person_outline



search

Forjando um escudo parte 2

Após o dia em que foram apresentados, Dante aprendeu muito sobre seu novo mestre.   Giovanni era um homem incrível, brilhante, com um poder de oratória único, mas para Dante ele também era alguém muito peculiar. Ao ser convidado para se hospedar no castelo, não apenas declinou do convite, como também escolheu viver em uma pequena cabana abandonada na floresta, a qual ele fez questão de reformar com as próprias mãos. Tudo isso acompanhado de perto por um Dante intrigado. 
Ao término da reforma, o jovem  acreditava que finalmente começaria suas aulas. Entretanto, novamente viu seus sonhos destruídos. Giovanni dedicava todo o seu tempo aos passeios pela floresta, além de escrever, ler e fazer esculturas em madeira. Assim os dias viraram semanas que logo meses  e agora o jovem encontrava-se a ponto de ter um ataque de fúria, mas se conteve lembrando de todos os esforços que seu pai já havia feito para encontrar quem o ensinasse, então preferiu ter uma conversa franca com seu mestre.            
Ele acreditava ter conseguido juntar bons argumentos e era hora de colocar as cartas na mesa. Era  filho de Theo, O Conquistador, e um dia seu irmão Enrico assumiria o manto de Lord Supremo. Quando esse dia chegasse, Dante deveria estar lá, pronto para servi-lo no que precisasse,  provando, assim, ser digno do nome di Savoie. Por isso não tinha tempo para perder cheirando as flores. Seu povo precisava de guerreiros. É o que ele seria ou morreria tentando. Ao alcançar a cabana novamente, encontra Giovanni sentado na varanda com uma faca e um pedaço de madeira fazendo o que parecia ser um cavalo.
— Olá, mestre Dante. Chegou bem na hora de ver minha nova obra prima. Decidi fazer meu próprio jogo de xadrez e essa é a primeira peça. O que lhe parece? Bom, não é? Tenho certeza que logo vai estar pronto e então poderemos jogar juntos. O que me diz?
Aquelas palavras trouxeram à tona toda a insatisfação, a raiva e a tristeza que Dante  já havia sentido. Lágrimas escorreram pelo seu rosto ao pensar que seria para sempre motivo de chacota para todos os clãs e a vergonha de sua família. Em sua visão do futuro, era possível enxergar Luigi e Enrico cavalgando, invencíveis, para grandes batalhas enquanto ele ficava junto de velhos, mulheres, crianças e doentes, e depois o retorno dos vitoriosos sendo saudados, ao passo que ele seria jogado ao esquecimento.
Giovanni se surpreende com as lágrimas do aluno e caminha até Dante, pousando sua mão no ombro do rapaz, tentando acalmá-lo. Dante, por sua vez,  se afasta enquanto enxugava as lágrimas. Era possível ver na face do jovem uma mistura de ódio e decepção pelo homem diante dele.
— O que aconteceu, jovem mestre? Alguém lhe fez algum mal? Conte-me, sei que posso lhe ajudar. 
Dante começa a rir do que parecia ser a piada mais engraçada que já tinha ouvido.
— Me ajudar? Há meses que eu espero a sua ajuda! Após ouvir suas palavras na estalagem eu pensei que finalmente teria uma chance de ser grande, de me tornar um guerreiro de verdade, mas agora vejo que era tudo mentira. Você não passa de um aproveitador que deve ter escutado as façanhas de outros e tomado-as para si. Tudo o que faz é caminhar, brincar com madeira, olhar as estrelas e ver os dias passarem. Creio que aquele dia não passou de um truque para me impressionar e iludir. Quem sabe tudo não faça parte de um plano pernicioso do De Luca para me humilhar mais ainda? Eu irei agora mesmo relatar tudo ao Lord Theo e acabar com toda essa farsa.
Dante se vira para partir, mas, antes que dê o primeiro passo, algo passa voando junto ao seu rosto. Uma faca de cabo simples surge em uma árvore à sua frente. Assustado, ele se vira para Giovanni e sente o medo tomar todo o seu ser. O homem calmo e relaxado com que estava
falando instantes atrás já não estava mais ali. Em seu lugar, uma  criatura de feições duras e olhos penetrantes o estava encarando de forma completamente  ameaçadora.
— Parece que o enganado aqui fui eu, afinal. Pensei que você era inteligente, alguém que valesse a pena ensinar o que aprendi durante todo esse tempo. No entanto,  vejo que não passa de mais um garoto estúpido com sonhos de grandeza que nem consegue enxergar um palmo adiante do próprio nariz. Porco dio, que decepção!
 
Dante não podia acreditar no que acabara de ouvir. Aquele fanfarrão o havia insultado após se aproveitar de sua família. Tamanha ofensa não podia ficar impune, nem que fosse ao preço de sua vida. Ele saca a espada que trazia junto de si e se coloca em posição de luta, desafiando Giovanni. Ao ver a cena, Giovanni não consegue se conter e um sorriso surge em seu rosto. Ele caminha até a árvore onde a faca estava fincada, passando despreocupadamente ao lado de Dante, como se este não fosse nada.
 
— Muito bem, bambino, vou lhe dar uma chance. Para ser justo, vou usar apenas esta faca. Se você conseguir me tocar com sua espada, vou considerar que não tenho nada a lhe ensinar, pedirei seu perdão e vou embora. Aceita?
Dante permanece calado, mas acena, concordando com os termos.
— Então, o que está esperando? Ataque! Ou está com medo?

 Sem perder tempo, Dante ataca, tentando acertar o pescoço do adversário. Este apenas dá um passo para o lado e responde acertando um tapa na nuca do jovem.
 
— Lento demais. Conheço homens que o teriam matado três vezes. Vai se esforçar mais ou vai começar a chorar novamente?
 
O jovem volta à carga enquanto tenta estocar o peito de Giovanni, que defende com a faca e se aproxima,  socando o estômago de Dante, que cai de joelhos, soltando a espada enquanto tenta respirar.
— Fraco. Não aguenta nem ao menos um soco.  Onde está toda aquela coragem? Onde está o jovem cheio de espírito e vontade de se provar?
 
Giovanni se afasta, ficando de costas para Dante, que se recupera e tenta uma nova investida, logo contra atacada com uma rasteira, levando-o novamente ao chão.
 
— E ainda por cima é um covarde que ataca pelas costas. Tem certeza que é filho de Theo? Enrico jamais faria algo assim.
 
O comentário de Giovanni faz o jovem di Savoie  ir à loucura e ele começa a atacar de forma incontrolável enquanto usa todas as suas forças. Quando sente que elas estavam minguando, Dante tenta um último ataque, mas o poderoso Mestre já antevera e bloqueou,  desarmando o adversário e parando-o com a faca encostada em seu  pescoço.
 
— E, com isso, acabamos.  Espero que esteja satisfatoriamente humilhado.
 
Dante cai de joelhos, esmurrando a terra, enquanto novas lágrimas caem. Ele grita ao reconhecer a própria fraqueza e inutilidade. Giovanni, com toda a calma, caminha até o poço, recolhe um balde com água e joga em Dante para acalmá-lo.
 
Algum tempo depois, de roupa seca e mais envergonhado do que nunca, Dante sai do quarto da cabana para encontrar seu mestre que  estava de frente à lareira enquanto bebia uma caneca de vinho. Sobre a mesa, a espada usada na luta repousava. Ao ver Dante, Giovanni estende a garrafa de vinho para o jovem, que nada diz. Apenas  se  aproxima, servindo-se e observa  a lareira onde  as chamas dançavam furiosas enquanto consumiam a lenha. O tempo passa até que se torna insuportável o silêncio.
— Mestre, se o senhor é tão forte, por que não me ensina? Por acaso acredita que eu não sirvo? Talvez, como os outros, você prefira uma matéria-prima melhor, como  meu irmão?
— Bambino, do que está falando? Eu venho lhe ensinando desde o primeiro dia que nos conhecemos.
— Mas tudo o que fazemos é caminhar pela floresta, conversar, ler… Eu já decorei milhares de textos sobre os grandes generais, por exemplo. Nunca treinamos usando espadas, lanças ou qualquer outra arma. Como eu posso aprender dessa forma?
O olhar de Giovanni continua duro, o que faz com que Dante abaixe a cabeça em vergonha.
—  Me diga, em  qual época do ano estamos? 
— Para que? 
— Apenas responda.
O tom de voz de Giovanni deixava claro que não haveria espaço para discussões a partir de agora.
— Outono.
— É muito frio ou chuvoso?
— Não é muito frio, mas venta muito e quando chove é sempre uma tormenta.
— Se eu quisesse me esconder na floresta, quais animais vivem aqui? Onde posso achar água e um abrigo?
— Eu não sei.
— Quantos homens na vila sabem usar uma lança ou espada? 
— Eu não sei.
— Quantas crianças tem na vila? Quais os nomes de seus pais? Quantas famílias cada clã tem? A maioria é homem ou mulher? Em que territórios se distribuem e quantas pessoas estão sob seus domínios?
— E..Eu não sei. 
 
A cada resposta negativa que Dante dava, ele se sentia menor e mais fraco. Seu desejo era que tudo aquilo acabasse para que ele pudesse partir e nunca mais voltar.
— Seu irmão foi abençoado pelos deuses e forte e rápido tem muitos que o comparam a Aquiles e provavelmente estão certos. Ele será um grande  guerreiro, e você nunca será como ele, essa é a verdade.
— Então eu estava certo senhor…
— Cale-se ragazzo, eu disse que você não será como ele, entretanto será um grande guerreiro à sua  própria maneira.  Dante você pode não ter um corpo tão forte ou a agilidade de Enrico, mas  sua mente é forte e usando ela direito lhe tornará um guerreiro poderoso até mais que o próprio Lord Theo. Você  deve treinar sua mente para ser mais forte e afiada e quando chegar a hora usará esse pensamento centrado, frio e estratégico para derrotar seus inimigos. Cada vez que entramos na floresta ou fomos à vila, fiz questão de aprender tudo sobre ambas e sobre seus habitantes para ter vantagem sobre meus inimigos. Pensei como faria se eu tivesse que atacar ou defender  o território e o que cada grande general faria se estivessem em meu lugar. Conhecimento, bambino, lhe dá a força que lhe falta, por enquanto. A paciência lhe dá a oportunidade que teus inimigos dispensam. Não se compare com os outros, pois em você há qualidades que eles também desejam e no seu tempo você os alcançará  e os vencerá.
 
— Mestre Giovanni, me perdoe. Sou um tolo que age sem pensar. Eu não deveria ter duvidado do senhor e menos ainda lhe atacado daquela forma. Compreendo e aceito se não quiser mais me ensinar.
— É verdade. Você é um tolo, agiu como tal e não deveria ter feito isso. Não tem porquê eu lhe ensinar. 
 
Dante sentia o peso de cada palavra dita pelo homem e sabia que ele merecia aquilo. Pelo menos agiria como um di Savoie e enfrentaria as consequências de cabeça erguida.
 
— Mas finalmente foi verdadeiro com seus sentimentos, isso é o que importa. Mas nunca mais duvide dos meus ensinamentos ou seja petulante daquela forma. Caso contrário,  seu castigo não será apenas o orgulho ferido e  ficar todo encharcado. 
 
Dante olha surpreso para o homem diante dele, que sorria feliz por ter conseguido lhe pregar uma peça.
— Obrigado, mestre, muito obrigado. Eu juro que não vou decepcionar.
 
Entre lágrimas e sorrisos, Dante não conseguia esconder  a alegria.
 
— Não me agradeça ainda,  ragazzo. A partir de amanhã vou deixar de ser bonzinho e lhe mostrar o inferno,  para ter certeza que  possa ao menos sobreviver. Fui claro?
— Sim, Mestre.
— Também avise ao grande Lord que a partir de hoje você irá morar comigo.
— Morar aqui?
— Sim. Algum problema? Quer ficar com seus brinquedos no castelo?
—  Não.
— Ótimo. Então termine de beber e vá fazer o que lhe mandei. Não me faça perder tempo.
 
Rápido como uma raposa, Dante termina sua bebida e sai porta afora, feliz por finalmente ver um futuro para si.
Pin It
Atualizado em: Seg 7 Jun 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222