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Nuvens negras de uma quarentena

Nesse momento meus filhos, Silvio e Matheus, brincam, jogam futebol na garagem. Me chamaram para acompanhá-los, como sempre faço. Nesse período de quarentena, inclusive, combinamos treinar futebol todos os dias. Então, no final da tarde, tiro os carros da garagem, assim aproveito para colocá-los em funcionamento, deixando o nosso espaço livre, “tá” certo, não é uma quadra de futebol, propriamente dita, mas quebra o galho.
Das poucas consequências positivas dessa quarentena, conviver o tempo todo com meus meninos é a melhor delas. Ah, importante pontuar que nesses, quase, três meses, nasceu um goleiro. O Silvio tem o sonho de ser jogador de futebol, pois um dia me escutou dizendo que eu amaria vê-lo jogando no São Paulo, nosso time do coração, isso mesmo, apesar de morarmos em Curitiba, somos torcedores do São Paulo, todos aqui em casa são tricolores, inclusive, diante disso e percebendo que não é tão hábil com os pés, resolveu que quer jogar no gol, eu, como um ótimo goleiro que fui nos meus tempos glórios, feliz fiquei por ter a oportunidade de, diariamente, treiná-lo. Fazemos um treino de verdade, tem alongamento, aquecimento com corrida, treino de reflexo, enfim, coisa profissional, quer dizer, mais ou menos profissional.
E o Matheus? Vocês devem estar se perguntando. Este quer farra, afinal, tem só seis anos, finge que se machuca, faz birra, quer treinar no lugar do irmão só para atrapalhar o processo, mas não posso deixar de falar que tem uma canhota fora do normal. Talvez ali esteja um futuro jogador de linha, daqueles canhoteiros clássicos e marrentos, adoro essa farra, inclusive, acho que Pai é a única coisa que faço razoavelmente bem, pensava ser um bom profissional, mas não sou, diante do ocorrido, chego à conclusão que não o  fui da forma correta. É triste, mas, nesse momento, não tenho forças, prefiro ficar aqui, transcrevendo meus pensamentos para não enlouquecer, até porque se for brincar, não serei o parceiro de outrora, a luz que reluz nos meus olhos nesse momento é reflexo do choro contido, mas que, involuntariamente, ao escapar umidade lacrimal,  essa, reflete o estado de desespero que vivo o hoje.
Dias sombrios viriam pela frente. Me perguntei muito nos últimos meses se a coisa poderia ficar pior por conta das trapalhadas que os gestores do Brasil e do mundo vinham cometendo no combate à Pandemia. Achava isso pouco provável, mas aconteceu, o golpe me levou à lona, diferente do dia que minha mãe ficou internada, não tive reação, acho que porque naquele dia eu sabia que teria que ser eu a correr atrás, então tive que reagir. Agora não, não sei o que aconteceu, mas paralisei, fiquei sem reação.
A história que descrevo tem alguns aditivos de crueldade, faz menos de duas semanas que fui buscar minha mãe num Hospital de Campanha aqui da cidade. Minha velhinha contraiu Covid 19. Quem viveu esse contexto sabe que  é muito difícil segurar os idosos em casa, sei lá, acho que já têm a impressão de que viveram muito, passaram por tantas coisas que um reles vírus não seria capaz de te fazer estrago tão grande, ledo engano, os números de óbitos ultrapassam a casa dos mil por dia, já somamos, nesse momento, quase vinte e cinco  mil mortos no Brasil.
Sim, minha mãe é uma dessas idosas, 63 anos de muita teimosia. Saia de casa para ir à padaria, mercado, banco, enfim, batia pernas sem se preocupar com o futuro. Eu tentava, juro que tentava, mas de forma remota era impossível obter êxito nessa empreitada. Então ficava com o coração na mão e pedindo intervenção/proteção divina para que o pior não acontecesse.
Recebi a notícia que ela estava sendo internada numa sexta-feira pela manhã. Imediatamente, me dirigi ao hospital, na verdade, uma Unidade de Pronto Atendimento do bairro onde meus pais vivem aqui em Curitiba. Meu pai, outro teimoso, não posso deixar de adicionar a ele o mesmo adjetivo, a levou, inicialmente, até uma UBS, de lá, em face da imagem de Radiografia do tórax, identificaram que poderia, sim, ser Covid 19, assim, a transferiram para a UPA mencionada. Só aí fui informado, ninguém me falou nada sobre sintomas em dias anteriores ou que tenha passado mal ou coisa do tipo. Esconderam de mim, aff... os papéis, nitidamente, invertidos, pais “arteiros” escondendo suas artes para não tomarem bronca do filho.
Foi pela ligação de um dos meus três irmãos, Rogério, que fui comunicado. Imediatamente, corri para lá, cheguei num tempo curto, encontrei meu Pai que me passou as informações e depois pedi para que fosse para casa, pois é do grupo de risco, tem 66 anos, hipertenso, diabético, enfim, temia muito que ele também contraísse a doença, pois sabia que sua saúde poderia ser determinante para a potencialização dos efeitos do vírus em seu organismo. Ele refutou, de início, mas consegui convencê-lo mediante a promessa que ali ficaria até tudo se resolver. Minha chegada à UPA aconteceu por volta de 11:00. Era um dia frio, cinzento, como tantos aqui em Curitiba, por ter saído às pressas, acabei que não me agasalhei como deveria, estava com uma blusa fina, tipo moletom com capuz, e uma bermuda dessas de treino, quase um short.
Na unidade não havia nenhum espaço ao abrigo do frio e, mesmo que tivesse, não ficaria, pois estava com muito medo de contrair a doença, só entrava para colher informações e ir ao banheiro, todas as vezes que acessava as dependências, o fazia com extremo cuidado, não encostava em nada. Como forma de me controlar sempre circulava com as mãos no bolso diminuindo a possibilidade de levá-la ao nariz, boca e olhos, já que são os canais para contrair o vírus.
Enfim, ficava na calçada, as vezes sentava no carro, mas, na maior parte do tempo era na calçada que ficava, tive por momentos a companhia de um irmão, o Renato, ele foi quem mais se desorganizou, chegou, inclusive, a ir alcoolizado para a frente da unidade insinuando que queria ver a mãe a todo custo, o controlei, persuadi dizendo que estavam cuidando bem dela, e que, por telefone, já que ela estava com o aparelho celular, havia informado que estava bem. Disse a ele, também, que caso arrumasse confusão poderiam ter má vontade, deixarem de cuidar, dentro do possível, tão bem quanto estavam. Ele acalmou, ficou lá por algum tempo, insistindo sempre que eu poderia ir descansar. Nesse momento já havia se passado umas seis horas desde a minha chegada, aguardando, esperando uma definição acerca da transferência para o Hospital de Campanha, mas, óbvio, não sairia dali tão cedo, ainda mais a deixando sob os cuidados dele naquela situação. Depois de algum tempo o convenci a ir descansar, ele foi e me ligou ao chegar em casa, pois havia pedido para que assim fizesse.
Minha mãe foi internada num final de semana em que a rede de saúde quase “colapsou”, não tinham vagas, foi o primeiro dia na cidade em que as transferências estavam demorando me afirmavam os funcionários. É muito azar, ela foi contrair esse diacho de doença justamente nesse contexto? Mas, enfim, não havia muito o que fazer a não ser esperar.
Aventei, por muitas vezes, a ideia de tirá-la de lá e levá-la a um hospital para servidores públicos do Estado do Paraná, já que ela é funcionária pública aposentada e faz jus a esse atendimento. Todavia, em todas as vezes que levei essa possibilidade, fui desencorajado por funcionários e até pela minha mãe, então recuava, até porque não me perdoaria se tomasse essa decisão e algo ruim acontecesse.
A noite caiu, as horas se passavam e nada de transferência, O frio? esse só aumentava. Um pouco mais de meia noite, Rogério, foi para lá me render. Na boa? não queria sair dali, mas, enfim, precisava permitir que eles também cuidassem dela mesmo que em minha cabeça eu seja a pessoa mais apropriada para fazer isso, sempre achamos que temos um controle maior por estar presente.
Para o meu alívio, ele não poderia ficar lá por muito tempo, pois teria que trabalhar no outro dia, então combinei que iria dar uma rápida passada em minha casa e que descansaria um pouco e voltaria em tempo de ele ir trabalhar. Saí por volta de meia noite e retornei às cinco horas da manhã.
Quase não descansei, nem tinha cabeça, mas, ao menos, pude me banhar e colocar uma roupa mais quente. Ao retornar à UPA, fui informado que ainda não havia previsão para transferência, já tinha mais de 18 horas de espera, um absurdo, mas, como dito, ela estava sendo bem tratada, mas essa espera é por demais angustiante, todavia, esperar, com muita fé, era o que nos restava.
O Sol de geladeira raiou, as horas continuaram a passar e nada, até que se completou vinte e quatro horas. Com fome, fui até uma padaria da redondeza, comi uma esfiha, não era muito boa, prefiro a do “Sujinho”, forma carinhosa que com que uma esfiharia do bairro da indústria que trabalhava era chamada. Não estava com fome, mas precisava me manter em pé, comi como quem come chuchu sem tempero, não sentia gosto algum. Ao retornar, correndo, pois tinha medo de perder sua transferência, afinal, pretendia, ao menos, permitir que ela mirasse seus olhos a mim e percebesse que ali estava, em pensamento, segurando suas mãos.
Por volta de 14:00, minha irmã, Beatriz, foi me “render”, assim, eu poderia comer em casa e descansar um pouco e, sobretudo, buscar o carinho nos olhos e gestos da minha família. O apoio daqueles que muito amamos, mesmo que remoto, sempre nos dá muita força para seguir seguindo, nesse aspecto, confesso, sou afortunado.
Estava muito cansado, depois de me lavar, deitei-me e, rapidamente, dormi, passada quase uma hora de sono, meu telefone que havia deixado ao meu lado na cama, tocou, era Beatriz dizendo que mamãe seria transferida. Levantei-me num golpe só, me troquei muito rapidamente, peguei meu escudo protetor contra Covid 19, minha super máscara de tecido de cueca,  por Deus, cheguei em tempo. Lá estavam Renato e Beatriz. Após uns 15 minutos a colocaram na ambulância, frágil e com um saudoso olhar de despedida, como sou “chorão”, não me contive. Renato muito menos, sempre foi mais explosivo e emotivo, ele, ao ver a camisola aberta que deixava aparecer a roupa íntima de mamãe, não se controlou, assumiu o risco e a ajeitou como quem protegesse a honra da pessoa que mais ama, um gesto simples, mas muito simbólico, ainda mais vindo de quem tantas dores de cabeça deu para nossos pais.
Após fecharem a porta da ambulância, olhei para o lado, vi um amigo de adolescência em situação similar, esperando a sogra, não consegui nem dizer uma palavra de carinho ou apoio, não tinha condições, me despedi de meus irmãos, entrei no carro, fiquei algum tempo parado até que tivesse coragem de voltar para casa.
Fomos informados no momento da transferência que ela não poderia levar nenhum pertence, isso nos deixou agoniados, mas entendemos, pois sabíamos da transmissibilidade do vírus. Todavia, no outro dia, num domingo, tive uma grata surpresa, uma ligação de uma Assistente Social do Hospital de Campanha dizendo que minha mãe estava bem e se ela poderia converter a ligação em chamada de vídeo para que que pudéssemos nos ver. Não preciso nem dizer qual foi a resposta, só não sei o que conversei com minha velhinha, se é que conversei, acho que não, acho que só chorei mesmo. Ana Helena, minha esposa, Matheus e Silvio, também conversaram com ela, foi muito bom, deu muita força, sabe? A assistente social, profissional maravilhosa, ainda deu outra maravilhosa notícia, disse que poderíamos levar alguns objetos pessoais, dentre eles roupas e celular. Ah, minha velhinha também pediu sua bíblia.
Liguei para Ângela, ela separou o que encontrou, faltaram algumas “coisas”, então fui atrás de adquirir o que ainda precisava, até calcinhas descartáveis comprei, a vendedora, inclusive, me olhou com um olhar de julgamento, nem liguei, sou muito tranquilo  em relação a isso, afinal, desejo sexual ou gênero não são definidores  de caráter nem de personalidade, então, aquele olhar pouco disse. Ah, tem um detalhe importante, ao chegar em casa, percebi que eram, talvez, pequenas demais, as calcinhas, para o perfil da minha mãe, mas, fazer o que? Vai assim mesmo.
Foram aproximadamente dez dias de internação e, graças a Deus, numa quarta-feira, a busquei em alta, quanta felicidade, olhares trocados, muitos “Eu te amo” ditos e a fé renovada. Isso requeria comemoração, não me contive, no domingo fiz até churrasco, murcho, mas fiz, não haviam convidados, a não ser os meus aqui de casa. O que não sabia é que nesse dia alguns parágrafos me levariam de volta ao buraco, não sei se mais ou menos fundo, mas a ele me fez retornar. Curiosamente, a mesma tecnologia que trouxe acalento, dessa vez traria a dor. Mas essa é uma outra história de uma outra conversa.

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Atualizado em: Qui 11 Jun 2020

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