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Crônicas de uma viagem eleitoral IV

Agenda intensa no sábado: as inaugurações dos comitês de campanha, que se misturam à feira-livre. Numa praça mais afastada, o grande espaço para os shows juninos. É uma antiga praça, larga, muito longa, quase sem árvores. O pouco verde é acanhado, incapaz de atenuar o sol inclemente. Sem as festas, é tudo muito triste: o cimento áspero, três lances de arquibancada, sujos e maltratados. Às vezes, um transeunte aproveita a área como atalho, encurtando a travessia.
Em volta, bares, restaurantes, pizzarias. À tarde e à noite, nos finais de semana, enchem. Mas, mesmo assim, nada espanta a desolação e a tristeza daquele extenso pátio de cimento rústico, sem vida. Raramente aquilo se anima, atrai gente. Sob o céu que lembra uma lâmina de aço, imaginam-se árvores frondosas ali, tornando a vida agradável, atribuindo um sentido social àquela desolação cimentada.
Na feira-livre, pouco ânimo: pandemia, crise econômica. Tomates, cebolas, cenouras, abóboras e batatas inglesas repousam sobre as bancas de madeira. Pouca gente transita nos corredores estreitos, seleciona os produtos. Uma cobertura metálica sustenta uma sombra pegajosa que poupa a gente do sol. Adiante, o vento sacode a roupa à venda nas barracas de madeira. Os artigos de alumínio reluzem sobre lonas pretas, no calçamento. Quem vende, enfada-se à espera dos consumidores.
Ânimo mesmo se vê nos bares minúsculos que margeiam a feira-livre. Jovens com camiseta e idosos com gibão disputam mesas e balcões, aglomeram-se, falam aos berros, riem, cumprimentam conhecidos. Esvaziam-se garrafas de cerveja e o cheiro convidativo de fígado frito atiça a fome porque o meio-dia se aproxima.
O palco político é bem mais teatral. O de sempre: bandeiras, músicas, adesivos, entusiasmadas declarações de apoio. Gente que circula, mesmo com o calor indescritível sob o céu branco. Nos discursos, a ênfase medida, a indignação calculada, as promessas de um novo recomeço que, a cada quatro anos, sempre se renovam.
– Não vão nos intimidar! – Esbraveja um orador, insinuando ameaças.
Sob o sol impiedoso, a encenação cansa logo. Gente do povo passa, examina, furtiva, segue adiante, pouco disposta a manifestações de entusiasmo. De pitoresco, só os bêbados: mesmo cedo, há quem se equilibre com dificuldade; alguns são assertivos, outros divagam com o olhar imerso na névoa da embriaguez. E saem, trôpegos, mal equilibrando o copo plástico de cerveja entre os dedos.
No meio da balbúrdia, um episódio curioso. Um idoso de escassa, mas revolta cabeleira, começou a seguir-me. Desconhecido, com um bloco de notas na mão e uma caneta, despertava desconfianças. O grisalho acompanhava, pateticamente, meus movimentos. Dançava aqui, cumprimentava outro ali, efusivo, mas mantinha a perseguição; chegou a se agachar para examinar as anotações, apertando os olhos para decifrar os garranchos. Lá adiante, o equívoco se desfez:
– Seja bem-vindo! Pensei que era gente da KGB! Pensei que era gente da KGB! Seja bem-vindo!
Depois eu soube que o segurança do prefeito também me seguira. Aquele, porém, tinha método: não fora percebido. O sol ardente, o volume ensurdecedor das músicas de campanha, aquele entusiasmo ensaiado, tudo cansa. Pelo menos o sarapatel no almoço compensou um pouco aquela aporrinhação. Sob o sol escaldante, a feira-livre também estertorava.
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Atualizado em: Qua 19 Maio 2021

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