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MEA CULPA

Caro (e)leitor. Venho respeitosamente dirigir-me a sua pessoa para tecer algumas considerações acerca de suas escolhas políticas. Antes que você retruque (com toda razão) “quem é esse sujeitinho enxerido para me dar conselhos e intrometer-se em minhas preferências pessoais?”, contraponho que sou um irredutível defensor da livre manifestação (concordando ou não com ela), sobretudo o inviolável direito ao voto, em consonância com os primados da democracia que tanto prezo. Deixo claro, pois, que minha intenção aqui não é a de objetar suas escolhas mas apenas inteirá-lo acerca das nefastas consequências que uma opção equivocada pode acarretar, a fim de que você exerça seu direito de maneira abalizada.
Esclarecido isso, passemos ao objeto de minha missiva. Se você está minimamente informado sobre a situação atual, deve saber que o Brasil tornou-se o epicentro da pandemia no mundo. Como ilustração, trago-lhe um dado alarmante: embora tenhamos 2,7% da população do planeta, o país, nesses fatídicos dias de março de 2021, concentra vergonhosamente 28% dos óbitos diários por COVID no mundo. Ou seja, de 10 pessoas que morrem no planeta, três são brasileiras. Atualmente, o país é disparado aquele em que mais estão ocorrendo mortes. Trágico, não? E a situação continua piorando!
A sensação é de que, face à escalada da doença, perdemos totalmente o controle da situação (se é que alguma vez o tivemos). Algo precisa ser feito com urgência para evitar que mergulhemos ainda mais fundo no morticínio.
O mundo que via o Brasil como um país simpático e acolhedor, assiste agora perplexo e temeroso à multiplicação de mortes e de variantes cada vez mais letais, ante uma lerda e descoordenada resposta das autoridades sanitárias.
Obviamente, alguma coisa está muito errada na condução da crise. Não é preciso grande esforço cerebral para perceber que o problema está centrado na figura do presidente da república, um sujeito claramente desqualificado para coordenar uma solução à altura da gravidade do problema. Antes mesmo de eclodir a crise pandêmica, o personagem em questão já vinha dando mostras cabais de sua inépcia em assumir as elevadas responsabilidades inerentes ao cargo a que foi alçado.
Há grande chance de você ter sido um dos 58 milhões de brasileiros que tomou a infeliz decisão de colocar o referido indivíduo nessa proeminente função para a qual visivelmente não se encontra capacitado.
Não vou entrar nas razões que determinaram sua escolha. Respeito sua decisão e quero crer ter sido fundamentada em critérios legítimos. É provável que você tenha agido com a nobre intenção de dar ao país a mais auspiciosa alternativa.
Mas, acreditando que em seu âmago permaneça um resíduo de bom senso, presumo que, ao ver o dramático quadro a que chegamos, você deve estar se indagando se vale a pena insistir nesse apoio. Muitos que acompanharam a sucessão de desvarios produzidos pelo infausto titular do poder máximo da nação tiveram a humildade de reconhecer seu desacerto. Fieis ao prudente provérbio que afirma que “errar é humano mas persistir no erro é burrice”, fizeram uma alvissareira revisão crítica de sua postura. Outros, em conformidade com o não menos sábio ditado que proclama que “o pior cego é o que não quer ver”, recusaram-se a reexaminar sua posição.
Os primeiros fazem jus à nossa compreensão pois reconheceram que foram induzidos pelo legítimo propósito de moralizar o país e renovar o quadro político. Ao perceberem, porém, que as promessas não foram revertidas em ações, reconsideraram a justeza de sua opção. É provável que já tenham feito uma autocrítica e hoje estejam (para usar um termo hodierno) “vacinados” contra o vírus da enganação. Sendo esse o seu caso, parabenizo-o por sua honesta reavaliação e convoco-o para militar ao lado daqueles que querem resgatar o país do obscurantismo em que mergulhou.
Há, por outro lado, uma considerável legião dos que teimam em permanecer no mundo das trevas. Para alguns desses, a ficha simplesmente não caiu. Para outros, ainda que a ficha tenha caído, o orgulho impede de reconhecer a burrada.
Àqueles que ainda defendem o presidente, mesmo com as reiteradas evidências de sua absoluta incompetência, só posso atribuir seu posicionamento a um problema cognitivo: falta de informação, ingenuidade ou ignorância mesmo. São pessoas guiadas pela pregação religiosa que evoca a figura mítica do “redentor da pátria”, sendo imunes a argumentos racionais. Se você se inclui nessa categoria, recomendo que não perca mais tempo na leitura desse texto. Só me resta aconselhar-lhe uma reciclagem educacional, talvez voltando aos bancos da escola primária e retomando o bê-á-bá e a tabuada.
Debrucemo-nos àqueles que mesmo percebendo a encrenca em que se meteram e meteram toda uma nação em desespero, apegam-se com unhas e dentes à sua insustentável posição. É exclusivamente a esse grupo que o texto é destinado. Referimo-nos a pessoas mais esclarecidas, que têm alguma dose de discernimento, lêem jornais, informam-se do que acontece no mundo, elaboram ideias e não se pautam por fake news.
Ao ver diariamente estampadas nas manchetes as declarações e as ações estapafúrdias do bronco inculto que preside a nação, são invadidos pela amarga percepção de que sua escolha possa não ter sido tão feliz.
Recordam-se com constrangimento que, nas eleições, dispondo da alternativa de escolher um engenheiro, um médico, um advogado, um administrador, um educador e uma ambientalista, preferiram escolher um jumento. Ok, imaginaram que alguém fora do sistema, podia mudar radicalmente o modo de fazer política.
Ainda assim, são orgulhosos demais para reconhecerem a cagada. Não querem dar o braço a torcer. E sofrem todo o dia por sentirem-se na obrigação moral de defenderem o embuste que escolherem para não perderem, perante seu círculo de relacionamentos, a condição de sábios infalíveis que se autoproclamaram. Tentam em vão achar um resquício de sensatez na estapafúrdia verborragia do mandatário de plantão.
Perante os filhos e os netos, têm que fazer exercícios semânticos para explicar por que manter um arsenal em casa é melhor do que uma biblioteca. Na reunião com os amigos, preferirão direcionar a conversa para pautas menos embaraçosas como as virtudes do neoliberalismo e o programa de privatizações de Paulo Guedes. Têm que vasculhar virtudes na devastação do meio-ambiente e rebuscar lógica na destruição da cultura.
A nação civilizada e próspera que pretendiam legar a seus descendentes agora parece ter ficado a séculos de distância. Ao invés disso, conjuraram uma terra arrasada, com pacientes amontoados esperando indefesos pela morte nas filas das UTI’s, enquanto aquele que foi eleito para cuidar do povo passeia de jet ski e propositadamente  provoca aglomerações, indiferente à tragédia das famílias enlutadas.
Se você está nesse grupo, imagino perfeitamente a angústia que o aflige. A todo o dia, ter que esquecer os caros valores que assimilou com seus antepassados e os ensinamentos que aprendeu com seus mestres para fazer propaganda da cloroquina e desfilar em patéticas passeatas clamando pela volta da ditadura.
Teve que abrir mão das maiores referências do campo das ciências, das artes, da cultura e dos personagens de renome que tornavam nosso país digno de admiração para alinhar-se aos Ratinhos, Netinhos e Ronaldinhos, os tipos comezinhos, mesquinhos e daninhos que passaram a integrar seu admirável mundo novo.
Absteve-se de acompanhar os noticiários pois não suporta mais todos os veículos sérios da imprensa  jogarem na sua cara as insanidades cometidas diariamente pelo governo que você ajudou a eleger. Abdicou da ciência e aderiu à imbecilidade e à propagação de mentiras nas redes sociais para escamotear a pungente realidade dos fatos que imagina conspirar contra si.
Apelo, prezado (e)leitor, para que confronte suas escolhas estapafúrdias, faça uma dura mas imprescindível mea culpa e reflita comigo: “Ok! Não deu certo! Cometi um engano fatal, já paguei meus pecados nesses dois anos de amargura e desilusões. Como cidadão de bem, vou agora trabalhar para que volte a ter orgulho do país que amo. Devo lutar pela destituição desse estrupício da vida dos brasileiros para que possa retomar uma vida mais profícua junto a meus conterrâneos”.
Não é fácil, reconheço, lidar com a frustração de encarar de frente a culpa por esse erro mastodôntico. Mas é preciso que você desonere de sua vida esse estorvo que está atravancando seu convívio social e seu bem-estar pessoal. É necessário que você expie seus pecados para se redimir perante si mesmo e a sociedade a que sua malfazeja escolha tantos males causou. Como pessoa correta e íntegra que continua no fundo sendo, você deve se isentar da cumplicidade pelas coisas ruins que vêm ocorrendo, decorrentes de seu ato insano.
 Será um ato catártico de libertação pessoal, uma explosão regeneradora que o tornará apto a retomar a vida com altivez. Certamente você vai se sentir mais leve em fazer a coisa certa. Força! Você consegue!
FORA BOZO!
 
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Atualizado em: Seg 5 Abr 2021

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