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a lamuria do poeta

Na tentativa de espantar a urucubaca e encontrar um lugar de balacobaco, resolvi sair para tomar uns gorós. Já era quase meia noite, a lua estava dependurada no céu e apesar da ziquizira que insistia em me seguir como uma nuvem negra nas ultimas semanas, fui à busca de uma birosca qualquer. Eu só queria beber uns querosenes e comer uma gororoba que matasse a minha fome.
Eu já tinha caminhado algumas quadras quando percebi que estava sendo seguido por um galalau. Fiquei cabreiro com aquele fariseu, pois o cara podia estar carregando um trabuco e querer me saltear. Com sebo nas canelas entrei na primeira chafarica que encontrei com as portas abertas; um botequim que poderia ser indicado ao prêmio espelunca do século. Mas quem sou eu para ficar de queixume? Além da pindaíba que eu andava ultimamente, estava vestido de maneira bem chumbrega.
Chegando ao balcão da baiuca, pedi uma birita. Enquanto eu esperava, uma rapariga remelenta se aproximou toda serelepe me perguntando se eu gostaria de fazer um programa. Com minha cabeça em desarranjo e sem muita paciência, respondi que adoraria, mas teríamos que deixar para a próxima encarnação. A lambisgoia me olhou com asco, saiu resmungando e foi oferecer o seu cabritismo a outro camumbembe.
Com fome, pedi um ovo cozido, mesmo sabendo que sofreria um ataque terrorista de flatulência até o dia seguinte; mas era o que eu poderia pagar naquele momento. O mequetrefe do garçom, para puxar conversa, me perguntou onde eu morava e no que eu trabalhava. Fiz de conta que já estava de pileque e sorri fazendo o sinal de positivo com a mão. O atendente bocó ficou com cara de bunda; minha vontade mesmo era de meter uma pitomba na orelha do enxerido. Comecei achar que já era hora de ir para casa. Paguei a conta e antes de sair, precisei ir ao banheiro.
Chegando lá, diante daquela espurcícia, quase vomitei as tripas enroscadas na minha poesia. Disse algum sábio que se reconhece uma boa taberna pela higiene do banheiro; achei que tinha entrado na fossa da casa do capeta. Ao respirar aquele ar impregnado de chorume percebi que havia ingressado no mundo da pestilência.
Saindo meio entojado do dejetório, percebi que um dos fregueses que estavam jogando sinuca era o homem anfigúrico que eu jurava estar me seguido pela rua quando entrei naquele lugar. Inicialmente me assustei, mas confesso que me senti um pouco esquizofrênico por ter imaginado que o cara estava me seguindo; provavelmente ele apenas se dirigia para a mesma locanda xexelenta que eu havia entrado.
Deixei aquele submundo da graveolência para voltar para casa. Apesar da minha carraspana, mirei na calçada e comecei a andar. Uma cambaleada aqui, outra titubeada ali e fui seguindo o meu caminho. De repente ouvi passos atrás de mim; olhei para trás e não pude acreditar no que estava vendo... vendo novamente. Aquele sujeito que eu primeiro achei que estava me seguindo e que depois achei que era coisa da minha cachimônia, estava realmente me seguindo. Aquilo não podia ser uma simples coincidência. Acelerei o passo com a intenção de despistá-lo.
Entrei por uma rua, dobrei uma esquina e cagão que sou me atrapalhei todo e fui parar em um beco sem saída. Ouvi os passos se aproximando e tentei me lembrar de algum golpe de karatê ou kung fu que eu tivesse visto na TV; mas eu também não tinha colhão para atacar um matulão daquele tamanho. Resolvi ficar parado rezando e pedindo ao Pai Celestial para me livrar de qualquer iniquidade. Em meio à escuridão daquela ruela, vi a silhueta horrenda do homem que se aproximava... era o meu fim.
Quando o grandalhão parou na minha frente, me olhou com uma fisionomia assustada; ele me parecia desconfiado. Naquele momento a integridade da minha cueca já tinha sido maculada. O galalau respirou fundo e me perguntou se eu era o poeta que publicava livros e escrevia no jornal da cidade. Confuso e ainda nervoso, respondi que sim... e ele me disse que era um leitor apaixonado pela minha obra e que estava a noite toda tentando encontrar coragem para chegar até mim e me pedir um autógrafo.
Ali, entendi finalmente o significado da palavra “alívio”. O homem carregava consigo um livro meu; caminhamos juntos até um local onde tinha iluminação e autografei o livro para ele. Perguntei se ele aceitaria me pagar uma bebida, um ovo cozido e conversar um pouco sobre literatura. O homem, agora me parecendo mais amistoso, concordou se mostrando cordialmente feliz. Após uma estapafúrdia noite, ganhei um amigo leitor. A vida é uma poesia bizarra.
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Atualizado em: Qui 13 Maio 2021

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