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Igual Maria Casadevall

Olhares que conversam. Era assim toda reunião semanal na sala apertada, apertada demais pra caber o ego do total de 12 homens. A gente se retorcia debaixo da mesa pra que as pernas coubessem no espaço que não deveria estar sendo injustamente ocupado por duas pernas andróginas mal educadas e grosseiras. Numa linha diagonal ela me sorria de lá. “E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contração muscular da boca e dos olhos”. Era assim toda reunião semanal, eu nunca sabia das atualizações, porque não prestava a mínima atenção. Tava sempre perguntando o Roberto o que era mesmo que a gente tinha que atualizar no sistema. E o Roberto toda vez dizia “tava avoada de novo, né, Joana!” e eu toda vez dizia “igual pipa, Roberto”.
Ela sempre vinha me trazer café às três e quinze da tarde, era pontual igual o William Bonner e seu incrivelmente grave “Boa noite”. Pensava comigo assim, analogamente: “se tu vens, por exemplo, às três e quinze, desde as duas eu começarei a ser feliz”. Na última sessão João Castro veio me perguntar se eu ando bebendo muito café, dizendo que não faz bem pra quem tem ansiedade, e aí eu disse sorrindo que não. Não antes das três e quinze. Fora isso eu nem me lembrava de passar café pra minha avó que morava comigo. João também disse que eu precisava parar de sofrer por idealizações, nesse momento eu não ouvi metade do que ele disse. Tava repassando a cena atrás dos meus olhos o andar simétrico da Maria Antônia. O dia que contei o nome dela pra minha avó ela disse: “nossa!” interpretei como espanto junto com admiração, e respondi “Né?”. O nome é forte e quase dono de si mesmo. Até dispensa apresentações. Maria Antônia. Sempre adorei esses nomes autoritários e com sílaba tônica que soa feito trovão na boca. E ela tinha a mesma personalidade que o nome. Só Deus sabe o tanto que aquela mulher me intimidava.
Na cozinha do escritório tem um filtro de barro bem ao lado da máquina de salgadinhos, ela enche a garrafinha dela no mesmo horário que eu faço pausa pra comer Doritos. Enquanto eu coloco a nota amassada na máquina ela dá um jeito de simular que se esqueceu de pegar alguma coisa perto da máquina, daí se estica toda pra pegar essa coisa que é sempre algo diferente. Nisso eu sinto exalando do pescoço dela aquele perfume francês de nome impronunciável. Pra quem não fala francês. Incrivelmente maldosa, mas tão bonita. Desde que entrei na empresa a Maria Antônia não parou de me rondar jamais. E eu adorava. Era uma ouvinte excelente, não me interrompia nem nada assim. Diferente de qualquer outro colega. Ela não tentava me explicar um fato com as próprias palavras o que eu tinha acabado de explicar com as minhas. Nem passava a mão na minha coxa acidentalmente no elevador. Ou encarava descaradamente o meu decote sem querer. Ela era toda pomposa e com a coluna reta, segurava o cigarro igual a Maria Casadevall, da série “Coisa mais linda”. Maria Antônia também era a coisa mais linda daquele ambiente. Perdendo somente pro pôr do sol da janela principal. Mas tudo bem perder pro rei sol.
Me olhava no fundo dos olhos quando conversava comigo e sempre sabia o que dizer quando eu precisava de ajuda com qualquer coisa. Era envolvida com umas causas sociais e diretora de uma ONG. Maria Antônia era também extremamente inteligente. Deus tem seus preferidos. Me lembro até hoje do dia vinte de outubro do ano passado, fomos pra um bar de MPB do outro lado da rua. Com uma taça de vinho na mão e o cigarro estilo Maria Casadevall na outra ela disse: “Ser verdadeiramente radical é fazer com que a esperança seja possível, muito mais do que o desespero seja convincente”. Daí eu senti um arrepio súbito que eu não entendi se era o vento, mas depois eu percebi que era tesão por aquela mulher inteligente. A gente bebeu até uma da manhã e antes de entrar no meu carro parei e perguntei “Bonita aquela frase, ein. Quem disse?” e ela respondeu rindo “eu disse, Joana.” Eu também tive que rir. Quando bati a porta ela grita da esquina “É RAYMOND WILLIAMS” Não sabia que alguém poderia ser tão incrível com menos de trinta anos.
No meio de um assunto sobre Jane Austen e outro sobre novela eu perguntei se ela tinha alguém especial. E é claro que ela também me surpreendeu de novo com a resposta. “Todo mundo é especial, Joana” depois completou “Mas eu não quero romance. Dá trabalho igual cuidar de criança.” Continuei conversando e contei que aquela semana tinha sido um caos planetário e que tudo em mim tava fora do eixo.
- Por que a gente não vai pra um hotel esse final de semana e fica lá bebendo e conversando até perder o rumo?
-Não tem hotel com diária barata no Rio, Maria. -Tem! Conheço um. Vai ser bom, vamos, sim.
Fomos, compramos pizza e duas garrafas de vinho Colonial. A pizza me derrubou, mas fortaleceu ela. O vinho me inibiu e deixou ela desinibida. Nunca tinha ouvido ela contar sobre a família dela até então. Ela disse que no trabalho não era lugar pra ela se mostrar vulnerável, por isso nunca havia me contado. Contou também que me admirava bastante e que adorava o modo como meus olhos reluziam no pôr do sol da janela principal. E como não conseguia absorver o conteúdo das reuniões semanais porque na sala tinha distrações demais. E que ela sempre perdia o fôlego. Só não disse se era porque a sala não tinha ventiladores. Terminada a primeira garrafa e a primeira pizza eu recolhi o que sobrou e fui até a cozinha. Me inclinei levemente na bancada pra alcançar a lata de lixo e senti sua respiração na minha nuca, a mão de segurar cigarro igual a Casadevall na minha cintura e o perfume no ambiente inteiro. Virei de frente pra saber se eu teria coragem de resistir. Mas não, ela me puxou pra perto pelo pescoço e sorriu dentro da minha boca.
O final de semana durou uma eternidade e tudo em mim voltou aos eixos.
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Atualizado em: Ter 28 Jul 2020

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