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A oferta

Levantou a cabeça e conferiu mais uma vez. Sim, a igreja estava vazia. Que bom. Não ficaria nada fácil explicar o que ele fazia com todo aquele dinheiro. Qualquer um que entrasse e o visse ali com tanto dinheiro na mão diria: O Pastor está roubando a igreja!

Mas o que ele poderia fazer? Ele havia ido lá apenas para pegar o dinheiro das ofertas da noite anterior para depositar na conta da igreja, e se deparou com aquela bolsa cheia de notas ao lado do gazofilácio.

Quem poderia ter deixado isso lá? Não conseguia lembrar de alguém no culto carregando aquela bolsa. Começou a sentir o pânico tomar conta. O medo de ser pego o fez agir. Achou melhor ir para a salinha nos fundos que ele improvisava como gabinete. O salão era alugado, e não havia espaço para expansões. Abriu a bolsa mais uma vez e começou a contar o dinheiro.

Quanto deveria haver ali dentro? Tantas notas. Com certeza mais de cem mil. O que fazer? O coração acelerado. Seria realmente uma oferta? Uma providência divina? Mas tanto dinheiro assim? Quem? Não estaria ele ainda sonhando? Sim, havia ao menos uns trezentos mil ali.

Sua mente não esperou para ter certeza; começou a fazer contas e planejar loucamente. Poderia finalmente fazer uma oferta ao dono do templo, ou até procurar um outro lugar onde fosse possível construir um templo ainda maior. Sua imaginação caminhou por novas cadeiras, um sistema de som novo, novos instrumentos, ar condicionado, tantas coisas, a igreja cheia, os pensamentos agora não paravam mais, atropelavam-se um após o outro.

Olhou a hora. Ainda precisava ir ao banco. Teria que ir com bastante cuidado para depositar aquele dinheiro todo. Será que alguém na rua adivinharia que ele carregava dinheiro naquela bolsa e tentaria roubá-lo? E no banco, desconfiariam de algo sobre a origem do dinheiro? Não sabia. Talvez fosse melhor ir depositando aos poucos. Ou mesmo, nem depositar e sim guardar e planejar uma oferta para comprar algum imóvel. Mas daí onde guardaria o dinheiro? Não, o melhor seria mesmo depositar.

Pôs-se então a contar toda aquela dinheirama. Enquanto contava, sua mente voou e lembrou-se da noite anterior em casa quando calculava o valor das contas que teria de pagar na manhã seguinte. Deu uma parada e apalpou os papéis no bolso para se certificar de que não os havia esquecido em casa.

A lembrança trouxe um pouco da angústia que o impedira de dormir durante quase toda a noite anterior. Estava desempregado, e vivia contando com a ajuda da igreja e alguns pequenos trabalhos que conseguia. Algumas daquelas contas estavam atrasadas já havia algum tempo, e ainda assim, não sabia quando poderia pagá-las. No esforço de diminuir o estrago, precisava escolher o que era mais urgente, e esperar o tempo no qual poderia pagar as outras. Há muito tempo, convivia com ligações e cartas de empresas de cobrança.

E de repente, todo aquele dinheiro. Apenas um maço daquelas notas resolveria seus problemas. Mas, seria certo? Usar aquele dinheiro deixado não sabe por quem e com qual propósito, em benefício próprio? O coração apertou. Lembrou das últimas orações. Tantos pedidos para que Deus o ajudasse. Não aguentava mais tantas discussões com a esposa sobre os pequenos reparos que a casa precisava, roupas novas para as crianças, a falta de atividades em família. Olhar para os filhos estava se tornando tarefa cada dia mais difícil com aquela sensação de cobrança interior. Ele mesmo precisava urgentemente de um tratamento dentário. Mas como, se o dinheiro mal dava para as compras mensais e para manter um pequeno limite no único cartão de crédito que lhes sobrara? Imagine então pregar sobre a prosperidade que vem de Deus se você mesmo não consegue nem ao menos honrar suas dívidas.

Apertou firme um daqueles amontoados de notas. Mesmo assim, mesmo estando naquelas condições não conseguia pegar nem mesmo parte daquele dinheiro para si. Não sem se sentir culpado. E como anunciaria isso aos irmãos? - Vejam só a grande benção que recebemos! Sabendo que lá dentro, estaria se considerando um ladrão, por ter pegado parte daquilo para si mesmo.

As lágrimas do dilema rolaram devagar. Seu interior se contorcia enquanto ele contava nota após nota. Foi retirando maço após maço, contando e anotando à parte. Na sua mente, queria continuar pensando nos planos para a igreja. Mas seu coração agora estava infestado de tantos sentimentos, sonhos deixados pelo caminho, decisões a favor do ministério que pouco a pouco foram sufocando projetos pessoais e familiares. Pensava nos rostos dos filhos frustrados a cada aniversário, Natal, período de férias, por não terem aquilo que tanto queriam, sempre tendo de se conformar com o que dava para comprar.

Sua mente estava muito confusa. Já não tinha certeza sobre o que fazer, então decidiu levar a bolsa para casa e clarear as ideias. Só precisava manter a bolsa escondida até que tomasse alguma decisão. Durante o caminho para casa, vislumbrou uma solução temporária: colocá-la num espaço atrás das gavetas de sua escrivaninha. As gavetas eram pequenas e ele havia percebido há algum tempo que deixavam um espaço entre elas e a parte traseira.

Quando chegou, certificou-se de que a esposa não o veria entrar. As crianças estavam na escola. Correu para o quarto, tirou as gavetas e jogou a bolsa lá dentro. Com cuidado, arrumou as gavetas de volta para que a esposa não notasse.

O que dizer caso ela achasse? Bem, ela não achou. Não no primeiro dia, nem na primeira semana, nem no primeiro mês. A ideia era decidir o que fazer com o dinheiro mas uma vez que o dinheiro estava ali tão perto, à sua disposição, ele não conseguiu resistir.

Começou com uma emergência. Um remédio para a filha caro demais para o limite que havia sobrado no cartão. Ele disse que arranjaria o dinheiro com alguém. Foi ao quarto, pegou algumas notas e disse para si mesmo que colocaria de volta na primeira oportunidade.

Mas não colocou. Pelo contrário. Apareceram mais situações emergenciais e ele aos poucos foi se acostumando a lançar mão de sua fonte secreta. A esposa fazia comentários, e o questionava sobre a origem daquele dinheiro. Ele justificou dizendo que a recente prosperidade da igreja o estava abençoando. E para não levantar suspeitas, todo culto levava um bolo de notas e colocava no gazofilácio quando ninguém estava olhando.

A igreja começou a prosperar, sua família começou a prosperar. Suas pregações agora eram cheias de testemunhos, e muitas pessoas agora estavam se aproximando da igreja ao ver as maravilhas que Deus estava fazendo em sua vida. O clima em casa não poderia ser melhor. Pela primeira vez em anos, pôde fazer uma festa para seu filho mais novo com bolo, docinhos e tudo mais. Pagou por algumas reformas em casa, comprou roupas novas para todos e levou a esposa para jantar. Chegou até mesmo a planejar a compra de um carro.

Dentro dele mesmo, no entanto, nada estava bem. Já não conseguia orar. A culpa crescente por se apropriar de algo que não era seu começava a sufocá-lo. E havia uma sensação contínua de que algum dia, alguém o interrogaria sobre aquele dinheiro. Tinha certeza de que um dia alguém se levantaria durante a pregação, apontaria o dedo para ele e o acusaria: Você é um ladrão!

Todo esse peso foi minguando-o aos poucos. Sentia-se adoecer. Pensava em contar a todos o que havia feito. apenas para se livrar do fardo. Já não se importava se seria condenado e colocado para correr da igreja. Mas temia pela família, e o que poderia acontecer a eles caso revelasse a verdade.

Um dia, estava sentado pensando no que iria pregar, e aqueles pensamentos o invadiram. A angústia mal o deixava respirar. Nem percebeu quando a esposa sentou-se em frente a ele.

- Amor, você está bem?

- Sim, por quê?

- Você está com uma expressão tão preocupada. Parece que está passando mal. Está sentindo algo?

- Só um pouco enjoado, um pouco de queimação, nada demais.

- Amor, eu estava esperando você me contar, mas como você nunca fala... Eu já sei sobre o dinheiro... Descobri faz umas semanas.

Seu corpo enrijeceu, e ele sentiu um calafrio correr dos pés a cabeça. Enfim, fora descoberto.

- Mas... Por que você não disse nada?

- Eu esperei você explicar. Não sabia bem como te perguntar. Não queria que você pensasse que eu estava te acusando de alguma coisa. As coisas estão indo tão bem pra nós.

Enquanto ela falava, ele passava por todas as desculpas que poderia pensar para justificar o que ele havia feito. A esposa continuou:

- A única coisa que eu sei é que esse dinheiro todo não pode ter vindo da igreja.

- Bem, mais ou menos. Eu ainda não sei como, mas esse dinheiro veio sim da igreja.

Agora precisava contar toda a história. A esposa o olhava perplexa, esperando que ele continuasse. Assim, ele começou a explicar como encontrou a bolsa e decidiu levá-la para casa por não saber o que fazer. Depois, acabou mexendo no dinheiro e a cada nova situação que aparecia não conseguiu parar mais. No começo, até que estava muito empolgado com as coisas e situações novas que o dinheiro estava trazendo para a vida deles e da igreja. Mas agora, a culpa transbordava por todos os poros do seu corpo e ele já não conseguia mais suportar...

- Será que não é melhor você se livrar desse dinheiro então?

- Mas, como? Não posso simplesmente entregar pra alguém, ou deixar em algum lugar esperando que alguém pegue. Esse dinheiro foi deixado na igreja por alguém que eu não sei quem é.

- Então, entrega o dinheiro todo na igreja como oferta.

- Mas, e se alguém perguntar quem foi que deu a oferta? E se o verdadeiro ofertante aparecer e disser que havia mais dinheiro antes?

- Daí, você conta a verdade. E se as pessoas te expulsarem da igreja por causa disso, você ainda terá a sua família para te apoiar.

- Você tem certeza que vai deixar passar essa oportunidade de melhorar a nossa vida e das crianças? Todo esse tempo bom que nós temos vivido. E voltar para toda aquela dificuldade de antes.

- Amor, se essa prosperidade não te trouxe paz, ela não pode ter vindo de Deus. E se não veio de Deus, com certeza não é o melhor para nós.

Ele abaixou a cabeça e chorou. Tinha mesmo de acabar com tudo de uma vez. Criou coragem e seguiu o conselho da esposa. No culto seguinte, anunciou uma grande oferta anônima que a igreja havia recebido. Explicou como aquela injeção de recursos iria tornar possível a compra de um novo templo definitivo para a igreja. Todos ficaram alegres, e ninguém fez muitas perguntas sobre o dinheiro. Nem naquele dia, e nem depois.

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Atualizado em: Ter 2 Jun 2020

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