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Crônicas de uma viagem eleitoral X

Nenhum comentário sobre a estreia do programa eleitoral. Tudo muito misterioso, esquisito, pouco profissional. Quase amador, até. Isto provoca uma inquietação, um desejo doido de regressar. Os rostos, pelas ruas, parecem hostis, mas isso não passa de uma sensação. As ruas, mesmo incandescentes, são desertas, amigáveis. Combinações, acertos, idas e vindas e, por fim, uma agenda de gravação ainda pela manhã. Atravessa-se a cidade – há sempre uma agitação no ar na sexta-feira, que antecede a feira-livre do sábado – e depara-se com a rua infestada de vegetação sertaneja do estúdio.
Lá, uma interminável espera. A agenda não se confirma, mas ninguém desmobiliza. Que fazer? A espuma do isolamento acústico exala um exasperante cheiro de mofo. O débil ar-condicionado apenas atenua o calor rijo. E o que resta? Um infindável passeio, para lá e para cá, num exercício ocioso e inútil. Sobra tempo para examinar os equipamentos – muitos instrumentos musicais – abandonados pelos cantos, acumulando poeira.
Aliás, ali, tudo parece acumular poeira. Mesmo as pessoas parecem impregnadas de uma poeira metafórica, apesar da agitação, dos movimentos, das línguas em riste entornando veneno sobre os adversários. Lá fora, na área interna, gatos arredios que se escondem no vão de uma escada, detrás de um monte de tranqueiras difícil de descrever: restos de material de construção, móveis antigos em desuso, sobras de tábuas serradas, equipamentos metálicos descartados pelos cantos.
Depois, a provação da tarde. O prefeito chega, examina todo mundo com ar desconfortável e vai gravar. Encadeia um discurso fluido, mas vazio. Lança olhares hostis ao produtor. E vai embora. Depois chega a locutora. Falta-lhe um dente da frente. Frenética, ditando os rumos da campanha, mobilizando deus e o mundo. Pelo menos na retórica. Nem lê o texto, vai logo gravando, tropeçando nas frases, sem entonação. Mas entende de tudo e nem hesita em desancar o texto, deplorar o redator. Aciona o vice-prefeito e a celebridade da imprensa que veio gravar um programa.
– Temos que mostrar C. E ouvir o povo, temos que ouvir o povo. Saber o que eles têm a dizer...
A fórmula burlesca parece prenhe de sabedoria. Mas ninguém se espanta com a sabujice, com o puxa-saquismo interesseiro. Pelo jeito, é regra por ali. Que fazer? Conservar o silêncio porque uma convicção interna comunica que aquilo é a gota d’água. A solução é despejar um sorriso condescendente, quase de escárnio: ninguém vai perceber o desdém. Fechado o programa e a caminho da emissora, a queixa do dono do estúdio.
– Para fazer o programa tem que ouvir o pessoal daqui. Tem que passar o texto para o pessoal daqui ajudar!
Como vingança sutil, a observação de que, caso se estabeleçam plenárias para forjar o roteiro do programa, nada vai sair.
– Ah, isso lá é verdade...
Bem no começo da noite aquilo finda. E vem uma alentadora sensação de ruptura. As calçadas acidentadas, o som estridente das caminhonetes possantes, a débil iluminação pública no lusco-fusco, nada daquilo martiriza. O que vem é uma indescritível sensação de liberdade. O passo se firma mais sobre as calçadas maltratadas porque a convicção da partida breve se afirma.
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Atualizado em: Sex 16 Jul 2021

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