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Crônicas de uma viagem eleitoral V

Domingo é dia bom para observar detalhes de qualquer lugar. O silêncio e a quietude favorecem a tarefa. Sobretudo no começo da manhã. Só os insistentes – mas acolhedores – pios dos pardais se mantinham a cada passo. A ponte velha sobre o rio J. força um inusitado ordenamento do tráfego: mão-e-contramão, mas só passa um carro de cada vez; quem chega depois, tem que esperar a travessia de quem vem no sentido contrário.
Só que, naquela radiosa manhã de domingo, os automóveis eram raros. O silêncio do rio, com suas águas escuras, inertes, fazia-se mais intenso. Às margens, debruçando-se sobre as pedras arredondadas, o verde espinhoso da vegetação catingueira. Largo de 150 metros sob a ponte, o rio some logo, em curvas caprichosas nas duas direções.
Mais além, a rua poeirenta, sem pavimentação, e os bares que atraíam bêbados ruidosos. Mas, naquela manhã, prevaleciam os silêncios que sucedem as animadas noites de sábado regadas pelo álcool. À distância nota-se a fachada acanhada de um dos bares, escuro, com o telhado malcuidado inclinado num ângulo muito agudo.
No centro da cidade esporádicas farmácias abertas, com os balconistas preguiçando de tédio. A igreja, com suas duas torres arredondadas, cujo amarelo desfazia-se com a ação do tempo, permanecia fechada. O serviço de autofalantes nos postes permanecia mudo. Só os moto-taxistas, na eterna espera por clientes, sustentavam uma algaravia:
– Agora o voto é de protesto. Pode comprar o voto, mas o voto vai ser de protesto!
– Na outra eleição também falaram isso. E veja o resultado!
Eram dois que, mais exaltados, sustentavam um debate. Nos recortes de conversas colhidos, percebia-se que o dinheiro prevalecia como tema: quem compra mais, quem roubou mais, quem tem maior patrimônio, quem deve mais e por aí afora. Isso se espraiava e, pelos botequins, nos encontros ocasionais, nos papos entre vizinhos, era o que se abordava. Atacar as desgraças que afligiam a população era estratégia secundária. Ou, sequer, figurava naquelas acaloradas discussões.
Pausa para um café no “Restaurante do Paulista”. Fica às margens da BR 324. Ambiente engordurado, com móveis desgastados e prateleira de vidro com garrafas de aguardente, conhaque, uísque, vinho barato. Maços de cigarro de marcas contrabandeadas contracenavam no caixa. Numa mesa, um sujeito desdentado atracava-se com um imenso osso de mocotó com farinha. Ao seu lado, o cozinheiro desancava uma fulana ausente:
– É uma caloteira! Pode chamar de caloteira!
Ao meio-dia almoço num dos botequins fétidos do lado do hotel. Numa churrasqueira, sapecavam pedaços de carne de boi, de porco, linguiças lustrosas. A fumaça gordurosa, azulada, dispersava-se pelo ambiente, escurecendo o teto e os ladrilhos da fachada do restaurante.
– Ah, eu morei lá em F.! – Informou o sujeito que sapecava as carnes e trajava uma camiseta surrada do Esporte Clube Bahia. Agora, assistia a vida passar ali, defronte à BR 324, com seu trânsito incessante, com sua poeira manchada de óleo, com a caatinga perfeitamente plana estendendo-se detrás do casario da Bela Vista.
Depois veio a tarde incandescente. E, no fim dela, uma caminhada extensa às margens da rodovia. O sol se pôs, cinematográfico, detrás dos espinhos dos juremais. Espetáculo soberbo, mas quem se dedicava à cerveja nos botequins às margens da BR 324 importava-se pouco com aquele espetáculo. Depois do pôr-do-sol, vem uma vermelhidão curta e, em seguida, a orla do céu é tomada por uma névoa azulada que se escurece até a noite cair, quase abrupta.
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Atualizado em: Seg 24 Maio 2021

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