person_outline



search

Morte de Mãe

A cena ainda se faz bem nítida. Tarde de sol forte. O menino estava do lado de fora, quase que escondido atrás do muro da varanda. Dentro de casa, a mãe desabafava aos prantos: “colocarei fim a este sofrimento”. A depressão não era algo recente. Contava que no dia do casamento esteve prestes a pular de uma pedra e que só não o fizera pois fora avistada por um tio que por ali passava. O tal mal aparecia e sumia de tempos em tempos. Mas dessa vez era diferente. Não passava. O garoto não entendia. Chorava no banho. “Morrer é uma decisão? ”. Tentava imaginar como seria viver sem a mãe. Algumas cenas presenciadas só fizeram sentido muitos anos depois: o pai contando e escondendo os comprimidos, o irmão mais velho chorando depois de flagrar a mãe tentando amarrar um cinto no telhado... Meses de tratamento e nada parecia fazer efeito. A decisão estava tomada. Tirar a vida era a única solução. E não faltaram tentativas. O menino à vira pela última vez num domingo pela manhã. Após o almoço, um pedido ao pai para brincar na casa do vizinho. O pai relutou. A mãe interveio: “deixa eles irem”. A última cena, ela sentada no sofá da sala se eternizaria na memória. Tudo estava planejado. Um minuto de descuido. Aproveitando não ter ninguém por perto, saíra pela porta da sala, caminhou até o final da rua e adentrou uma lavoura de café. Em questão de minutos, o bairro todo estava a sua procura. O menino não tardou ficar sabendo do sumiço da mãe. Embrenhou-se na lavoura junto com o pai que lhe pedia para gritar pela mãe. Gritava com força e medo. Ajoelhou-se, pediu a Deus que ajudasse. Nada adiantou. A noite chegou. Os parentes vinham de longe. O clima era de morte. A noite foi demorada. Um tipo de velório sem féretro, sem corpo. Era impronunciável, mas no fundo, todos pareciam saber o que o dia seguinte entregaria. Por volta das 9h um vizinho se aproxima assustado. Trazia notícias. Havia encontrado a mulher: “infelizmente está morta”. Cessava-se a dor do sumiço. Iniciava-se a dor da perda, da morte. Ela apoderara-se de uma faca de pão, adentrou a lavoura, chegou até uma mata, cortou um cipó e antes de consumar escreveu um adeus com as iniciais dos filhos no tronco de uma árvore. O atestado confirmara: “asfixia mecânica por enforcamento”. Encerrou-se ali uma breve vida. Os motivos até hoje são desconhecidos. A imagem da mãe morta num caixão na sala perturbou o menino por muito tempo. Era difícil olhar para aquele canto da casa sem reviver a cena. Os pesadelos foram uma constante. O péssimo trabalho feito pela funerária contribuiu para fixar na memória uma imagem nada agradável da mãe: machucados visíveis, a cola nos olhos, uma fita adesiva fechava a boca... na mão esquerda, cheia de arranhões, a aliança de casamento, afinal tinha sido um pedido seu. Num gesto triste, o menino alcançou uma rosa que havia dado de presente no dia das mães e um terço que ela sempre carregava e colocou entre suas mãos. O caixão foi lacrado. Uma rápida passagem pela igreja. O padre da paróquia se negou a fazer uma celebração de corpo presente. Enterro feito. Ficara o vazio na casa, na alma. Na cabeça do menino, várias lacunas ficaram e só foram preenchidas anos depois... ou não.
Pin It
Atualizado em: Dom 28 Jun 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222