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Por que a ignorância sempre será vizinha da maldade?

“Sua curiosidade é má
E a ignorância é vizinha da maldade...”
(Do espírito- Legião Urbana-1993)
Tenho uma história pessoal muito interessante para ilustrar a pergunta à qual proponho neste texto. No entanto, ela envolve a personalidade famosa, porém controversa, para muitos, do Comendador da República Mestre Bita do Barão. Título esse, ganho na década de 1980 pelo então Presidente da República José Costa Sarney. Talvez não haja no Maranhão, uma figura tão cercada de mistérios e preconceitos quanto o codoense Wilson Nonato de Sousa ou simplesmente Mestre Bita.  
Contudo, o que poucos sabem sobre o maior umbandista do Maranhão e do mundo é que a alcunha recebida de “Bita” nada tem a ver com a Umbanda. Em uma de suas últimas entrevistas, entretanto, ele esclareceu que recebeu esse apelido do seu padrinho em referência ao seu comportamento irrequieto e traquinas. Igual a um bode. Um bode saltitante. Dizia Bita, sorrindo, ao contar a história. Fato, é que ele gostou tanto de ser chamado assim, que o trouxe para a vida adulta. E, só depois, já na Umbanda foi acrescentado o sobrenome ‘Barão de Guaré’. Este, sim, uma homenagem aos orixás guias de sua famosa tenda espírita Rainha Iemanjá.
Mas, e sobre a ignorância ser vizinha da maldade? Qual é a relação com um dos maiores mitos do Maranhão? Divaguemos sobre a ignorância primeiro, pois são muitos os sábios da Ciência, em todos os tempos, os quais têm se manifestado sobre a “Ignorância” dos Seres Humanos. Dentre eles, destaca-se Rui Barbosa, que a respeito dela afirmou: “A chave misteriosa das desgraças que nos afligem é esta; e somente esta: a Ignorância! Ela é a mãe da servilidade e da miséria”. Já para uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu, Johann Wolfgang von Goethe (1749- 1832) - “Não há nada mais terrível que a Ignorância”. Também o Pastor e ativista político Luther King (1929-1968) que foi vítima dos horrores da ignorância em seu estado mais sombrio disse: “- Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância.”
Dito isso, voltemos ao link que há entre o tema proposto e o Mestre Bita do Barão. Mas, para isso, preciso voltar à uma viagem que fiz em 2013 a New Orleans. Cidade localizada no estado americano da Louisiana. New Orleans é envolta em misticismo e história, pois, além de ser considerada a cidade do jazz, a religião Voodoo(Vodu) é bastante conhecida e também faz a fama da cidade. As crenças de origem africana têm um rico passado e uma força cultural riquíssima por lá. Isso explica-se porque sua população é majoritariamente negra, algo em torno de 60%.
Portanto, Nola, como é conhecida a cidade, cultua o Vodu de uma forma bastante aberta, aparentemente sem preconceitos. Ainda bem, porque depois que se estuda o real propósito da religião, nos damos conta de que nada tem a ver com os estereótipos e preconceitos associados à magia negra que são propagados por uma grande parcela da população.
Destarte, foi em busca dessa cidade multicultural, a razão principal da minha ida à cidade. Pois, New Orleans é berço especialmente das influências culturais francesas, espanholas e afro-americanas. E como sou apaixonada por jazz e blues, não havia lugar melhor para estar. Vide, não só sua riqueza musical, como também, sua rica culinária Créole. O que não faltam em New Orleans são festas, sendo a mais conhecida a que acontece em fevereiro, o Mardi Gras. Uma espécie de carnaval onde as pessoas também fantasiam-se e jogam colares, do alto dos lindos casarões em estilo francês, os Mardi Gras.
Deste modo, não por coincidência, pois não acredito nelas, fui justamente na época do meu aniversário, em pleno fevereiro. E, assim, embarquei nessa aventura incrível em terras norte-americanas. E, como toda boa turista, fui comprar souvenirs na mais famosa avenida, localizada no lado francês da cidade: a eletrizante French Quarter. Obviamente, fui atrás dos souvenirs para presentear a família. Ninguém volta de New Orleans sem trazer os mais famosos, os voodoos. Então, eu também estava em busca dos meus voodoos especiais, claro.
E foi numa das muitas lojinhas da French Quarter que dei de cara, literalmente, com uma foto do Mestre Bita do Barão e vários outros souvenirs MADE IN CODÓ-MA- BRASIL. A placa dizia: “Don’t touch”(não toque). Impactante e ao mesmo tempo um aprendizado para mim que sempre soube tão pouco dessa figura cercada de mistérios e preconceito que é o Bita. Foi, então, a partir dessa constatação da minha ignorância que eu despertei para saber mais sobre o mestre maranhense da Umbanda. Porque lá em New Orleans, obviamente, eles sabiam da importância dele para as religiões-afro. Eu, no entanto, por pura displicência, nunca tinha dado o devido valor. Apesar de saber que o Brasil é o maior país africano fora da África. Portanto, muito mais africano do que a elite brasileira gostaria. Razão pela qual não estudamos história da África nas escolas.
A partir daí, voltei para casa com a curiosidade aguçada e pesquisei mais sobre o que Bita do Barão representa. Encontrei não um, mas vários estudos antropológicos (muitos estrangeiros) sobre o mesmo. E, foi através desses antropólogos, tkank you, que pude assoalhar minha ignorância e compreender melhor sua importância para as Religiões Afro-brasileiras. Principalmente sobre o Candomblé e a Umbanda. Nada como o conhecimento para nos abrir novos olhares. Nada como ler e interpretar para aprender. Mas, para isso, precisamos nos desvencilhar dos preconceitos mesquinhos que muitas vezes nos levam à ignorância e consequentemente à maldade.             
Portanto, quando temos acesso aos meios para conhecer, porém, não o fazemos, a ignorância sempre será vizinha da maldade, sim senhor! 
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Atualizado em: Seg 25 Maio 2020

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