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Elogio à incompetência

              Durante muito tempo, a sociedade reconheceu êxitos e conquistas como sinais de habilidade e astúcia. Quando uma pessoa queria cristalizar a atenção e até a admiração de seus conterrâneos, narrar façanhas realizadas sempre foi uma estratégia eficiente, mostrando que esta pessoa triunfou, apesar das dificuldades, da concorrência e do imponderável. E isto não valia somente para descobertas e obras-primas: podia ser visto também no cotidiano das pequenas contribuições. Fazia sentido pois a coletividade entendia que o progresso vinha preponderantemente pelas realizações de alguns poucos, suas criações em dado momento trarão benefícios para os demais. Em última análise, é uma forma de gratidão.
              Esta é a parte do texto que começa com “mas nos dias de hoje ...”
              Bem, como você pode imaginar, nos dias de hoje, a prática é diferente. Dentro da busca fanática e tresloucada pela popularidade, há uma estratégia que tem sido usada e produzido resultados significativos: a precípua declaração de incompetência. Embora pareça algo que deveria ser mais escondido do que exibido como credencial, a lógica aqui é conquistar a solidariedade do interlocutor criando um clima de tal forma desfavorável que o êxito fica quase impossível, e, desta forma, o medíocre torna-se digno de aplauso. Um exemplo didático:
[30 anos atrás] Estudei muito e tirei segundo lugar no concurso.
[Hoje em dia] Moro em um bairro com poucas benfeitorias, dificuldade de acesso à internet e nenhuma universidade. Minha família sempre foi pobre e não conheço ninguém que tenha se formado em um curso superior. Tive sarampo quando era criança e para mim manter um peso saudável sempre foi muito difícil. Como meu pai não me abraçava, acabei perdendo a data de inscrição do concurso mas através de uma ONG, consegui uma aprovação sem fazer a prova.
              A diferença da narrativa é o foco: a primeira mira a realização como o evento mais importante, a segunda dedica tempo (e paciência do leitor) criando uma atmosfera, como se fosse um conto, listando uma quantidade de obstáculos tão grande que prepara o terreno para que até a desistência pudesse ser interpretada como vitória. A técnica aqui é tentar ofuscar o fato de que dificuldades sempre existiram e sempre existirão e focar a narrativa da presunção que agora somente estes obstáculos são os responsáveis por fracasso que será exposto. Claro que nada disto é feito de forma racional ou até consciente mas isto não torna o mecanismo menos pernicioso. Outros exemplos: “aquele professor não é simpático, por isto tirei nota baixa”, “meu chefe não me aceita, por isto tive que pedir demissão no segundo dia”, “apesar dos meus traumas, consegui ficar na aula até o fim”. Com um pouco de prática, é possível identificar o porqueísmo à distância.
              Quando um jovem passa a usar e abusar desta ferramenta, pelo menos duas coisas acontecem: 1) seu sentimento pessoal de frustração diminui pois ele vê (ou tenta ver) que nada poderia ter acontecido de outra forma, a situação era por demais difícil e não faz sentido martirizar-se por uma tragédia anunciada. Este é o (talvez o único) benefício que advém deste padrão. 2) sua contribuição na sociedade será consistentemente menor do que poderia ser se estivesse imbuído de uma espírito mais combativo, atuante, responsável (este é o grande prejuízo). No âmbito da vida pessoal, somar-se-ão perdas que reforçarão a narrativa fracassista mas na esfera global da sociedade, perceberemos uma diminuição no impeto do crescimento e desenvolvimento em inúmeras áreas. A sociedade usará mais tempo para argumentar o motivo pelo qual não é possível sair da caverna ao invés de realmente experimentar possíveis saídas.
              Imagino que as grandes mentes ainda nascerão e florescerão, criando, descobrindo, desafiando. Ainda bem, porque dependemos delas para seguir viagem. Entretanto, para aparecer um Einstein não é necessário somente sorte mas também que haja uma significativa quantidade de candidatos à Einstein, para que a combinação de oportunidade com dedicação frutifique em alguns poucos e que um deles descubra algo que faz o seu GPS funcionar hoje. A história lembra dos Einsteins, dos Newtons, Mozarts, Kasparovs mas não homenageia os milhares que ajudaram a criar a massa crítica que culminou no sucesso destes gênios e esta dureza injusta é algo que a nova geração não aceita: “eu não quero ser um soldado desconhecido na guerra do avanço da vida: quero ter o meu lugar ao sol e quero agora!”. O pódio, infelizmente, tem poucos lugares e estão reservados para os que tem algo de importantíssimo para contribuir mas esta métrica, em tempos onde todos devem ganhar medalhas de participação, causa desconforto. Para evitar a frustração e a surpresa da perda, a narrativa já é iniciada colocando o fracasso como saída óbvia, imediata, inevitável: qualquer desfecho diferente disto é pura genialidade.
              Isto parece ser a mera reedição da mais antiga contenda da humanidade: o conflito de gerações. É o velho reclamando dos celulares e videogames. Por outro lado, pode ser uma avaliação racional e parcimoniosa de uma realidade que começa a se alastrar a fazer vítimas, primeiramente na forma de falta de sentido para a vida, depois mutilação e suicídio entre os jovens. O enfoque aqui é de longo prazo: a roda vai girar mais lentamente e não estamos preparados para isto: nosso modelo econômico exige crescimento constante, novas ideias, novas políticas, produtividade. Seria ótimo pensar que este problema vai finalmente solucionar o dilema da qualidade de vida e finalmente nos encaminharmos para a ‘vita semplice’ mas este não passa de um wishful thinking.
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Atualizado em: Seg 5 Abr 2021

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