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Crônicas de uma viagem eleitoral VII

Manhã e tarde se arrastando, sempre no quarto do hotel. Pouca novidade: a campanha morna, os atos raros, esporádicos. Restava, então, batucar um texto ou outro no teclado, aguardar o encadear das horas, as refeições que, somadas, desaguavam num outro dia. A gente indócil com o candidato indeciso, que não se animava a avançar. Prevalecia o tédio sob a indescritível claridade daqueles dias.
A diarista que limpava o hotel e os quartos chegava numa bicicleta vermelha, surradíssima, enferrujada. Assustava-se com qualquer aproximação. O silêncio e a escassez de hóspedes explicavam aquele comportamento? Não. Algo se passava ali. Era necessário investigar. Na próxima abordagem, a indagação:
– Há fantasmas por aqui?
– A dona do hotel passa a noite recebendo visita de defuntos. Aí eu fico o dia todo assustada aqui...
– É melhor ter medo dos vivos. Mortos não fazem nada.
– Sempre me falam isso, mas... – E as reticências produziam um universo de temores, fantasiosos.
Vieram, então, lembranças noturnas. Despertando esporadicamente pela madrugada, ouvia uma algaravia. Televisão? Alguma visita noturna que se retardava num interminável bate-papo? Nada disso. A mulher via gente desencarnada e passava a noite com elas. Lembro, num despertar qualquer, a frase nítida. “Esse pessoal aí é da campanha de C., estão trabalhando na campanha de C.”. Aturdido pelo sono, imaginei uma conversa qualquer, alguém que se retardava envolto no papo.
Nas noites anteriores, o sono era importunado por estranhos estalidos no forro do teto. Julgava obra de algum passarinho, perambulando por ali. Pelo jeito, estava enganado. Depois da revelação, a frequência dos estalidos diminuiu. Tornaram-se batidas esporádicas, que decidi ignorar. As sessões prolongavam-se: uma delas estendeu-se até o alvorecer. As vozes só se calaram quando o primeiro pássaro piou na aurora.
Aquilo explicava a curiosa solidão daquela mulher. Por ali passavam apenas visitantes ocasionais. Não havia família, nem a rotina comum da gente do interior. Era o estigma sobre os espíritas, bem cristalino por ali. Naquele dia-a-dia enfadonho, o fato pitoresco tinha ar de novidade, até de aventura. Quem também se aventurava ali era o sujeito grisalho, candidato, que farejava espiões. Numa tarde, ele arremeteu, peremptório:
– Temos que ganhar a eleição para combater o comunismo!
– O comunismo acabou, fulano. O que tem aí é o capitalismo. E só ele – Reagiu a mulher, com insuspeita sabedoria. O sujeito mastigou algumas frases, mas acabou se rendendo; depois saiu pelo corredor estreito, falando alto, repisando seus fantasmas interiores.
À noite, aquelas batidas renitentes e o tranco esquisito no aparelho de ar-condicionado diminuíram. Mas as palestras continuaram estendendo-se madrugada afora. Para ouvi-las, bastava acordar sob o silêncio profundo. Às vezes, renovava-se o freio agudo de uma carreta que se arriscava àquelas horas.
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Atualizado em: Ter 22 Jun 2021

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