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Crônicas de uma viagem eleitoral IX

Programa eleitoral pronto, a gravação retardava-se. O operador, arisco, movia-se para lá e para cá, sem enveredar por uma tarefa específica, tateando todas as superfícies. O resultado, óbvio, foi um atraso medonho. Faltavam oito minutos para o fim do prazo quando a mídia com o programa de rádio foi entregue à emissora – o dia estertorava detrás do casario baixo da avenida calçada, lançando sombras longas – e o sufoco findou. Pelo menos naquela tarde.
Como lidar com aquela completa ausência de profissionalismo? Qualquer comentário sobre o candidato rival atiçava a matilha, que abandonava suas atividades para ouvir ou comentar, com prazer mórbido, as torpezas atribuídas ao adversário. Áudios eram reproduzidos com avidez, expondo o caráter duvidoso, as entranhas daqueles que eles combatiam. Pelo menos era o que sustentavam em suas narrativas.
– Mexerico de interior – Pensava, tentando ajustar-se àquela realidade. Tolice pretender seriedade naquelas brenhas, esquecidas entre os espinhos. E aguardava terminarem aquela infindável prosa insossa.
Inquieto, o sujeito do estúdio não se firmava numa tarefa. Qualquer comentário o distraía; qualquer acontecimento desviava sua atenção; qualquer coisa era pretexto para parar e ir retardando a tarefa. As horas escorriam, implacáveis, o sujeito reclamava, mas provavelmente não atinava para as causas do atraso. Os aplicativos de celular, então, absorviam-no com suas súplicas sonoras.
O resultado foi aquela longa tensão que só acabou quando o dia findou numa mancha escarlate nos lados do poente. A emissora de rádio aonde foram entregar o programa ficava numa avenida tranquila. A luz triste dos postes afastava sem vigor a escuridão. Às vezes passava um automóvel com faróis escandalosos.
No mais, havia uma silencioso e esparso trânsito de pedestres. Ouviam-se os passos de quem se aproximava, conversas ao telefone. O painel da rádio, desbotado, era triste sob o crepúsculo. E, à distância, adivinhava-se os cumes arredondados da Matriz Católica: os fundos da igreja ficavam no começo daquela avenida.
– Vou andando. Sem problemas.  
Descartou a carona e aquele palrar para mergulhar na melancolia do fim de tarde. Nas padarias abertas, gente comprando pão. Nos bares acanhados, os frequentadores comentavam o cenário político. Pedestres movendo-se no ritual do retorno para casa, mas sem aquela azáfama, sem aquela agitação coletiva das metrópoles. Mesmo que, ali, não havia multidão: escassos passantes que retornavam das lojas mornas do comércio.
Agitação só nas cercanias do mercado. Lá, debatiam-se as eleições em altos brados. Moto-taxistas aguardavam passageiros. E os retardatários apressavam-se, esvaziando o centro da cidade. Às 19 horas, o centro da cidade estaria vazio. A luz das lâmpadas elétricas se refletiria sobre o calçamento luzidio. Vozes distantes violariam o silêncio. E escassos passantes atiçariam com vida aquela desolação.
À frente, no bairro que margeava a BR 324, a agitação do fim da tarde. Carretas e caminhões passando, incessantes. Nas lojas de autopeças, nos restaurantes e bares sórdidos, nos postos de combustíveis e nas borracharias, a agitação que precede a calmaria. No hotel, grilos, rãs e a monotonia habitual daquele fim-de-mundo.
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Atualizado em: Ter 6 Jul 2021

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