resultado de intensa pesquisa, que permitiu substituir a narrativa da piscina de estrume por outra, a da poluição ambiental. Embora ainda usemos unidades de potência como cavalo-vapor (até para naves espaciais, caso em que mesmo um número infinito de cavalos não seriam suficientes para projetá-la para fora da atmosfera), a ciência mais uma vez triunfou em resolver um problema e ajudar a pavimentar a estrada que nos levou a um futuro melhor, mais cômodo, mais acessível e mais democrático.
              Seria relapso não lembrar da eletricidade, o elixir da energia que coloca nosso mundo em movimento, do domínio do átomo, a compreensão de conceitos como fissão nuclear, a evolução dos modelos meteorológicos, o desenvolvimento em escala do avião, o aperfeiçoamento da agricultura (cujo aumento de eficiência mitigou o problema da fome). Na saúde não é diferente: desde a anestesia que faz com que a extração de dente não seja um espetáculo de agonia, passando pelas cirurgias ‘de peito aberto’, as lentes que ornamentam seu nariz neste exato instante, aos scans cerebrais e uma infinidade de procedimentos já impossíveis de serem domínio de uma só pessoa, bifurcando-se quase ilimitadamente em uma rede de especialidades. Pode-se dizer que a tecnologia e a ciência, nas mãos de pessoas extraordinárias, abriram portas para um mundo novo, embora ainda representem um mistério para a maioria dos leigos, que simplesmente não se importam em usar o celular mesmo sem compreender os rudimentos de eletromagnetismo, microeletrônica ou sistemas operacionais embarcados. Apesar das pessoas adorarem a ideia de discordar de algo, dificilmente se vê uma passeata com cartazes bradando “Abaixo o TCP-IP!” ou “Relatividade Geral é somente a extensão da mecânica de Newton em contextos de grande velocidade e massa!”. A complexidade da tecnologia de hoje dificulta que qualquer pessoa tenha uma opinião fundamentada sobre certo assunto - é necessário ler, informar-se de boa parte das contribuições feitas sobre o assunto até o momento para só então consolidar uma visão digna de respeito.
              Apesar da dívida moral que temos com a ciência (devido aos incontáveis itens que só temos por causa dela), em certos casos nos achamos capazes de ver o que a ciência não viu, queremos imaginar que não somos uma engrenagem de um sistema maior: somos a mola que propulsiona o sistema. Então aparecem a astrologia, cura por cristais, aromaterapia, acupuntura, homeopatia, terraplanismo e caçadores de conspirações. Além dos inúmeros motivos científicos para não respaldar estas visões, existe o aspecto ético, no qual usamos o que nos convém e profanamos o que pensamos que não nos convém, da mesma forma que as pessoas selecionam trechos da Bíblia que tem mensagens positivas como sendo literais e trechos onde a matança indiscriminada rivaliza com o Rambo como objetos de interpretação simbólica. Se você acredita que o flúor é bom para seus dentes, deveria acreditar também que a vacina e as máscaras são nossas melhores chances, pois, no fundo, a ‘pessoa’ que está dizendo isto é a mesma, que esteve ao nosso lado durante todo estes anos, afastando-nos de doenças e perigos que nem conhecíamos. Descartes, Bacon, Galileu, Lavoisier, Newton: como eles encarariam uma passeata de anti-vaxxers?
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Atualizado em: Seg 30 Ago 2021

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