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Testando os limites da aceitação social

              O video no final do texto mostra um inteligente experimento levado a cabo por Joseph Backholm, no campus da Universidade de Washington, no qual ele busca entender o quanto as pessoas estão dispostas a aceitar as outras baseadas na autodeclaração. Inicialmente o entrevistador (um homem branco com aparência de 30 anos e altura de 1,70m) faz a seguinte pergunta: ’o que você diria se eu dissesse que sou uma mulher?’. Invariavelmente, as pessoas mostravam toda sua aceitação e empatia, reconhecendo seu direito de sentir e vivenciar esta posição. A pergunta seguinte, entretanto, é mais intrigante e indaga como a pessoa se sentiria se ele dissesse que era chinês. Um pouco menos seguros, os entrevistados começam seu contorcionismo filosófico mas resistem e afirmam que não há problema. Sem clemência, incorpora-se à pergunta a informação de que ele tem 7 anos. Mais surpresa, mais esforço para garantir a aceitação. Não satisfeito, ele pergunta se haveria problema se ele quisesse se matricular em uma escola junto com outras crianças de 7 anos. Visivelmente menos seguros (mas ainda receosos de serem vistos como preconceituosos), os entrevistados aceitam a proposta e seguem solidários à ideia de aceitação incondicional. Quando o golpe final é desferido, ou seja, quando o entrevistador afirma ter 1,95m, a cisão começa a se fazer visível e o embaraço dos entrevistados já não é tão fácil de ser escondido. “Afinal, que mal tem se o baixinho pensa ter 2 metros de altura?”, deveriam pensar, ao mesmo tempo que o olhavam e viam que seu pleito era visível e incontestavelmente absurdo.

              Existem várias forças em operação aqui e é útil tentar identificá-las e mensurá-las. De um lado, nosso ethos progressista dá hoje muito mais espaço e relevância às sensações pessoais (em detrimento das sensações que os outros tem sobre nós) e quem se alinha a esta orientação ganha o selo de qualidade da modernidade. Esta lâmina, entretanto, corta para os dois lados: não esboçar claramente comportamentos alinhados a esta visão são imediata e sumariamente condenados, com penas que vão do shaming ao absoluto cancelamento, passando por variantes do ostracismo digital. Ao mesmo tempo, as pessoas ainda conseguem pensar de forma independente, conseguem questionar e distinguir tópicos razoáveis de óbvias insanidades. Vivemos exatamente aqui: no meio deste cabo de guerra ideológico, temperados pelas visões, paixões e experiências pessoais, esquivando-se de ameaças mas ao tempo tempo buscando aceitação. Talvez o problema seja exatamente este: somos humanos e o gênero humano não é perfeito. Lembro daquela piada de físicos (sim, isto existe) onde um fazendeiro está tendo problemas pois suas galinhas não estão pondo ovos. Ele então chama o físico, que olha, testa, pesquisa, pondera e por fim conclui: ‘eu tenho a solução mas infelizmente ela só funciona para galinhas esféricas e no vácuo.’

              Esta sensação de estar sendo mordido mas costas que você deve estar sentindo agora (se já parou de rir da piada do físico) é exatamente isto: um cachorro mordendo a cauda. Eis aí, desnudo e desossado, mais um atributo do ser humano, ampliado pelas redes sociais a ponto de atingir proporções patológicas: a busca da aceitação acima de tudo. Permita-se ser específico: aqui falo da aceitação pelos outros; este é o maior imperativo. Ter a sensação de ser aprovado e validado pelos outros, por um grande número de ‘outros’, outros que eu nem conheço, que nunca vi mas cuja aceitação não só anseio mas preciso, como uma dependência química. A metáfora com um viciado em drogas é constrangedoramente precisa. A questão aqui não é qualitativa mas sim quantitativa. Somos seres sociais, andamos em bando pois historicamente ele sempre representou uma possibilidade maior de sobrevivência. Conseguíamos mais comida, tínhamos mais acesso a ocasiões com potencial reprodutivo e éramos menos comidos por predadores quando estávamos dentro do bando. O bando sempre foi a nossa ferramenta para chegar no objetivo da sobrevivência e transmissão de genes, ao contrário de outras espécies, que prosperavam mais eficientemente ao seguir carreira solo. Embora o bando não fosse o objetivo final, era aceitável e até eficiente incorporar este item na lista de rituais a serem performados para, agora sim, buscar o imperativo biológico de todos os seres vivos. Aí vieram as redes sociais e o bando passou de ferramenta para objetivo em si.

              Será que existe uma linha, mesmo que móvel, que delimita o aceitável do inaceitável? Será que o adjetivo é este mesmo ou seria melhor usar como critério ‘equilíbrio entre conveniência pessoal e convivência grupal’? Por fim, em algum momento será necessário contemplar esta savana digital e desenvolver uma perspectiva mais ampla, mais funcional, mais ‘inclusiva’ no sentido de incluir vários pontos de vista e não somente aqueles que garantem a nossa posição de destaque dentro do bando. Enquanto ficarmos só jogando para a torcida, o debate não começa.

[https://www.youtube.com/watch?v=xfO1veFs6Ho]

 
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Atualizado em: Sáb 7 Ago 2021

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