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[Eles] acabaram com o Simca Chambord

              Fazendo uma feliz revisitação à música brasileira dos anos 80 (por favor, jovens, não se sintam ofendidos com o vernáculo ‘música’), relembrei deste sucesso de um grupo que levava uma contestação agressiva até no nome: Camisa de Vênus. A pueril narrativa da conquista definitiva de sucesso da família que consegue comprar um Simca (para quem não lembra, o primeiro carro de luxo fabricado no brasil) ilustra o ideário de uma outra época, os objetivos e aspirações de uma sociedade intocada pelas modernidades eletrônicas da atualidade. Para lá da musicalidade explosiva, este fóssil musical propõe uma viagem para o passado onde encontramos a nós mesmos, mais simples, mais convictos, mais inteiros, mais determinados mas, ironicamente, motivados pelo mesmo combustível que nutriu e moveu a humanidade nos últimos 100 mil anos: desejos.

              Antropologicamente, já foi afirmado e comprovado que nosso triunfo enquanto espécie repousa sobre nossa inigualável capacidade de colaboração, flexível e em grandes números (o que nos separa dos insetos sociais, como abelhas, que colaboram em grandes números de forma totalmente inflexível e também nos primatas e até elefantes, que colaboram muito mas só em pequenos números, limitados à quantidade de indivíduos que eles conseguem reconhecer como não sendo inimigos). Entretanto, esta habilidade não foi suficiente para pavimentar a estrada que permitiu que o gênero humano dominasse o planeta: o domínio só foi completo quando aprendemos a contar histórias e acreditar nelas. Você pode, com sorte, convencer um macaco a trocar uma banana por uma jaca mas jamais conseguirá convencê-lo a trocar a banana pela possibilidade de uma cornucópia de bananas no céu dos macacos. Neste ponto, somos diferentes de nossos primos peludos: acreditamos em raças, nacionalidades, religião, empresas, guerras, dinheiro e toda sorte de conjecturas (úteis e inúteis), habilmente construídas por outros como nós, projetadas para cumprir objetivos específicos, ligadas a um tempo, uma necessidade ou simplesmente uma vontade. O faraó não teria conseguido ter sua pirâmide sem contar uma história que envolvia o aparente absurdo fato de ele ser um deus mas tão importante quando contar uma história e conseguir convencer parte importante da sociedade desta narrativa. O resto é história.

              Para Alfredo Conde, o homem ‘é um milagre químico que sonha’ mas talvez o que ele não tivesse conjecturado é que esta capacidade de sonhar, de se maravilhar, de aspirar, de contemplar é o motor de todo desenvolvimento humano. Parece triste que precisemos de uma narrativa não necessariamente verdadeira ou mesmo razoável para poder colaborar e prosperar, em oposição à perspectiva que pudéssemos atingir nosso potencial pela simples busca focada de objetivos concretos. Talvez um dia consiguamos nos erguer acima desta hábito pré-histórico de contos e fantasias e possamos ser uma civilização que domine seus próprios instintos e os remodele de forma a forjar uma nova espécie: homo objetivus, sei lá.

              Para evitar a decepção de quem ache que o título era um click bait, Juscelino se encantou com a Societé Industrielle de Mécanique et Carrosserie Automobile e cedeu um terreno para a empresa em Minas Gerais, onde passaram a fabricar o Simca Chambord, com deliciosos incentivos fiscais. Ao contrário do que a música insinua, não foram os militares mas o advento do Dodge Dart que acabou com o Simca, abrindo espaço para que a sociedade tivesse novos sonhos, novos desejos e, assim, ‘sic transit gloria mundis’.

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Atualizado em: Ter 4 Maio 2021

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