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Festa da Democracia

Não há outro termo para se referir a um evento tão importante como uma eleição que não “festa da democracia”. Santinhos esparramados pelo chão, carros de som às nove horas de uma manhã de sábado, pessoas “bandeirando” à espera de quatro anos de boquinha. “Uma festa danada!”, como diria um ministro de Estado a respeito de empregadas domésticas estarem indo à Disney nas férias.
Mas, vamos nos ater ao dia de votação: você desce as escadas do seu prédio rumo à escola em que irá votar. Os seus vizinhos fazem o mesmo, alguns até já estão mais adiantados, visto que estão retornando para casa. Nisso, você ouve sussurros e “restos de conversas” sobre quem tem mais chance de ganhar ou sobre qual candidato é pior. Há sempre quem saiba algum podre ou teoria da conspiração sobre algum candidato (“uma amiga da prima do meu primo é empregada doméstica do candidato Patinhas e ela disse que ele tem um quarto só para guardar as pilhas de dólares que recebe de propina”).
Aliás, a boa e velha corrupção é um tema que sempre está na boca do povo e dos candidatos. Estes prometem acabar com desvios de uma vez por todas, enquanto aqueles votam em candidatos que sempre se beneficiaram do sistema com a falsa ilusão de que a corrupção será extinta. “Um belo dia vai chegar e o último político corrupto do universo será preso ou morto.” A questão é muito mais profunda, a corrupção está enraizada na sociedade. O cidadão comum tende a ser corrupto. Na Grécia Antiga, berço da democracia, as eleições para posições públicas eram realizadas com uma espécie de sorteio. A ideia era minimizar a chance de oligarcas comprarem seu acesso ao poder.
Voltando ao dia de votação, ao passar pela portaria do seu condomínio e pisar em todo o lixo eleitoral (mesmo com muitos candidatos criticando os recordes de queimadas na Amazônia e Pantanal), você sempre se depara com pessoas combinando de se ver mais vezes, já que há muito não se encontram para uma boa conversa. Encontros estes que só um dia de eleição pode promover. Ao contrário do que se pensa, o brasileiro gasta boa parte de seu tempo trabalhando, tendo uma média de trabalho semanal de 43,5 horas por semana. Número maior que as médias de França, EUA e Dinamarca, que realizam em torno de 38 a 41 horas semanais. Brasileiros preguiçosos? Que nada! Brasileiros entediados da rotina.
Ao chegar na “escola de votação”, sempre há candidatos e assessores fazendo campanha às escondidas, já que a boca de urna é proibida pela lei eleitoral.
Colado na porta de entrada, já é tradição ver o papel sulfite indicando as regiões da escola em que estão distribuídas as salas de votação. Para sua surpresa, sua seção eleitoral fechou e foi anexa numa outra. Então, em plena pandemia, você se aglomera em uma fila para saber qual é a sua nova sala de votação.
Subindo as rampas do colégio rumo ao mais novo “abatedouro” eleitoral, é a sua vez de encontrar um conhecido:
- Há quanto tempo! Tudo bom?
- Fala, Mauro! Tudo bem e você?
- Tô bem... vi seu pai e sua mãe vindo votar hoje mais cedo...
- Sério? Você tá trabalhando aqui?
- Tô trabalhando para um candidado! Vai votar no Fulano Artista?
- Não!
- Vai votar em quem?
- Vou votar em um amigo meu... Deixa eu ir lá, até mais!
- Até!  
Próximo à porta da nova “sala de votação”, a fila está dando voltas. Parece até brinquedo do Hopi Hari nas Noites do Terror (dependendo do candidato, a hora é de terror mesmo). Até os mais engajados politicamente se entediam com a espera. Só ali, você perde uns trinta minutos do seu domingo, tentando ter uma melhor perspectiva para os próximos quatro anos da sua vida.
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Atualizado em: Dom 29 Nov 2020

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