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Segundo Conto Ébrio

– Não precisa, não! A gente está bebendo outra cerveja. Muito obrigado!
O chileno engasgou com o sorriso e lançou uma chispa de ódio. Mas mantinha os dentes à mostra, tentando camuflar a surpresa. Voltou para a mesa que ocupava, do lado, na calçada. Estavam sob a sombra frondosa de uma árvore. Aos poucos absorveu a recusa imprevista. Ficou de lá, sustentando o sorriso débil, entabulando papo com uma dupla que, noutra mesa, esvaziava, lentamente, uma garrafa de cerveja. Era manhã de sábado e a gente passava, apressada, naquela agitação de quem quer mergulhar na liberdade efêmera do final de semana.
– Bom dia! Alguém fuma? Podem me emprestar um isqueiro?
Era o parceiro do chileno. Chegou depois, encheu o copo, bebeu um gole largo e foi logo examinando as cercanias, medindo a fauna que ocupava as mesas metálicas, vermelhas, do restaurante. Antes sacou ostensivamente um cigarro, levou-o a boca, apalpou os bolsos em busca de fósforos ou de isqueiro inexistentes. Depois, foi logo abordando aqueles quatro sujeitos da imprensa, que bebiam, despreocupados. Os que tinham refugado a cerveja.
Ninguém fumava ali. Um, simpático, lamentou: abandonara o vício anos antes. O fumante que chegara à mesa do chileno emendou outro assunto e, em três minutos, discorria, num papo fluido. Gesticulava com a mesma mão que segurava o copo e que, com dois dedos, mantinha o cigarro preso. Quando notou que prendera a atenção da plateia, avançou:
– Estou aqui conversando com vocês, mas... aconteceu uma desgraça comigo essa semana! Minha filha de três anos morreu num acidente vindo de Salvador pra cá... Vinha numa L200...
E aí despejou um silêncio trágico sobre aquela mesa alegre de sábado. Todos se entreolharam. Balbuciaram pêsames, lamentações, olharam comprido para o chão, ainda úmido da garoa do começo da manhã de agosto. E ele lá, de pé, com os olhos marejados. Naquele grupo um viajava até Salvador todos os dias. Acompanhava a crônica daquelas desgraças rodoviárias, até como testemunha. Vasculhou a memória, diligente. Aquele episódio lhe escapava...
– Não vi nada nos jornais – Comentou, até para exorcizar o silêncio, fúnebre. Era sábado.
– Não registrou ocorrência. Eu sou delegado da Polícia Federal. No meu caso, não é necessário.
Num gesto resoluto, voltou para a mesa do chileno, que acompanhava o teatro com olhos cintilantes. Ficaram de lá, bebendo, examinando as mesas, ocupadas pela gente que chegava para o almoço. O que fizera o comentário observava-os, discreto. A dupla compartilhava a mesma mesa, mas media-se, examinava-se, e, sobretudo, tentava enfronhar-se naquela mesa com os sujeitos da imprensa. Bebiam, parecia que tinham dinheiro. O chileno levantou, aproveitou a viatura da Polícia Militar que passava burocraticamente para cultivar mais um enredo:
– Não gosto da polícia daqui. Fui preso uma vez, em Salvador, porque estava urinando na rua. Só por isso! Vejam só! Só tinha sido preso no Chile, na ditadura de Pinochet – Arriscou, com seu arrastado sotaque castelhano. Aquela gente era de esquerda, jornalista sempre é de esquerda, talvez aquela aventura despertasse atenção.
Fazia o quê no Brasil? “Vim para a implantação do Polo Petroquímico, em 1967. Fui ficando”, esclareceu, com um sorriso mole. O detalhe é que as fábricas foram chegando na década seguinte, lembrou o que observava, numa centelha. Camuflou a descoberta com um sorriso, que o chileno interpretou como concordância.
Papo rendendo, mas o grupo decidiu almoçar lá dentro, alguns tinham compromisso à tarde. Começaram as despedidas, o suposto delegado deu uma cartada arriscada:
– Gostei de todos vocês. Mas não fui com a sua cara – disse para o que ficou observando. Este sorriu: mantivera-se reticente, bloqueando as investidas daquela dupla. Sustentou o silêncio. Um tentou apaziguar, dizendo que o sujeito era tranquilo, gente boa. A tensão se diluiu, todos foram se abancar lá dentro, melhor para almoçar.
Mandaram vir feijoada, fígado acebolado, maniçoba. Farinha e pimenta. Esvaziaram os pratos e as garrafas com as saideiras, um palitava os dentes, muito satisfeito. O outro requisitava o cafezinho da casa, gesticulando, contente, com a pança cheia. O que observava a dupla fazia planos sobre como aproveitar o domingo. Na segunda no começo da manhã, tinha compromisso em Salvador...
– Você é esperto. Ficou de olho o tempo todo. O mais esperto aqui é você.
Foi lá fora, na saída. Quem comentou foi o chileno, que estava desolado: o parceiro, depois de enxugar nove cervejas e mais o tira-gosto, anunciou que ia comprar cigarros num boteco na esquina. Escafedeu-se. E o chileno o aguardava, lá fora, sem esperanças. Suspirava, pesaroso, convicto de que ia arcar sozinho com aquela conta. Maldizia sua imprudência enaltecendo a desconfiança do outro: “Você é muito esperto. Muito esperto. Estava de olho”, dizia, sem cessar, apontando para o próprio olho direito com aquele gesto característico.
A tarde avançava. Os pássaros, que aquietaram ao meio-dia, voltavam, com seus trinados alegres. O movimento declinava: um ou outro automóvel avançava e raros pedestres despontavam nas esquinas. No restaurante, aquela faina apressada para encurtar o expediente. O quarteto da imprensa – era um quarteto – caçava, inutilmente, qualquer palavra de consolo. Despediram-se na esquina, dois foram aventurar a saideira no Laranja’s Drinks, cujos imensos aparelhos de tevê exibiam o futebol daquele sábado.
– Tive que confiscar a carteira de identidade do sujeito. Nem brasileira era. Pagou uma parte, ficou de trazer o resto. Só apareceu na quarta-feira.   
Era o dono do restaurante, um baixinho careca, de gestos cerimoniosos e voz tranquila. Comentou o episódio uma semana depois. Dois deles estavam lá, diante da cerveja gelada, aproveitando mais uma manhã de sábado. O que ficara observando gabava-se de sua perspicácia. Na sua juventude reluzente, relembrava episódio antigo, quase esquecido na memória de muitas farras.
– Uma vez a turma do movimento estudantil foi beber uma cerveja lá no News Drink’s. Todo mundo sem grana, que todo mundo era estudante. Aí apareceu um sujeito dizendo que tinham acabado de puxar o carro dele, que ele passou por ali só para alertar o pessoal. Perguntei se ele ia prestar queixa: ‘Não preciso prestar queixa. Sou policial federal’. Nunca esqueci aquele episódio. E sábado o cara me aparece com a mesma conversa fiada. P*** que pariu, era ele mesmo, puxei pela memória e lembrei...
O outro examinava-o, olhos espantados com aquela perspicácia. Ou era a memória prodigiosa? E ele, orgulhoso de si mesmo, pensou em brincar: “Elementar, meu caro Watson”. Mas preferiu deixar a bola passar. Bebeu um largo gole da cerveja gelada, congratulando-se intimamente.
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Atualizado em: Sex 1 Jan 2021

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