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O incompreendido niilismo

     Alguns dias atrás eu estava sendo xingado e entre adjetivos usados, um deles me chamou a atenção (embora não de forma imediata): seu niilista! O entendimento geral é que a palavra descreve uma sensação de desvalia pela vida, falta de objetivo e até de vontade e uma pessoa com estes atributos é, claramente, um ser inferior. Sem querer ser professoral, arrisco-me a fazer um arrazoado sobre o assunto, de forma que o leitor possa evitar este tipo de embaraço na próxima vez que quiser enxovalhar alguém.
     Ninguém menos que Protágoras de Abdera, em V a.c, sentenciou: “o homem é a medida de todas as coisas”, de certa forma desafiando a ideia socrática que existe uma verdade última, completa, eterna e imutável. Segundo ele, é o sentido que o homem dá aos aspectos da realidade que conferem sentido e valor para o mundo e já que não existe uma verdade absoluta, o homem sábio é aquele capaz de escolher qual a verdade temporária mais adequada para o momento.
     Milhares de anos depois, em uma crítica à visão de Kant (que dizia que tudo o que podemos vir a conhecer é limitado por nossa capacidade sensorial), Jacobi o acusou de niilista pois isto eliminava o transcendente e abria espaço para um relativismo moral. Foi na Rússia que o termo começou a ser moldado de forma mais clara, no poema Pais e Filhos de Turguêniev: ‘um niilista é um homem que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite, como princípio de fé, nenhum princípio, por maior que seja o efeito que o envolve’. Em um ambiente autoritário e servil com o Rússia da época, não seria estranho imaginar que o sentimento serviu de combustível para os movimentos que se opunham ao sistema czarista e já neste momento, grupos que se intitulavam niilistas cometiam crimes e assassinatos visando alcançar seus objetivos (como denunciado por Dostoievsky na obra Os Demônios). A ideia atinge seu ponto mais alto na visão ácida de Nietzche, que despreza a visão da sociedade em que vivia e sua incessante busca de racionalismo e fervor religioso: estes falsos ídolos limitariam a expressão mais genuína do ser humano e o tornariam decadente. encontrar uma forma de libertar-se destas muletas metafísicas passou a ser seu maior objetivo. Possivelmente através dos trabalhos de Sartre, iniciou-se um tímido resgate do niilismo como virtude, como a capacidade de identificar sua independência, como forma de encarar a responsabilidade pela existência (“O ser humano é algo por meio do qual o nada vem ao mundo”).
     Quantas “verdades imutáveis e eternas” já foram derrubadas e substituídas por outras que, mesmo se pretendendo também eternas, caíram? Já foi muito claro e acima de qualquer debate que mulheres não poderiam (nem deveriam) votar, que e o homem foi criado exatamente com a forma que tem hoje, que o Sol giraria em torno da Terra, que os anjos eram responsáveis por manter os planetas em suas órbitas, que os reis teriam poderes e autoridades inquestionáveis. Todas estas verdades, uma a uma, caíram, por força e mérito de pessoas que lutaram para fazer valer outras ideias, pessoas que não se curvaram à autoridade (nas palavras de Turgueniev). Talvez não fossem niilistas, talvez só estivessem niilistas mas hoje caminhamos felizes nas estradas que eles pavimentaram com árduo esforço, com dor, sangue e lágrimas. Acredito que seria mais coerente de nossa parte render homenagens ao invés de críticas ferozes.
     Possivelmente é mais fácil respeitar uma verdade se ela for imaginada eterna, divina, completa, em oposição à verdades adequadas ao momento, transitórias, efêmeras. Talvez o faraó não tivesse conseguido a sua desejada pirâmide se o argumento fosse que seu poder era transitório, terreno e limitado ao que a burocracia militar poderia garantir. É desta forma, ao meu ver, que continuamos repetindo e fingindo acreditar neste mantra ao melhor estilo Vinícius de Moraes: ‘que seja eterno enquanto dure’. O lado obscuro desta obsessão é que cada vez que temos que ajustar um item no livro das verdades, é necessário que pessoas morram, é necessário violência, pancadaria, prisões, expurgos, assassinatos, tortura, humilhação. Até que a nova verdade seja percebida por parte da sociedade, momento no qual ela se torna uma aspirante à verdade e, eventualmente, uma nova verdade eterna. Estimo que daqui a dois ou três papas, a Igreja Católica vai não só abençoar relações homo-afetivas mas vai reclamar a autoria do movimento que as regularizou, em um processo chamado fagocitose ideológica. Não fossem os niilistas, afrontando as autoridades (que emanam verdades), viveríamos ainda em feudos ou talvez cavernas, ironicamente repetindo, com certa razão e buscando autoconvencimento, que a caverna seria muito melhor que dormir ao relento. Entendo como um sinal de maturidade compreender a existência humana dentro dos limites da realidade, sem criar amigos invisíveis, um papai para cuidar de mim, um lugar de castigo e punição para quem foi malvado e um lugar bom (embora pela descrição, bem monótono) para quem foi bom no grande jardim de infância da vida. Os niilistas não tiraram o sentido da vida: eles o desnudaram para que todos possam ver.

     Voltando ao esculacho e concluindo: “Sim, niilista. Obrigado por reparar.”
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Atualizado em: Seg 31 Maio 2021

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