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Crônicas de uma viagem eleitoral XI

O mesmo calor incandescente no começo da manhã. O último café na padaria, com a suave intuição de que seria, de fato, o último. O olhar percorre as cercanias, inquieto, tentando fixar algumas lembranças. A fachada cinzenta do Banco do Brasil, o amarelo esbranquiçado das torres bojudas da igreja, o granito despropositado nos bancos da praça. E aquela aridez quase sem árvores. Os automóveis avançam sem cessar na manhã de feira.
Depois, a inquieta espera por uma convocação que não vem. Que fazer? Ajustar a partida. Despedir-se das paredes azuis, tão familiares, das seteiras de madeira escura, das formigas com sua marcha incessante. Lá fora, uma ave grita um grito angustiante. E, na BR 324, o enésimo freio estrepitoso de uma carreta qualquer. Às vezes, borracheiros e mecânicos gritam, comunicando-se.
No fim da manhã, a convicção da despedida. Então um passeio sob o sol que, aqui, nunca dá trégua. Percorrem-se algumas ruas comerciais, com suas vitrines apelativas e suas calçadas estreitas. Há sempre um poste que se insinua a impõe ao pedestre uma contorção no corpo. Ventiladores ruidosos bafejam o ar quente no rosto dos consumidores, até mesmo dos pedestres que passam pela rua.
Adiante, o comércio escasseia e residências amplas, largas, confortáveis, vão se impondo. Há a imponente unidade da Polícia Militar, o hospital do município. Mas é tudo árido: a poeira fina sobre o calçamento, as ruas sem árvores, os blocos aparentes das construções inacabadas, as calçadas malconservadas. Ainda mais além se intui os limites da cidade: carcarás descrevem voos circulares, elegantes, sob o sol do meio-dia.
A feira-livre estertora com pouco movimento e raras transações. Há, novamente, ânimo nos bares. Tabaréus e jovens citadinos dividem o mesmo chão, esvaziando incontáveis “litrinhos” de cerveja. O fígado frito, mais uma vez, atiça a fome do transeunte. A rica descoberta do primeiro dia, porém, começa a se insinuar como rotina porque não há novas descobertas.
Há a praça enorme, silenciosa, enladeirada, que abriga o cemitério. Do alto da ladeira curta, mas íngreme, a necrópole domina tudo. Uns poucos moradores atenuam o tédio em conversas lentas, intercaladas por longos silêncios. Passam carros, mas ali prevalece a quietude. Alguns sobrados antigos, graciosos, mas desgastados, coexistem com pretensiosas construções modernas, de vidro, de pedras, de metais. Horrorosas caixas retangulares, de concreto, que enfeiam a praça tranquila.
À tarde, nova caminhada. As mesmas águas escuras, estáticas, do J.; o vento que sacode os galhos das plantas catingueiras suavemente; a desolação do comércio fechado, os bêbados retardatários na feira-livre, as galerias com suas portas fechadas às 16 horas. No alto-falante, a marcha fúnebre: o locutor anuncia, com voz pesarosa, uma morte. Comunica também o sepultamento no dia seguinte.
Mais adiante, a praça com a arena festiva. Mas ali, agora, há ânimo. Gente se reúne, ruidosa, para beber ou ver o jogo na tevê. Falam aos berros, examinam os arredores, avaliam a plateia. Há uma incontida necessidade de plateia. São os abastados da cidade: bebem Heineken, pedem pratos, retardam-se até a bebedeira completa, ostentam seus celulares sofisticados. Depois, saem com suas caminhonetes possantes, levantando a poeira fina que repousa sobre o asfalto.
A caminhada sob um clima de despedida. Aqui ou ali, uma parada curta para fixar os detalhes de um sobrado antigo, com seu hall em arco, suas janelas antigas, sua paz de necrópole. Só os jingles violentos da campanha interrompem a pasmaceira que o sol preguiçoso do fim da tarde embala. Na praça, defronte à rádio, encontro com E. Ele e seu surrado Fiat Uno. Vem puxar conversa, inteirar-se dos programas:
– Tem que bater, tem que bater [no prefeito atual]. Vai pra carreata amanhã? Vou lá no estúdio ver como estão os programas de rádio – Anuncia, num discurso caótico e apressado. Depois se afasta e desaparece na desolação do centro da cidade. O olho nervoso parece sempre duvidar do interlocutor.
Então, a caminhada curta e o retorno ao hotel. Lá, o incômodo dos possantes aparelhos de som das caminhonetes, a propaganda eleitoral que não cessa. Mas isso é o de menos. Na manhã seguinte, a partida, a libertação.
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Atualizado em: Qui 5 Ago 2021

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