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Crônicas de uma viagem eleitoral VIII

Os dias iam se acumulando, iguais. E, aos poucos, a rotina se firmava, implacável. No começo da manhã, a caminhada em direção à padaria que fica na praça do centro da cidade. No caminho, destacando-se, sempre as torres arredondadas da igreja, imperiosas, crescendo à medida que os passos indecisos encurtavam a distância. A sujeira e o desgaste da fachada iam ficando evidentes, os detalhes ganhando nitidez. De perto, eram tristonhas, com seu tom amarelado, morto.
Sem correnteza, o J. também era monótono, previsível. A água escura, de sempre, imóvel. As pedras recobertas pelo limo seco. Os galhos espinhosos da vegetação sertaneja debruçando-se sobre a lâmina d’água, sacudindo mansamente com o sopro quente da brisa. O que rompia aquela monotonia era uma garça que, com graça, retardava-se sobre uma pedra aqui, outra acolá. Nos quintais limítrofes à margem do rio, os afazeres cotidianos da gente pobre que se arranchara ali.
Na temporada de trovoadas o rio encorpava-se, avançando pelas margens, invadindo casas, provocando calamidade. Só que, sob o estio perpétuo de setembro, nada lembrava estes arroubos. Esforçando-se, o observador notava as margens planas e deduzia que o rio avançava por ali, alcançando a estrada poeirenta que o margeava. Mas isso exigia muita abstração. No setembro que findava, o que havia era o J., sem correnteza, com os pontos mais profundos estáticos.
Aqueles exercícios de imaginação consumiam algum tempo. Mas o tempo sobrava ali. Usava-o para encorajar-se para as caminhadas sob o sol causticante, para projetar o desfecho das eleições que, no ano da pandemia, perdiam o fôlego, o entusiasmo natural que acompanha qualquer eleição pelo interior.   
À tarde, quebrando a rotina, uma reunião de pauta. Foi no saguão do hotel deserto. Mesas e cadeiras escuras, gastas, o ventilador de teto roncando forte, empenhando-se aflito para espantar aquele calor abrasador. Lá fora, cenário cinematográfico: a poeira e a desolação, o monótono rolar dos pneus sobre o asfalto fervente da BR 324, a gente que se entrincheirava nas sombras raras das 15 horas. Às vezes, um carcará bancava manobras sob o céu azul-acinzentado.
– Temos que fazer a pauta para D.S. Amanhã ele vai estar por aqui!
D.S. era apresentador de tevê. Estrela recrutada para uma incursão semanal na campanha. O rapaz, que conduzia a reunião, encantava-se com a perspectiva de orientar aquela celebridade. E tome detalhes da permanência do sujeito na cidade. A tietagem foi se estendendo reunião afora. O reflexo da luz do sol sobre o piso incomodava. E o ventilador bafejava um vento quente que ampliava a sensação de sufocamento. Esporadicamente enveredavam por um trecho útil de conversa. Mas, no mais, resvalavam naquela maledicência interiorana. Ou na tietagem.
Aquilo só findou quando os primeiros tons alaranjados anunciaram que, em breve, a tarde ia cair. Depois, a mesma rotina: o jantar depois de um percurso pela BR 324 às escuras, o retorno ao hotel e os mesmos pensamentos que voltavam, renitentes. Nas paredes manchadas, a procissão de formigas; no banheiro, os saltos acrobáticos das rãs; e o canto apaziguador dos grilos nas fendas escuras. Lá fora, o ronco dos motores ou um ensurdecedor jingle de campanha de um eleitor mais entusiasmado.
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Atualizado em: Qua 30 Jun 2021

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