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Uma manhã mortificadora

Aqueles sete parágrafos que destroçaram minha vida ecoam de diferentes formas com o passar dos dias. Alguns são mais difíceis do que outros, sei que isso acontece com qualquer um, mas estou falando daqueles dias em que o peso sobre as costas se apresenta insustentável, acho que hoje é um deles.

Acordei, mais uma vez, às 5:00 da manhã, todos os dias são assim, acho que meu relógio biológico está viciado, sempre fui de dormir até mais tarde, não muito, ainda assim, nunca tão cedo.

Esse é um fenômeno dos últimos anos, acordo e fico por algumas horas em transe, dialogando com meu pensamento, o que acontece no mundo externo pouco importa. Fico, e, confesso, gosto muito de ficar, em estado de demência. Acho que é o período mais produtivo nos meus dias, pois é nele em que há uma desconexão com os problemas diários, “tá” certo que mesmo nesse período, alguns dos meus diálogos são pesados, mortificadores, mas não hoje, pois que, reconheci, nele, diferente de outrora, o retorno da harmonia entre eu e minhas fábulas, afinal, aproximamo-nos da percepção que não é impossível caminhar dentro de uma compreensão para todo o sempre. Eu e você, minha consciência, temos reciprocidade de admiração, é na mesma proporção que nos completamos.

Quando iniciou o processo que por ora me esmaga, isso tem aproximadamente dez dias, estava lendo o Livro “Crime e Castigo” de  Fiódor Dostoievski, em uma das passagens, o personagem principal, Raskólnikov, em diálogo com um bêbado, Marmieládov, em um bar de São Petersburgo, no qual recebeu muitos ensinamentos, dentre eles um, em especial,  mudou sua percepção sobre o papel das mulheres mais representativas de sua vida, mãe e irmã. No outro dia, a irmã, descobriria ele através de carta enviada pela mãe, estava prestes a casar com um homem a fim de garantir o seu futuro, de imediato, relacionou a tal história com a vivida pela filha do bêbado que vendia o corpo enquanto o Pai gastava o dinheiro dos programas com álcool. Neste momento emergiu o medo de não suportar a carga de ser o culpado pela infelicidade da irmã, afinal, aqueles que temos amor, carinho ou empatia, de forma alguma, o mal queremos produzir.  

Apesar de não ser essa a passagem que ilustra o que tenho a escrever, penso ser muito importante para a compreensão do que é um efetivo exercício de empatia. Nem a mais nobre das causas, individual ou coletiva, é por demais extraordinária que, em sua primazia existencial, justifique o “apenamento” moral de qualquer indivíduo.

O bêbado ponderou, também, que na vida sempre precisamos ter para onde ir, razão para caminhar, para tanto, ele ilustra o fato de procurar algumas pessoas a fim de se obter empréstimos para sustentar seu vício, mesmo sabendo que o pedido, indubitavelmente, seria negado. Todavia, ter para onde ir é, por ele manifestado, a razão fim de continuarmos vivos.

Pois bem, na manhã de hoje, mesmo indo, pois saí de manhã à procura de uma vela para um filtro, me senti assim, sem vontade para continuar, bateu-me profunda angústia dentro do carro, uma ansiedade extrema, aquela impressão de que iria explodir, um pessimismo exacerbado e incontrolável. Sem forças, ainda no percurso, depois de retornar sem o objeto, pois não o encontrei, parei meu carro num estacionamento de uma rede de fast food e ali fiquei, eu e minha consciência, mais uma vez. Só que nesse momento, não era nenhuma lua de mel, era conflito dos mais “brabos”, mais uma vez retrilhei minha trajetória, acho que estava buscando no passado razões para tamanha penitência, fiz muita coisa errada em meu ciclo existencial, mas nunca causei mal de forma deliberada a ninguém, ainda mais de forma tão torpe quanto a que a mim acusam. É difícil pensar só como uma fatalidade, pois cresci com o dogma da ação/reação. Ainda que os anos todos de estudos me repeliram de crenças deterministas, nessas horas, meus queridos, o que queremos é uma explicação, aliás, mais do que querer, precisamos encontrá-la.

Não ter justificativas dói, corrói a alma, acho que com todos é assim, ninguém nasceu para sofrer, somos criados para a felicidade, mesmo o mais pobre dos indivíduos é criado para uma redenção futura, nem que seja no pós morte, mas todos, assim como o bêbado disse, precisamos de um propósito, um destino final ou em curso, mas que nele, lá esteja a felicidade.

            Meu objetivo fim, há alguns anos, tem sido fazer meus filhos felizes ou, no mínimo, menos sofrerem, afinal, a vida dará muitas pancadas, não preciso, eu, contribuir com mais hematomas. Com esse foco liguei meu carro e segui para finalizar as compras que tinha a fazer, pois Matheus havia pedido que comprasse banana, fruta que mais gosta e que acabou tem dois dias, necessitava, também, comprar um lanche  que Silvio tanto adora  em uma padaria nas proximidades de casa. É isso mesmo, aonde chegar, sorriso e gratidão dos meus pequenos, me fez sair, mais uma vez, da inércia.

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Atualizado em: Sáb 13 Jun 2020

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