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Crônicas de uma viagem eleitoral VI

Naquele lento começo da semana pouco havia o que fazer. A campanha concentrava-se no final de semana, as restrições da pandemia desencorajavam eventos às segundas-feiras. O centro da cidade vegetava numa quietude exasperante. O sol ardente, – como sempre – pouca gente circulando pelo centro da cidade ou pelas ruas estreitas que mesclavam comércio e imóveis residenciais. As infindáveis caminhadas – sempre sobre a ponte velha, o J. manso, com suas águas escuras – conduziam aos mesmos lugares.
Logo depois da ponte havia um frenético carregar e descarregar de caminhões-baú. Gritos, gestos enérgicos, manobras estridentes e o vaivém de trabalhadores atarefados. Bem do lado, ficavam dois prostíbulos e uma venda miúda, abastecida de cachaças com ervas aromáticas. Um idoso – displicente, com a máscara no queixo – bocejava, aguardando clientela.
Os prostíbulos são relíquias de um tempo extinto. Paredes pintadas de rosa, manchadas por múltiplas infiltrações, descascando antigas pinturas. Mesas plásticas daquelas de cervejaria, um recipiente para manter a cerveja gelada sobre cada uma delas. Espaço minúsculo, estreito, úmido.
Lá no fundo, um balcão de alvenaria – também rosa – a geladeira que abastece a clientela e, mais atrás, uma cortina de tecido que comunica com os fundos. Provavelmente lá atrás ficam os quartos. Uma lâmpada vermelha – acesa o tempo todo – desfazia qualquer dúvida sobre a especialidade do estabelecimento.
Magra, branca e com cabelo curto, uma delas atende a clientela que, às vezes, para ali só para beber uma cerveja e espantar o calor. Num fervilhante começo de noite de sexta-feira, bêbados aglomeravam-se à frente dos prostíbulos. Um deles – mal das pernas – esmerava-se em declarações de apreço e amizade por uma das meninas, que agradecia o obséquio e tentava despachá-lo, com incontida impaciência. Depois ele saiu, trôpego, bordejou o rio e foi beber a saideira num botequim de telhado baixo e som estridente.
O velho parecia personagem mais notável. Lá dentro, uma penumbra perpétua que nem o sol esbranquiçado do meio-dia espantava. Prateleiras antigas, abarrotadas de garrafas diversas. Conhaque vagabundo, uísque barato e vinho de péssima qualidade despontavam. Mas o que se sobressaía mesmo eram as garrafas com cachaça mergulhada em ervas aromáticas. Havia uma imensa variedade de folhas imersas nos mais diversos tipos de garrafa.
Sempre à frente, ele aguardava a clientela entretido com o vaivém de gente, de veículos, de carroças, de motocicletas. Sábado, ali, havia clientela cativa: a gente da zona rural e dos municípios próximos aparecia para bicar uma aguardente, jogar conversa fora. O clima, as safras, a renhida política local eram os temas que se intuíam naqueles diálogos repletos de gestos e olhares que compensavam o vocabulário escasso. A voz alta e o tom áspero se sobressaíam.
Aquelas observações distraíam, ocupavam. O dia escorria nestas tarefas paralelas. Problema era a noite, quando todo mundo se recolhia muito cedo. Restava, então, a profunda melancolia da luz débil sob os postes, o canto onipresente dos grilos, o silêncio interrompido só pelos motores dos automóveis.
Na BR 324, restavam só os bares suspeitos abertos. Mesmo o fluxo de carretas – com suas freadas estrepitosas – refluía depois das oito da noite. Aguardava-se, então, o sono, examinando as paredes azuis do quarto, pela enésima vez.
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Atualizado em: Qua 2 Jun 2021

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