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Contos da Lua

Forjando um escudo part/1
A porta da velha estalagem se abre. O vento frio invade local, anunciando a chegada de mais  um duro inverno na região. Uma misteriosa figura encapuzada caminha para dentro e se acomoda numa mesa mais afastada. Olhares convergem para ela.
O recém-chegado vestia um manto que sem dúvida já teve dias melhores. Suas botas enlameadas e gastas mostravam que não era da região. Alguns dos homens que bebiam ali ficaram em alerta. Não era novidade que desertores, ladrões e até alguns mouros apareciam de vez em quando naquelas terras. Caso a pessoa misteriosa fosse um dos três tipos, receberia o tratamento especial que a vila reservava para esses convidados indesejados.
Ao sentar-se a figura coloca uma espada sobre a mesa. No pomo, junto ao cabo desgastado, um espaço vazio onde outrora deveria pousar uma joia. O tempo passa e todos voltam suas atenções para o que estavam fazendo antes. Apenas um homem continuava tenso.
Guido, o dono da estalagem, era um homem obeso que aparentava ter 60 anos. Ele havia chegado ao vilarejo há 20 e poucos anos a convite de um primo seu que dizia não haver lugar melhor para se viver. Era verdade. O senhor daquelas terras era um homem justo e honrado que cuidava bem de seus servos. Seu nome era Theo e mesmo a família sendo… bom, diferentes, na opinião de Guido eles sempre trataram todos de forma justa, não importando sua origem. Claro que também tinham problemas, como em qualquer outro lugar, e a especialidade de Guido era farejá-los. O misterioso forasteiro sentado no fundo de sua estalagem fedia a um dos bem grandes. Mesmo a contragosto, Guido caminha até sua mesa.
— O que vai querer, estranho?
— Comida, vinho e, se tiver algo parecido aqui, um quarto.
— E como pretende pagar por tudo isso? Vou logo avisando que aqui não é lugar para mendigos, então trate logo de sair… 
Em um movimento de sua mão, o homem faz três moedas de ouro rolarem sobre a mesa, parando diante de Guido que saliva de cobiça.
— Comida e vinho!
— Sim, claro, cavaleiro. Imediatamente.
— Há também um cavalo lá fora. Mande alguém cuidar dele e levar minhas coisas para o  quarto.
— Agora mesmo, meu senhor. Marco! Marco! Onde está esse maldito moleque? Guido se afasta indo para o interior da estalagem enquanto gritava ordens.
Minutos depois um prato de cozido fumegante é colocado diante do estranho que retira o capuz, revelando um homem maduro de rosto endurecido e com cabelos negros. Seus olhos castanhos revelavam uma tristeza profunda. Enquanto o homem comia, um rapaz muito forte de cabelo castanho se aproxima e sem cerimônia puxa uma cadeira, sentando-se à mesa e encarando com desdém. O jovem à sua frente era como tantos outros que vira morrer nos últimos anos, na guerra. Era orgulhoso, forte e crente que era um presente de Nosso Senhor para o mundo. Simplesmente mais um fanfarrão que ainda não conhecera nem o calor do corpo de uma mulher.
— De onde você vem, amigo?
— De longe. 
— Sei. É sempre bom termos amigos, então estava pensando se um cavaleiro tão afortunado não estaria disposto a pagar uma bebida para seus amigos.
— Eu não tenho amigos. E se tivesse eles não seriam da sua laia, garoto.
— Como ousa me ofender? Sabe quem eu sou? Eu sou Luigi De Luca e exijo que se desculpe neste momento, senão o farei se arrepender. 
O silêncio do homem era insuportável. A raiva de Luigi crescia a cada segundo, levando-o a tocar na espada que trazia junto de si. O homem parecia indiferente à ameaça diante dele e continua comendo calmamente. A atitude faz com que todos no lugar rissem. Luigi se enfurece ainda mais e derruba a comida que estava sobre a mesa. O estranho pega a espada que estava sobre a mesa e olha para o garoto, fazendo-o sentir calafrios.
— Ragazzo, eu já conheci gente do seu tipo antes e se não for embora agora, juro em nome de Deus que o enviarei para junto deles. 
Luigi estava  encurralado. Conforme o homem se levantava, parecia tornar-se um gigante diante de seus olhos, o assustando de tal forma que seu desejo era fugir. Mas isso já não era possível. Toda a gente em volta ouvira suas palavras e se ele recuasse agora o nome de sua família seria manchado. Ele não podia permitir que isso acontecesse. Era preferível a morte a tal desonra. Justo quando Luigi decide se lançar contra aquela muralha em forma de homem, uma voz o faz parar.
— De Luca, como se atreve a criar balbúrdia nas terras de Lord Theo?
Parado junto à porta, um jovem rapaz de olhos cinzentos presenciava o desenrolar dos acontecimentos. Enquanto ele andava ao encontro de Luigi, as pessoas em volta se curvavam  em respeito. Um sorriso era visível no rosto de Luigi, que recobra a coragem.
— A que devemos a honra de receber a ilustre visita de Dante di Savoie, o herdeiro do Conquistador? Ah, é verdade, você nasceu uns minutos depois do verdadeiro herdeiro.
Dante para diante de Luigi 
— Os meus motivos para estar aqui não lhe dizem respeito, Luigi. Entretanto, quero saber com que direito ameaça a vida desse viajante.
— Eu não lhe devo respostas ou qualquer outra coisa, fedelho. E se não fosse por seu pai obrigar a minha família a jurar lealdade, eu teria o imenso prazer de separar sua tola cabeça do resto do corpo inútil aqui e agora. 
— Verdade? Pois eu gostaria de lhe ver tentar. 
A mão de Dante repousa sobre a espada em sua cintura. Contudo, a mesma determinação de suas palavras não era vista em seu olhar. O Sorriso de Luigi cresce e um brilho perigoso surge em seus olhos.
— Ha, ha, ha! Muito engraçado. Não sabia que Lord Theo tinha um novo bobo em sua corte.
Eu jamais lhe daria a honra de me enfrentar. Talvez seu irmão. Esse sim é um homem digno do nome que carrega. Então você e esse forasteiro podem ficar felizes, pois tenho coisas mais importantes para fazer do que perder meu tempo com vocês.
Rapidamente Luigi caminha para a saída, seguido pelos outros membros da família. Dante deixa um suspiro de alívio escapar ao perceber que tudo tinha acabado bem e se vira para partir.
— Obrigado. A voz do homem faz com que Dante se assuste. Por um momento havia esquecido dele.
— Não precisa agradecer, senhor. Luigi é um vassalo de nossa casa. É nossa obrigação evitar que ele faça mal a qualquer pessoa.
— Bem, deixe-me agradecer assim mesmo. Permita que lhe pague uma bebida. Eu insisto. 
O homem sinaliza para que ele se sente e pede para Guido trazer mais vinho e outra caneca. Após alguns goles, o homem olha para Dante, como se o avaliasse.
— Perdoe a minha falta de educação, jovem mestre, mas qual era o significado das palavras do brigão?  Dante entorna o vinho, coloca a caneca vazia na mesa e parece encolher.
— É aquilo mesmo que ele disse. Como o senhor é novo por aqui, não sabe, mas meu pai é o Lord Supremo destas terras e todos juraram lealdade a ele. O Senhor abençoou meu pai com dois filhos. Somos gêmeos. Meu irmão já venceu até mesmo adultos em combates e disputas e sem dúvida ele será um guerreiro maior até que nosso pai. Mas, diferente dele, eu não tenho tanta aptidão para a espada e nunca venci nem ao menos um treino contra outros da nossa idade. Eu simplesmente não fui feito do mesmo material que ele.
— Isso é ótimo. Dante levanta a cabeça, surpreso com aquelas palavras. Ele se depara com o olhar sério daquele homem que parecia satisfeito de alguma forma.
— Por favor, não brinque com isso, senhor. Quem gostaria de viver dessa forma? Ser uma erva daninha quando deveria ser um grandioso pinheiro?
 — Homem, não se deprecie tanto. Deixe-me lhe contar uma coisa: apenas quem conseguir enxergar o seu real valor terá a capacidade de valorizar quem você é. O pinheiro é uma árvore frondosa e imponente, de fato. Mas veja a resiliência das ervas rasteiras que crescem até mesmo nos lugares mais inóspitos. Elas podem ser vistas como ervas daninhas ou um arbusto qualquer, mas nas mãos corretas podem tornar-se valiosos elixires que salvam vidas. Elas são completamente diferentes do grande pinheiro, mas em sua forma tão discreta guardam sabedoria e valor.
A conversa segue noite adentro, passando pelos mais diversos assuntos, até que ambos percebem que eram os únicos no local, além de Guido, que dormia apoiado no balcão.
— Está quase amanhecendo e devo partir. Obrigado pela conversa.
— Não agradeça, jovem mestre. O senhor respondeu a todas as minhas dúvidas e confirmou que fiz a escolha certa.  
— Fico feliz por ter sido útil e espero que possamos nos ver novamente.
— Sim, eu também espero. Os dois homens se despedem e Dante retorna ao castelo.
Dias depois, enquanto estava na biblioteca da família, uma batida na porta rompe a sua concentração.
— Entre. Uma serva para a porta e curva-se antes de prosseguir.
— Mestre Dante, vosso pai,  Lord Theo, o aguarda no salão.
— Obrigado, Ana. 
Dante recoloca o livro no lugar e vai ao encontro de seu pai, resignado. Ele já havia perdido as contas de quantos mestres Theo havia trazido, na esperança de torná-lo um guerreiro. Ele entendia a preocupação do pai. Ano após ano, hordas dos mais diversos povos atacavam aquela região, ameaçando a vida das pessoas que ali viviam e confiavam neles. Era de se esperar que os filhos de Theo fossem ao menos bons guerreiros e não apenas eruditos. Uma vez seu irmão Enrico brincou, dizendo que bastava deixar que Dante palestrasse sobre os pensamentos de Aristóteles e todos os bárbaros fugiriam assustados ou cairiam no sono e a vitória seria certa. Enquanto caminhava, Dante passa por uma janela e vê seu irmão praticando com o arco. “Por que somos tão diferentes? Se ao menos…” Dante interrompe o pensamento e recorda as palavras do viajante na estalagem. Chegando à porta do salão, Dante aguarda ser anunciado. Ao entrar, encontra Theo acompanhado de um homem elegante, trajando uma adornada túnica, que olhava pela janela.
— Mandou me chamar, Lord Theo? Ele fala após fazer uma reverência.
— Sim. Aproxime-se, Dante. Quero apresentar um velho amigo que voltou há pouco tempo  e, atendendo ao meu pedido, veio aqui para lhe ensinar as artes da guerra. Acredito que ele será de muita ajuda nos seus treinamentos e estudos de estratégia.
— Muito prazer, cavaleiro. Eu sou Dante di Savoie e será uma honra aprender o que o senhor tem a me ensinar. O homem se vira e o rosto de Dante ilumina-se de surpresa.
— Muito prazer, mestre Dante. Eu me chamo Giovanni Ricci e tenho certeza que também aprenderei muito com o senhor. O novo mestre que seu pai havia chamado era o viajante da estalagem.
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Atualizado em: Qui 27 Maio 2021

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